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Enxaqueca

Magnésio para enxaqueca: funciona mesmo? O que dizem os estudos

O magnésio ajuda mesmo na enxaqueca? Veja o que os estudos mostram sobre eficácia, mecanismo, formas e dose, com um olhar de causa raiz.

Ilustração do magnésio agindo como uma trava no receptor NMDA do neurônio, reduzindo a hiperexcitabilidade ligada à enxaqueca

Sim, há evidência razoável de que o magnésio pode reduzir a frequência das crises de enxaqueca em parte das pessoas, e faz isso com risco baixo. Mas guarde um porém importante: o magnésio atua na prevenção. Ele não é o analgésico que corta a crise já instalada, e não cura a enxaqueca. O que ele parece fazer é mexer no terreno, deixando o cérebro um pouco menos propenso a disparar.

E é aqui que mora o ponto central deste texto. Enxaqueca não é “uma dor de cabeça forte”. É o comportamento de um cérebro que se excita fácil demais. Quando a gente entende isso, o magnésio deixa de ser mais um suplemento da moda e começa a fazer sentido de verdade, porque dá pra enxergar por que ele deveria entrar nessa história.

Afinal, magnésio funciona para enxaqueca?

Resposta curta: provavelmente ajuda, com evidência de qualidade moderada, e o efeito depende bastante da forma e da dose. Mas aqui o detalhe muda tudo, então vale olhar os estudos de perto.

Um ensaio clínico comparou óxido de magnésio com o valproato de sódio, um preventivo já consagrado. Os dois reduziram as crises de forma parecida, de cerca de 5 para menos de 2 por mês, sem diferença estatística entre eles e sem efeito colateral relevante.1 É um resultado e tanto: o mineral chegou perto de um fármaco de verdade.

Só que nem todo trabalho conta a mesma história, e é preciso dizer isso. Outro estudo testou o magnésio junto com o valproato, e a combinação rendeu mais do que cada um sozinho, chegando a permitir uma redução da dose do remédio. No mesmo trabalho, porém, o magnésio isolado ficou abaixo do valproato.2 Uma terceira pesquisa usou uma fórmula que junta magnésio, riboflavina (B2) e coenzima Q10, e ela melhorou o impacto e a intensidade da enxaqueca, mas não atingiu significância na redução dos dias de crise, num estudo pequeno demais para esse alvo.3

Quando se junta tudo numa revisão sistemática recente, o magnésio oral, sobretudo na forma de citrato a 600 mg/dia, aparece como opção preventiva eficaz e segura. Os autores fazem questão de frisar, no entanto, que os dados ainda são heterogêneos e a certeza da evidência é baixa a moderada.4 Para dar contexto histórico, uma diretriz de sociedades médicas de 2012 já classificava o magnésio como “provavelmente eficaz” na prevenção, uma avaliação baseada em estudos mais antigos (literatura até 2009) e com a ressalva de não ser uma recomendação formal de conduta.5

O que isso significa na prática? Que o magnésio é uma ferramenta real e de baixo risco, não um milagre. Ajuda de um lado sem cobrar muito do outro. Não é o tipo de coisa que resolve sozinha uma enxaqueca frequente e incapacitante, mas é uma peça que faz sentido dentro de um plano maior.

Como o magnésio age no cérebro

Aqui é onde eu gosto de aprofundar, porque entender o mecanismo muda a forma como você encara o mineral.

Comece pelo glutamato. O que ele é, no fundo? O principal “acelerador” do cérebro, o mensageiro que excita os neurônios. Excitação é normal e necessária. O problema é a excitação demais, fácil demais, e é justamente isso que marca o cérebro de quem tem enxaqueca: hiperexcitável, com o acelerador solto e o freio fraco.

E onde o magnésio se encaixa nessa engrenagem? Uma das portas por onde o glutamato excita o neurônio é um receptor chamado NMDA. Em repouso, um íon de magnésio fica ali encaixado como uma rolha, impedindo que a porta abra à toa; ela só destranca quando o neurônio já está devidamente ativado.6 Com o magnésio baixo, a rolha se solta, a porta fica frouxa e abre fácil demais. O resultado é mais excitação e mais desgaste.7

Isso ajuda a explicar um segundo fenômeno. A aura, aqueles brilhos, zigue-zagues ou pontos cegos que algumas pessoas sentem antes da dor, corresponde a uma onda de excitação que atravessa devagar a superfície do cérebro, quase um curto-circuito que se espalha. Pense num limiar, na borda de um copo. Sono ruim, jejum mal feito, estresse e alterações hormonais vão enchendo esse copo até transbordar numa crise. O magnésio parece elevar essa borda, dificultando que a onda comece.8 Com magnésio de sobra, são necessários mais gatilhos juntos para transbordar.9

E tem o pano de fundo. Boa parte da população ingere magnésio abaixo do ideal, e essa falta costuma passar despercebida, porque a maior parte do mineral fica dentro das células e nos ossos, quase invisível ao exame de sangue de rotina.6 Cãibras, sono ruim e tensão podem sinalizar essa carência silenciosa10, sem que isso signifique, por si só, um diagnóstico de deficiência. O magnésio é cofator de centenas de reações no corpo, então, quando ele falta, a conta chega em vários lugares ao mesmo tempo.11

Um cuidado técnico, para fechar o raciocínio: a onda cortical acaba ativando o sistema do nervo trigêmeo e liberando uma substância chamada CGRP, que dilata vasos e participa da dor.12 Esse é o caminho da doença, e é bom saber que o magnésio age antes dele, lá na excitabilidade, e não diretamente sobre o CGRP.

Óxido, citrato, glicinato, dimalato: qual magnésio para enxaqueca?

Essa é a pergunta que mais chega, e a resposta honesta incomoda um pouco: não existe um estudo que compare os sais de magnésio entre si na enxaqueca. Ou seja, ninguém pode afirmar, com dado na mão, “este é o melhor sal para a sua crise”. O mapa geral das formas, com o que a literatura de absorção mostra sobre cada sal, está em o que é magnésio.

O que a gente sabe é o seguinte:

  • Óxido de magnésio: é o de pior absorção e o que mais solta o intestino, por efeito osmótico, chegando à diarreia. Curiosamente, é também o sal com o ensaio clínico positivo mais forte na enxaqueca.1 Uma lição interessante sai daí: na prevenção, o que talvez pese mais seja a dose que chega + a constância, e não a forma “premium”.
  • Citrato / dicitrato: bem absorvido, boa tolerância, e a forma com o sinal mais consistente na revisão sistemática.4
  • Glicinato (bisglicinato): tolerância muito boa, com menos efeito gástrico, mas sem estudo próprio na enxaqueca. O argumento a favor é a adesão, não uma eficácia superior comprovada.
  • Treonato: muito falado por “chegar mais ao cérebro”, só que isso vem de dado pré-clínico e de marketing, não de ensaio clínico de enxaqueca.

Traduzindo, a escolha do sal hoje é mais sobre tolerância e adesão do que sobre superioridade provada. Se um sal te dá diarreia, trocar por outro melhor tolerado é decisão racional, porque o magnésio que funciona é o que você consegue tomar todos os dias.

E a dose? Nos estudos, o magnésio foi testado em geral na faixa de 400 a 600 mg por dia.4,1 Mas atenção: isso é o que a literatura usou, não uma receita para copiar. A dose certa, a forma e o tempo de uso dependem de você (função dos rins, sensibilidade do intestino, outros remédios que você toma, gravidez) e devem ser definidos junto com o seu médico ou nutricionista.

Dá pra pegar magnésio só da comida?

Antes de pensar em cápsula, olhe o prato. É sempre por aí que eu gosto de começar. Boas fontes de magnésio incluem:

  • Folhas verde-escuras (espinafre, couve)
  • Sementes (abóbora, girassol) e castanhas (amêndoa, castanha-de-caju)
  • Leguminosas (feijão, grão-de-bico)
  • Cacau e chocolate amargo de verdade
  • Abacate

Acontece que a comida de hoje ajuda menos do que ajudava. Solo empobrecido, alimentos ultraprocessados e uma dieta pobre em vegetais fazem muita gente viver no limite do magnésio sem perceber. Por isso, cuidar da alimentação não é o “plano B”, é a base sobre a qual qualquer suplemento faz mais sentido. O suplemento entra quando a comida sozinha não dá conta, nunca no lugar dela.

Segurança: efeitos colaterais e quem deve ter cautela

O magnésio é, no geral, seguro e bem tolerado, e nos estudos não apareceram efeitos graves. Ainda assim, todo tratamento é uma troca, e é justo conhecer o outro lado:

  • Intestino solto / diarreia é o efeito mais comum, e depende da dose e da forma, com o óxido sendo o campeão nisso. Doses fracionadas ao longo do dia costumam incomodar menos.
  • Rins: quem tem insuficiência renal precisa de cautela de verdade, porque o corpo pode ter dificuldade de eliminar o excesso. Aqui, a conversa com o médico não é formalidade.
  • Interações: o magnésio pode interferir na absorção de alguns medicamentos, certos antibióticos por exemplo. Vale checar.
  • E, de novo, magnésio é prevenção. Ele não foi feito para cortar a crise que já está instalada.

O que eu vejo no consultório

Magnésio é uma das coisas que eu mais passo, e não só para enxaqueca; é para várias coisas. Eu apresento ele como um relaxante natural, que entra bem naquele cérebro excitado demais que é o da enxaqueca. Mas o que eu mais vejo não é dúvida sobre “qual o melhor magnésio”. É falta de paciência. A queixa que mais escuto vem de quem “já tentou e não funcionou”, e quase sempre a pessoa tomou por duas, três semanas e parou, muitas vezes bem na primeira crise que apareceu no meio. Aí eu explico: magnésio não é analgésico. Ele trabalha devagar, no terreno. Costuma levar dois, três meses, e o primeiro sinal não é “acabou”, é “as crises estão menos fortes”. Quem espera efeito de comprimido de dor desiste antes de dar tempo.

A forma que eu mais uso é o glicinato, depois do almoço e do jantar. É a que cai melhor no estômago, e magnésio só serve se você consegue tomar todo dia. Sempre aviso que ele solta um pouquinho o intestino; se acontecer, não larga, começa com uma dose só no jantar e sobe depois. O melhor magnésio é o que você não larga.

E eu costumo perguntar: você tem cãibra? formigamento? Porque são pistas de que ele pode estar baixo, e quase sempre está. A comida de hoje ajuda menos, com solo empobrecido e agrotóxico, e café, açúcar e estresse vão gastando o estoque o tempo todo. Só que magnésio é uma parte, não a estratégia inteira. Na enxaqueca eu quero olhar o sono, a alimentação, o café, o estresse, o terreno onde a crise nasce. Ele entra junto com a caminhada, com menos café, com mais água. Sozinho, num terreno bagunçado, rende pouco.

Quando procurar o neurologista

Se as suas crises são frequentes, fortes ou vêm atrapalhando o trabalho, o sono e a vida, a enxaqueca merece mais do que um suplemento tomado por conta própria. Merece um olhar de causa raiz: entender os seus gatilhos, o seu sono, a sua alimentação, o seu estresse, e montar um plano em que o magnésio é uma parte, não a estratégia inteira.

É exatamente esse o tipo de investigação que a gente faz numa consulta. Sair do “toma isso para a dor” e ir para o “por que o seu cérebro está disparando tanto, e o que dá para mudar no terreno”.

Se você quer conversar sobre o seu caso e montar esse plano com orientação individualizada, agende uma consulta pelo WhatsApp.

Perguntas frequentes

Magnésio corta a crise de enxaqueca?

Não. Ele trabalha na prevenção, deixando o cérebro menos propenso a disparar, e não foi feito para apagar uma crise que já começou. Para a dor já instalada o tratamento é outro, e você deve conversar sobre ele com o seu médico.

Qual é a melhor forma de magnésio para enxaqueca?

Nenhum estudo comparou os sais entre si na enxaqueca, então ninguém tem como cravar qual é o melhor. Quem acaba decidindo é a sua tolerância: o óxido é o que mais solta o intestino, enquanto citrato e glicinato costumam cair melhor. No fim, a melhor forma é aquela que você consegue tomar todo dia.

Quanto tempo o magnésio demora para fazer efeito?

Conte com dois a três meses. E o primeiro sinal quase nunca é “acabou a enxaqueca”, é “as crises ficaram menos fortes”. Como o efeito é lento, de prevenção, muita gente desiste cedo demais. Constância é o que faz a diferença.

Posso tomar magnésio todos os dias?

Pode. Como preventivo, ele é mesmo de uso diário e contínuo. A ressalva é para quem tem problema nos rins, que precisa de cautela; a dose e o tempo de uso devem ser definidos com o seu médico ou nutricionista.

Dá para tomar magnésio junto com riboflavina (B2) e coenzima Q10?

Dá. Os três são muito usados juntos na prevenção da enxaqueca e não competem entre si. Um estudo com essa combinação mostrou melhora em parte dos desfechos (impacto e intensidade), mas não na redução dos dias de crise. Vale alinhar a estratégia com quem acompanha o seu caso.

Magnésio faz mal? Quais os efeitos colaterais?

No geral é seguro e bem tolerado. O efeito mais comum é o intestino solto ou a diarreia, que depende da dose e da forma e costuma melhorar quando você fraciona ao longo do dia. A atenção maior é para quem tem insuficiência renal. Na dúvida, converse com o seu médico.


Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer uso de suplemento ou medicamento deve ser avaliado com o seu médico ou nutricionista.

Referências

  1. Karimi N, et al. Efficacy of magnesium oxide and sodium valproate in prevention of migraine headache: a randomized, controlled, double-blind, crossover study. Acta Neurol Belg. 2021. https://doi.org/10.1007/s13760-019-01101-x 2 3

  2. Khani S, et al. A comparative study of magnesium, sodium valproate, and concurrent magnesium–sodium valproate therapy in the prevention of migraine. J Headache Pain. 2021. https://doi.org/10.1186/s10194-021-01234-6

  3. Gaul C, et al. Improvement of migraine symptoms with a proprietary supplement containing riboflavin, magnesium and Q10: a randomized, placebo-controlled, double-blind, multicenter trial. J Headache Pain. 2015. https://doi.org/10.1186/s10194-015-0516-6

  4. Jagunmolu H, et al. Efficacy of magnesium supplementation for the prophylaxis of migraine: a systematic review. Egypt J Neurol Psychiatry Neurosurg. 2026. https://doi.org/10.1186/s41983-026-01150-z 2 3

  5. Holland S, Silberstein SD, et al. Evidence-based guideline update: NSAIDs and other complementary treatments for episodic migraine prevention in adults. Neurology. 2012;78(17):1346-1353. https://doi.org/10.1212/WNL.0b013e3182535d0c

  6. Kirkland AE, et al. The role of magnesium in neurological disorders. Nutrients. 2018. https://doi.org/10.3390/nu10060730 2

  7. Hoffmann J, Charles A. Glutamate and its receptors as therapeutic targets for migraine. Neurotherapeutics. 2018. https://doi.org/10.1007/s13311-018-0616-5

  8. Costa C, et al. Cortical spreading depression as a target for anti-migraine agents. J Headache Pain. 2013. https://doi.org/10.1186/1129-2377-14-62

  9. Al Alawi AM, et al. Magnesium and human health: perspectives and research directions. Int J Endocrinol. 2018. https://doi.org/10.1155/2018/9041694

  10. Schwalfenberg GK, Genuis SJ. The importance of magnesium in clinical healthcare. Scientifica. 2017. https://doi.org/10.1155/2017/4179326

  11. Fiorentini D, et al. Magnesium: biochemistry, nutrition, detection, and social impact of diseases linked to its deficiency. Nutrients. 2021. https://doi.org/10.3390/nu13041136

  12. Close LN, et al. Cortical spreading depression as a site of origin for migraine: role of CGRP. Cephalalgia. 2019. https://doi.org/10.1177/0333102418774299

Dr. Jonas Bernardes

Dr. Jonas Bernardes

Neurologia Clínica · CRM-SP 150216 · RQE 108175

Neurologista em Jaú/SP, dedicado ao diagnóstico e tratamento das doenças do sistema nervoso. Escreve para traduzir o que a neurologia sabe em decisões práticas de saúde. Atende presencialmente e por teleconsulta.

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