Dr. Jonas BernardesNeurologista Agendar consulta

Enxaqueca

Creatina para enxaqueca: por que faltam estudos clínicos

Nenhum ensaio clínico testou creatina para enxaqueca. O que existe é um raciocínio fisiológico plausível, medido em pessoas desde 1994. Entenda a diferença.

Mulher sentada na beira da cama em um quarto de cortinas fechadas, vista de costas e com a mão apoiada na testa; sobre o criado-mudo de madeira, um pote branco sem rótulo com colher medidora e um copo de água

Ninguém testou. Essa é a resposta curta para quem quer saber se creatina serve para enxaqueca. Não existe um único ensaio clínico do suplemento nessa doença, em lugar nenhum do mundo, e a varredura em nove registros de estudos clínicos, brasileiros e internacionais, voltou vazia.

O que não é a mesma coisa que dizer que não funciona, nem que a ciência não sabe nada do assunto. A situação aqui é mais específica, e bem mais curiosa. Existe um raciocínio fisiológico medido em pessoas desde 1994. Existe uma proposta formal de testar a creatina, publicada numa revista de cefaleia. E o ensaio simplesmente nunca saiu do papel.

Esta página conta de onde vem a hipótese, por que ela é plausível, e por que plausível ainda não é motivo para você começar a tomar.

O que a espectroscopia enxerga no cérebro de quem tem enxaqueca

Existe um exame capaz de medir energia dentro do cérebro vivo sem tirar nada de ninguém, e ele se chama espectroscopia por ressonância magnética. Em vez de fotografar a anatomia, lê sinais químicos e devolve a quantidade de certas moléculas dentro do tecido. Na versão que usa fósforo, o que ela enxerga são justamente as moléculas que carregam energia, o ATP e a fosfocreatina.

Em 1994, um grupo italiano apontou essa técnica para pessoas com enxaqueca sem aura e encontrou fosfatos de alta energia reduzidos no cérebro, fora da crise.1 Fora da crise é a parte que interessa. Não era o cérebro em sofrimento agudo no meio de uma dor. Era o cérebro no dia comum, entre um ataque e outro, funcionando com menos reserva do que deveria.

Em 2011, um grupo belga refez a medida no lobo occipital e encontrou a mesma redução.2 A ideia foi ganhando corpo até virar um dos eixos de revisões dedicadas ao metabolismo da enxaqueca, que descrevem a doença como um problema de oferta e demanda de energia no cérebro.3,4 Sendo preciso: o modelo existe e é defendido por pesquisadores sérios, e isso não é o mesmo que dizer que ele já seja consenso.

Se o problema é falta de energia disponível, a dedução se impõe sozinha. Por que não repor a molécula que serve exatamente para isso?

O tamanho do déficit, e o tamanho do que a creatina repõe

A pergunta fica mais interessante porque as duas medidas já foram postas lado a lado na literatura.

Em 2020, um estudo taiwanês mediu metabólitos cerebrais em pacientes com enxaqueca crônica associada ao uso excessivo de medicação, e a creatina total do tálamo estava reduzida em torno de 10%.5 A população importa aqui. São pacientes com enxaqueca crônica e uso excessivo de analgésico, não pessoas com enxaqueca em geral.

Poucos meses depois, um pesquisador sérvio escreveu à revista propondo o passo seguinte com todas as letras. Se falta creatina no tálamo, por que não fazer uma fase de saturação de creatina e ver o que acontece com as crises?6

Os autores do estudo original responderam trazendo o dado que faltava.7 Foram buscar os números já publicados sobre suplementação: quatro semanas de creatina oral elevam a creatina cerebral em torno de 8% a 15% em adultos saudáveis, com o maior aumento observado bem no tálamo. O déficit que eles tinham medido era de cerca de 10%. Ou seja, a quantidade que precisaria mudar é compatível com o que a suplementação consegue atingir.

Mesmo assim, isso continua sendo uma hipótese, porque nenhuma dessas duas medidas foi feita para responder se a pessoa tem menos dor.

O cérebro não responde como o músculo. Num estudo que mediu os dois tecidos nas mesmas pessoas, cinco dias de creatina subiram o estoque muscular em 11%, um ganho estatisticamente claro, enquanto o córtex frontal subiu 3%, sem sair do ruído estatístico.8 O cérebro tem barreira e transportador próprios, e é por isso que os estudos cerebrais trabalham com prazos mais longos. Se quiser esse ponto por inteiro, ele está na página sobre para que serve a creatina.

A proposta de ensaio com creatina foi publicada, e parou ali

O que veio depois de 2020 é a parte reveladora: nada.

A carta que propôs o ensaio acumulou duas citações em seis anos, ambas do próprio círculo de quem escreveu. Nenhum grupo de pesquisa pegou a ideia. Nos nove registros de ensaios clínicos consultados, não há um estudo de creatina para enxaqueca em andamento, concluído ou sequer planejado.

Isso diz menos sobre a qualidade da hipótese do que sobre a economia da pesquisa. A creatina é barata, não tem patente e não tem dono. Um ensaio de profilaxia de enxaqueca exige muitos pacientes acompanhados por muitos meses, e alguém precisa pagar essa conta. Quando não há empresa com interesse comercial no resultado, a conta costuma ficar sem pagador.

Por que “ninguém testou” não é a mesma coisa que “não funciona”

A distinção entre “ninguém testou” e “não funciona” não é preciosismo. Ela orienta a sua decisão.

Quando um tratamento é testado e falha, você fica com uma resposta na mão. A creatina na doença de Parkinson serve de exemplo dentro deste mesmo assunto. O racional era ótimo, o ensaio randomizou 1.741 pacientes por cinco anos ou mais, e não funcionou. Ali a conclusão é firme, e é firme porque alguém gastou anos para produzi-la.

Na enxaqueca não existe esse “não”. Existe uma ausência completa de testes. Sem eles, o cenário comporta as duas coisas ao mesmo tempo: pode funcionar e pode não funcionar, e quem afirmar hoje qualquer uma das duas está inventando. É por isso que você encontra textos entusiasmados na internet garantindo que a creatina trata enxaqueca. E é por isso que eles não têm no que se apoiar.

A comparação com o magnésio deixa a diferença clara

O magnésio é a melhor comparação para entender o que falta aqui, até porque o mesmo tipo de exame avaliou as duas coisas.

Num estudo de 2002, um grupo americano usou espectroscopia de fósforo em pacientes com diferentes formas de enxaqueca e comparou, dentro do mesmo protocolo, o magnésio cortical e o metabolismo energético do cérebro.9 As duas alterações fazem parte do mesmo processo energético e foram medidas pela mesma técnica.

A diferença entre os dois suplementos não está no mecanismo, e sim no que veio depois dele. O magnésio, com todas as limitações que a literatura dele carrega, chegou a ensaios clínicos de profilaxia e foi comparado a placebo em pacientes reais. A creatina não chegou a nenhum. Se você quer o quadro completo do que existe e do que não existe do lado do magnésio, ele está em magnésio para enxaqueca.

Duas moléculas com racional parecido, e só uma delas foi levada ao teste. Basta isso para explicar por que uma entra na conversa clínica e a outra ainda não.

O que um ensaio de creatina para enxaqueca precisaria resolver

Os autores taiwaneses não pararam no “seria interessante testar”. Eles listaram os obstáculos que um estudo desses teria pela frente, e a lista mostra por que a pergunta é mais complexa do que parece.7

A dieta entra na conta, para começar. Quem não come carne tem estoque de creatina mais baixo, e quem come muito tem mais, de modo que um estudo que não separe isso vai misturar dois grupos diferentes. O exercício entra também, porque o padrão de atividade física muda a creatina disponível, e enxaqueca e exercício já têm uma relação própria. Falta ainda saber o que a suplementação prolongada faz com a fabricação própria do corpo, já que o organismo produz creatina sozinho e o efeito de meses de reposição sobre essa produção continua pouco estudado. Por fim, o achado precisa ser confirmado em grupo maior. Os próprios autores pedem cautela com os números de aumento cerebral, que vêm de amostras pequenas.

E há uma pergunta anterior a todas essas, que eles formularam bem: ninguém sabe se a creatina reduzida no tálamo é causa das dores ou consequência delas. Um ensaio de suplementação responderia isso de quebra, o que torna o estudo interessante mesmo que o resultado clínico seja negativo.

O que eu vejo no consultório

A creatina quase nunca chega ao meu consultório pela porta da enxaqueca. Quem tem crise há anos costuma chegar com magnésio, com riboflavina, às vezes com coenzima Q10, quase sempre com a lista já montada por conta própria antes da consulta. A creatina não está nessa lista. Ela entra por outra porta, a da academia, a do cansaço, a do medo de perder memória.

Quando ela aparece junto com dor de cabeça, o caminho na maioria das vezes foi um vídeo ou um podcast sobre energia do cérebro. A pessoa ouviu falar de concussão, de névoa mental, de fadiga, e sozinha fez a ponte com a própria enxaqueca. É uma ponte razoável. Só que foi construída fora de qualquer estudo, e ela não tem como saber disso.

O que eu preciso dizer nesses casos é justamente o que ninguém quer ouvir. Quem senta na minha frente quer sim ou não, e o que eu tenho é uma terceira resposta: ninguém testou. Percebo que isso frustra mais do que um “não funciona”. Um “não funciona”, pelo menos, fecha o assunto.

De vez em quando ouço o contrário, gente dizendo que a creatina deu dor de cabeça. Trato o relato com cuidado nos dois sentidos. É um relato, não um efeito estudado, e em quem já tem enxaqueca é bem difícil separar o que veio do suplemento do que veio da própria doença. Olho a semana inteira da pessoa, não só o pote novo.

A parte em que eu de fato me preocupo é outra. Já vi paciente reduzir por conta própria o que estava controlando a crise para abrir espaço para o suplemento da vez. Aí eu paro a conversa. Testar uma hipótese sem estudo nenhum tem um preço, e esse preço não pode ser o tratamento que estava funcionando.

Quando procurar o neurologista

Enxaqueca tem tratamento com evidência, e é isso que muda o dia a dia de quem tem crise. Procure avaliação se as crises estão mais frequentes ou mais fortes, se você está usando analgésico mais de dois dias por semana, se a dor mudou de padrão, se veio acompanhada de sintoma neurológico novo, ou se você já está montando sozinho uma lista de suplementos porque o que foi prescrito não resolveu.

Trocar um tratamento médico com evidência por uma hipótese não testada é o principal erro que você deve evitar.

Se quiser revisar o seu caso e entender o que faz sentido investigar, me chame no WhatsApp.

Creatina ajuda na enxaqueca?

Não existe estudo que responda isso. Nenhum ensaio clínico de creatina para enxaqueca foi feito, e uma busca em nove registros de pesquisa, nacionais e internacionais, não encontrou nenhum em andamento. Há um raciocínio fisiológico razoável por trás da ideia, porque o cérebro de quem tem enxaqueca mostra menos energia disponível na espectroscopia.1 Mas razoável não é o mesmo que testado.

Quantos gramas de creatina tomar para dor de cabeça?

Não existe dose estabelecida para dor de cabeça, pela razão mais simples possível: nenhum estudo de creatina olhou para esse desfecho. As doses que circulam na literatura foram estudadas para músculo e, mais recentemente, para desfechos cerebrais em outras condições. Qualquer uso precisa passar pelo seu médico ou nutricionista, que vai considerar o seu peso, a sua dieta e a sua função renal.

A creatina pode causar dor de cabeça?

O relato aparece com alguma frequência entre usuários, mas nunca foi medido em estudo. Quem já tem enxaqueca tende a culpar o que mudou na rotina há pouco tempo, e a crise pode ter vindo de sono, de jejum, de álcool ou do próprio ciclo da doença. Se você começou a tomar creatina e a dor mudou de padrão, registre isso num diário de crises e leve ao seu médico.

Se falta energia no cérebro da enxaqueca, por que a creatina não é usada?

Porque falta o passo do meio. Está medido que os fosfatos de alta energia estão reduzidos entre as crises,1,2 e os autores de um dos estudos calcularam que o aumento obtido com suplementação oral seria da ordem de grandeza necessária.7 O que ninguém fez foi dar creatina a pacientes com enxaqueca e contar as crises. Sem esse passo, a ideia continua sendo uma hipótese.

É melhor tomar magnésio ou creatina para enxaqueca?

Os dois têm racional parecido no cérebro, e só um deles foi levado a ensaios de profilaxia comparados com placebo. Foi o magnésio. A creatina não tem nenhum. Isso não transforma o magnésio em garantia, mas coloca os dois em patamares diferentes de evidência, e explica por que só um deles entra na conversa clínica hoje. O que usar na sua profilaxia é decisão médica individual.

Creatina serve para enxaqueca crônica com uso excessivo de remédio?

Foi justamente nessa população que se mediu a creatina total do tálamo reduzida em torno de 10%.5 Isso faz do grupo o candidato mais óbvio para um ensaio futuro, e não faz da suplementação um tratamento. Quem usa analgésico muitos dias por mês precisa de avaliação por um motivo mais urgente do que esse: o próprio excesso de medicação sustenta a dor.


Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer uso ou investigação deve ser avaliado com o seu médico.

Referências

  1. Montagna P, Cortelli P, Monari L, Pierangeli G, Parchi P, Lodi R, et al. 31P-Magnetic resonance spectroscopy in migraine without aura. Neurology. 1994. https://doi.org/10.1212/WNL.44.4.666 2 3

  2. Reyngoudt H, Paemeleire K, Descamps B, De Deene Y, Achten E. 31P-MRS demonstrates a reduction in high-energy phosphates in the occipital lobe of migraine without aura patients. Cephalalgia. 2011. https://doi.org/10.1177/0333102410394675 2

  3. Gross EC, Lisicki M, Fischer D, Sándor PS, Schoenen J. The metabolic face of migraine: from pathophysiology to treatment. Nature Reviews Neurology. 2019. https://doi.org/10.1038/s41582-019-0255-4

  4. Borkum JM. Brain Energy Deficit as a Source of Oxidative Stress in Migraine: A Molecular Basis for Migraine Susceptibility. Neurochemical Research. 2021. https://doi.org/10.1007/s11064-021-03335-9

  5. Niddam DM, Lai K, Tsai S, Lin Y, Chen W, Fuh J, et al. Brain metabolites in chronic migraine patients with medication overuse headache. Cephalalgia. 2020. https://doi.org/10.1177/0333102420908579 2

  6. Ostojic SM. Creatine loading for chronic migraine? Cephalalgia. 2020. https://doi.org/10.1177/0333102420931055

  7. Niddam DM, Wang S. Reply to Letter to the Editor, “Creatine loading for chronic migraine?”. Cephalalgia. 2020. https://doi.org/10.1177/0333102420931051 2 3

  8. Merege-Filho CAA, Otaduy MCG, de Sá-Pinto AL, de Oliveira MO, de Souza Gonçalves L, Hayashi APT, et al. Does brain creatine content rely on exogenous creatine in healthy youth? A proof-of-principle study. Applied Physiology, Nutrition, and Metabolism. 2017. https://doi.org/10.1139/apnm-2016-0406

  9. Boska MD, Welch KMA, Barker PB, Nelson JA, Schultz L. Contrasts in cortical magnesium, phospholipid and energy metabolism between migraine syndromes. Neurology. 2002. https://doi.org/10.1212/WNL.58.8.1227

Dr. Jonas Bernardes

Dr. Jonas Bernardes

Neurologia Clínica · CRM-SP 150216 · RQE 108175

Neurologista em Jaú/SP, dedicado ao diagnóstico e tratamento das doenças do sistema nervoso. Escreve para traduzir o que a neurologia sabe em decisões práticas de saúde. Atende presencialmente e por teleconsulta.

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