Dr. Jonas BernardesNeurologista Agendar consulta

Dor na Nuca

Dor na região occipital: por que quase nunca é neuralgia occipital

A palavra occipital diz onde a dor mora, não que doença você tem. Entenda por que a maior parte da dor na nuca não é neuralgia occipital.

Ilustração de pessoa com dor na região occipital, na parte de trás da cabeça

Você chegou aqui com a palavra “occipital” na mão. Ouviu de um médico, leu num laudo, viu escrito num exame. Então vamos direto ao ponto: occipital é o nome da região, não o nome da doença. É o endereço da dor, lá na parte de trás da cabeça. Não é o diagnóstico dela.

Parece um detalhe de vocabulário. É a coisa mais importante deste texto. “Cefaleia occipital” e “dor occipital” dizem apenas onde dói. A neuralgia occipital é outra história: uma doença específica, com critérios formais bem definidos, muito mais rara e muito mais exigente do que o nome dá a entender. A maior parte da dor que aparece na região occipital não é neuralgia occipital. E essa diferença muda o que se investiga e o que se trata.

O que é a região occipital

A região occipital é a parte de trás da cabeça, do alto da nuca até a curva onde o crânio encontra o pescoço. O nome vem do osso occipital, aquele que fecha o crânio por trás e por baixo. Passe a mão pela parte de trás da cabeça: se sentir uma saliência no meio, um pouco acima da nuca, achou a protuberância occipital externa, o marco anatômico que os médicos usam para se orientar ali.

Nessa região se empilham três coisas que interessam. O osso. Os músculos que seguram a cabeça o dia inteiro. E os nervos occipitais.

O principal deles é o nervo occipital maior, e ele guarda uma surpresa: não nasce na cabeça. Nasce no pescoço, nas raízes nervosas da coluna cervical alta, e sobe atravessando camadas de músculo até emergir no couro cabeludo, onde se abre em ramos. Por isso a pergunta “qual é esse nervo atrás da nuca?” tem uma resposta que pega quase todo mundo de surpresa: o nervo que dá sensibilidade à parte de trás da sua cabeça é, na origem, um nervo do pescoço. Há ainda o nervo occipital menor, que cobre uma faixa mais lateral em direção à orelha, e o terceiro nervo occipital, mais medial.

O trajeto desse nervo é onde a coisa fica interessante. Um estudo anatômico dissecou a região occipital de 41 corpos, dos dois lados, e encontrou seis pontos ao longo do caminho onde o nervo occipital maior pode ser comprimido.1 Três deles são o nervo atravessando ou contornando músculo. Os outros três são o que quase ninguém espera: os pontos onde o nervo cruza a artéria occipital.1 Metade dos lugares onde esse nervo pode ser estrangulado não é músculo. É o cruzamento com uma artéria.

E esse trajeto muda de pessoa para pessoa. No mesmo estudo, o padrão mais comum apareceu em 61 dos 82 lados dissecados (74,4%). O nervo cruzou a artéria uma única vez em 78% dos lados. Em cerca de 11% não cruzou nenhuma vez, e em outros 11% passou por fora dela, não por dentro.1 Os autores levantam a hipótese de que é essa variação anatômica que explica por que um bloqueio anestésico funciona muito bem numa pessoa e não faz nada em outra.1 Um cuidado com as palavras: isso é uma hipótese dos autores, não uma relação que alguém tenha medido. E o campo não está fechado. Outros estudos anatômicos acharam números bem diferentes desses, e ninguém explicou ainda o porquê.

Por que a dor da nuca sobe para a testa

Essa é a parte que resolve a confusão de muita gente, e tem uma explicação demonstrada.

Em 2002, dois pesquisadores registraram a atividade elétrica de neurônios individuais na medula cervical alta, na altura da segunda vértebra do pescoço.2 Encontraram 67 neurônios que respondiam a duas coisas ao mesmo tempo: ao estímulo da membrana que envolve o cérebro e ao estímulo do nervo occipital maior.2 O mesmo neurônio, recebendo informação de dentro do crânio e da parte de trás da cabeça.

Isso tem um nome: complexo trigêmino-cervical. Os autores descrevem o achado como um “contínuo funcional” entre o nervo que carrega a sensibilidade do rosto e os primeiros segmentos do pescoço.2 Pense no que isso significa na prática. Se o mesmo neurônio recebe as duas informações, o cérebro não consegue saber com precisão qual das duas disparou. Para a dor, a nuca e a testa são o mesmo endereço.

A própria classificação internacional das cefaleias registra isso quando descreve a neuralgia occipital: a dor pode alcançar a testa e a órbita justamente através dessas conexões trigêmino-cervicais.3 Uma dor que nasce num nervo do pescoço pode ser sentida atrás do olho. Não é a pessoa se confundindo. É anatomia.

Tem um detalhe fino nesse estudo, e ele bate com o consultório. Quando os pesquisadores irritaram quimicamente os músculos suboccipitais, aqueles pequenos músculos da base do crânio, a sensibilização durou bem mais tempo do que quando irritaram a pele da mesma região: cerca de 51 minutos contra 18.2 O músculo profundo do pescoço tem mais poder de amplificar a dor da cabeça do que a pele. Foi o único contraste que o estudo testou formalmente, e é o mais útil dos achados.

Uma ressalva minha, que o artigo não faz: esse experimento foi feito em ratos anestesiados, com estimulação elétrica e química direta. Os autores fazem a ponte com o paciente humano sem ressalva nenhuma. Eu prefiro dizer com todas as letras que o mecanismo está demonstrado no animal e é coerente com o que se observa na clínica, mas não é a mesma coisa que ter sido medido em gente com dor.

Neuralgia occipital: o que ela é de verdade

Chegamos ao termo que provavelmente te trouxe até aqui.

A neuralgia occipital é uma entidade formal. Tem código na classificação internacional das cefaleias, a ICHD-3: 13.4. A descrição oficial diz o seguinte: dor paroxística, em fisgada ou pontada, na parte de trás do couro cabeludo, no território dos nervos occipitais maior, menor ou terceiro, às vezes acompanhada de sensação diminuída ou alterada naquela área, e comumente associada a sensibilidade sobre o nervo envolvido.3

Até aí é o que todo mundo repete. O que quase ninguém conta são os critérios, bem mais exigentes que a descrição. Para preencher o diagnóstico, a ICHD-3 pede quatro coisas, e duas delas costumam passar batido:3

  • A dor tem que estar no território dos nervos occipitais (maior, menor ou terceiro).
  • A dor tem que ter pelo menos duas de três características: vir em crises paroxísticas de segundos a minutos, ser severa, ou ter qualidade de fisgada, pontada ou algo cortante. Preste atenção na construção: são duas de três. A pontada, sozinha, não é obrigatória.
  • Aqui vem o critério que é sempre esquecido. A dor tem que estar associada às duas coisas a seguir, e não a apenas uma: (1) disestesia ou alodínia do couro cabeludo, ou seja, sensação alterada ou dor ao simples toque no cabelo ou na pele da cabeça, um estímulo que não deveria doer; e (2) sensibilidade sobre os ramos do nervo, ou pontos-gatilho na saída do nervo occipital maior. Traduzindo: dor occipital sem alteração de sensibilidade do couro cabeludo não preenche a neuralgia occipital pela ICHD-3.
  • O quarto critério é o mais estranho de todos: a dor tem que aliviar temporariamente com um bloqueio anestésico do nervo. Não é uma confirmação opcional. É critério necessário. Se não alivia com o anestésico, não é neuralgia occipital pelo manual.

Repare no que isso exige: um exame de sensibilidade do couro cabeludo e um teste anestésico. Não é o tipo de coisa que se autodiagnostica pela internet, e é por isso que quem fecha esse diagnóstico é o médico, examinando.

O que a literatura mostra, e é desconfortável

Em 2025 saiu a primeira revisão sistemática com meta-análise da neuralgia occipital: 15 estudos, 579 pacientes, todos de centros de referência.4 É o retrato mais fiel que existe da doença, e o retrato é este.

Não existe um único estudo populacional de neuralgia occipital. Nenhum. Ninguém nunca mediu quantas pessoas na população têm isso.4 Qualquer número de prevalência que circule por aí não tem lastro.

Entre adultos avaliados por dor de cabeça em serviços especializados, a frequência da neuralgia occipital variou de 0,6% a 24,4% conforme o estudo.4 Uma diferença de quarenta vezes, para a mesma doença. Os próprios autores olharam essa disparidade e declararam os estudos incomparáveis entre si.4 Quando o mesmo diagnóstico aparece em 1 de cada 160 pessoas num serviço e em 1 de cada 4 em outro, o problema não é a doença. É o critério que cada um está usando.

Os números explicam essa bagunça. Dos 15 estudos, apenas 2 usaram a ICHD-3, a classificação vigente. E 4 deles sequer relataram se fizeram o bloqueio anestésico, que é o critério obrigatório.4 Os autores escrevem, com todas as letras, que a sobreposição entre a neuralgia occipital e outras dores de cabeça, principalmente a enxaqueca, levanta questões sobre a validade da neuralgia occipital como diagnóstico distinto na literatura atual.4 Nos estudos analisados, 46% dos pacientes com neuralgia occipital tinham enxaqueca junto, embora esse número seja fortemente puxado por um único estudo, e os próprios autores levantem a possibilidade de que ali houve confusão diagnóstica.4

Tem um achado nessa revisão que me fez rever o que eu mesmo escrevo. Todo mundo repete que a neuralgia occipital é uma dor em pontada, em choque. Quando os pesquisadores agruparam o que os pacientes diagnosticados de fato relatavam, a dor mais frequente não foi a pontada: foi a dor opressiva, em 64,6% dos casos, contra 59,2% de pontada.4 E o número da dor opressiva é muito mais confiável estatisticamente que o da pontada, cujo intervalo é largo demais para se apoiar nele.4

Isso não significa que a classificação está errada. Significa outra coisa, e é a chave deste texto: o rótulo, na prática, está sendo aplicado de forma mais frouxa do que o critério exige. A neuralgia occipital dos manuais é uma dor em choque, paroxística, com o couro cabeludo alterado e resposta ao anestésico. A “neuralgia occipital” que sai escrita em muito laudo é, com frequência, dor na região occipital, e nada mais.

Cefaleia occipital: o guarda-chuva

Por isso “cefaleia occipital” é um termo guarda-chuva, não um diagnóstico. Ele só avisa que a dor de cabeça se manifesta atrás. Debaixo desse guarda-chuva cabem, e com muito mais frequência que a neuralgia:

  • Tensão muscular e sobrecarga postural, de longe a explicação mais comum no dia a dia.
  • Cefaleia cervicogênica, a dor de cabeça que nasce nas articulações da coluna cervical alta.
  • Cefaleia tensional, a mais comum de todas, que costuma deixar a musculatura da nuca sensível.
  • Enxaqueca, que dói atrás muito mais do que as pessoas imaginam.
  • Neuralgia occipital, a mais específica e a mais rara do grupo.

As causas gerais da dor nessa região, com o passo a passo de cada uma, estão no texto sobre dor na nuca, que é o mais completo sobre o assunto. Se a sua busca é por “dor de cabeça atrás”, o caminho é o texto sobre a parte de trás da cabeça. Aqui eu quero ficar no que é próprio do vocabulário occipital: o que separa uma dessas coisas da outra.

O diferencial que importa: nervo, articulação ou cérebro

Existe uma frase numa revisão de 2025 que separa as duas entidades mais confundidas melhor do que qualquer lista de sintomas. Apesar da sobreposição entre elas, a cefaleia cervicogênica é uma dor referida, de origem nociceptiva, enquanto a neuralgia occipital é considerada neuropática.5

Deixa eu traduzir devagar, porque aí está o mecanismo inteiro numa linha.

Cefaleia cervicogênica: a estrutura dói e manda a conta para outro lugar. A origem é uma articulação, um disco, um músculo, um ligamento da coluna cervical alta. Essa estrutura está irritada, os nervos que a inervam levam o sinal para a medula cervical, e lá, naqueles mesmos neurônios que a gente viu no começo, o sinal se mistura com o da cabeça. Resultado: dói na nuca e sobe para a testa, para a região do olho, para a têmpora, quase sempre do mesmo lado.5 O nervo está intacto. Ele só está entregando um recado. Essa cefaleia costuma responder por algo entre 15% e 20% das dores de cabeça crônicas e recorrentes.6

Neuralgia occipital: o problema é o próprio nervo. Aqui não tem intermediário. A dor vem em crises de segundos a minutos, tende a ficar sempre do mesmo lado, e traz aquela alteração de sensibilidade no couro cabeludo, a assinatura de um nervo que não está funcionando direito.3,5

Enxaqueca: a doença que dói atrás. Essa é a que mais engana. Cerca de 7 em cada 10 pessoas com enxaqueca sentem dor no pescoço durante as crises, e na maioria das vezes essa dor faz parte da crise, não é um problema separado.7 Um dado ilustra bem como a topografia engana. Num levantamento com 169 pacientes, 44% das pessoas com enxaqueca vestibular (aquela que vem com tontura) relataram dor de cabeça occipital, contra 18% das pessoas com enxaqueca sem sintomas vestibulares.8 O contraste é chamativo. Mas olhe o outro lado do mesmo número, que é o que interessa de verdade: 56% das pessoas com enxaqueca vestibular não tinham dor occipital nenhuma, e 18% das que não tinham nada de vestibular doíam atrás.8 O lugar da dor não define a doença. Nem num sentido, nem no outro.

Um cuidado importante com esse estudo, porque é do tipo que vira manchete errada. Ele olhou pessoas que já tinham o diagnóstico e perguntou onde doía. Ele não diz que quem tem dor occipital tem enxaqueca vestibular. Essa conta é ao contrário, e o próprio estudo avisa que não pode ser feita a partir dele.8 Se você tem sintomas de enxaqueca junto com a dor de nuca, isso merece uma conversa. Mas não a partir do endereço da dor.

Como se investiga a dor occipital (e por que o exame não decide)

Aqui está o paradoxo que sustenta o tema inteiro, e é o motivo de este texto existir.

O bloqueio do nervo occipital é critério obrigatório da ICHD-3 e não confirma o diagnóstico. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo. E não sou eu dizendo, são as fontes.

Uma revisão de prática de 2025 é direta: tanto a cefaleia cervicogênica quanto a neuralgia occipital podem responder ao bloqueio anestésico dos nervos occipitais.5 Ou seja, ele não separa uma da outra. Pior: os bloqueios occipitais aliviam a dor na maioria dos pacientes com enxaqueca, cefaleia tensional e cefaleia em salvas também.5 E a taxa de falso-positivo é comum, atribuída à alta resposta placebo e à difusão do anestésico para estruturas vizinhas. Nem volumes muito pequenos garantem que o bloqueio pegue só o nervo que se queria testar.5 A revisão sistemática da doença converge: uma resposta positiva ao bloqueio não indica definitivamente neuralgia occipital, porque outras dores de cabeça também respondem.4 E não existe sequer uma definição consensual do que conta como resposta positiva. Nos estudos, a duração do alívio considerada “positiva” foi de duas horas em um e de até seis meses ou mais em outro.4

Preciso apontar aqui uma lacuna, e ela é grande. Não existe nenhum estudo que tenha medido a precisão do bloqueio como teste diagnóstico. A literatura usa o bloqueio como referência sem nunca ter validado o bloqueio. É um teste que confirma sendo, ele próprio, um teste não confirmado.

E a imagem? Esta é a informação que eu mais gostaria que ficasse com você. A revisão de 2025 diz que o valor adicional dos exames de imagem é limitado nas duas condições, e explica por quê: a especificidade não é suficiente para identificar a origem da dor cervical, porque os estudos encontram, de forma consistente, alterações degenerativas em mais de 50% das pessoas sem sintoma nenhum.5 Leia de novo. Mais da metade das pessoas que não têm dor tem “artrose”, “desgaste”, “bico de papagaio” na coluna cervical se você pedir o exame.

Isso muda tudo na hora de ler um laudo. Achar uma alteração degenerativa no exame de quem tem dor na nuca não prova que ela é a causa da dor. Aquela mesma imagem pode estar lá, igualzinha, na pessoa ao lado, que não sente nada. A imagem serve para procurar coisa grave e para planejar procedimento, não para explicar a dor comum.5 Quem decide é a história e o exame do pescoço, não a foto.

Sobre tratamento, o raciocínio que as sociedades de dor propõem é uma escada: começa pelo conservador, e só depois se considera procedimento.5 Os detalhes do que ajuda no dia a dia (postura, pausa de tela, movimento, calor, estresse) estão no texto sobre dor na nuca, e o que muda conforme a causa está no texto sobre o que tomar. Duas coisas precisam ser ditas aqui. Os opioides não têm lugar, ou quase nenhum, no tratamento de uma dor de cabeça crônica benigna.5 E procedimentos destrutivos sobre o nervo carregam o risco de criar um neuroma doloroso, um problema potencialmente pior do que a queixa original.9 Nada disso é prescrição. É o raciocínio, e a decisão é individual, com o seu médico.

O que eu vejo no consultório

Quem chega falando “occipital” chega diferente de quem chega falando “nuca”. Já vem com a palavra pronta, quase sempre trazida de outro lugar: um laudo, um exame, uma consulta anterior. E vem com o rótulo colado. “Doutor, me disseram que eu tenho neuralgia occipital.” A pessoa não está perguntando o que ela tem. Está perguntando o que fazer com o nome que já recebeu.

A primeira coisa que eu faço é dar um passo atrás e examinar. O exame aqui é simples, leva um minuto: eu encosto no couro cabeludo, passo a mão no cabelo, apalpo a saída do nervo na base do crânio. Porque a neuralgia occipital de verdade exige isso, uma sensibilidade alterada ali, dor com um toque que não deveria doer. Boa parte das pessoas que chega com esse rótulo não tem esse achado. E quando não tem, o nome não se sustenta, por mais que ele já esteja escrito no papel.

O que costuma aparecer no lugar é o de sempre. Uma musculatura sobrecarregada. Uma coluna cervical pedindo atenção. Ou uma enxaqueca que ninguém reconheceu, porque doía atrás e não parecia enxaqueca. Não é que a neuralgia occipital não exista. Ela existe, e quando é ela mesma, o quadro é bem característico. Ela é só bem mais rara do que o número de vezes que esse nome é usado.

A outra cena que se repete é a da ressonância. A pessoa chega com o exame na mão, um laudo cheio de palavras pesadas, desgaste, protrusão, artrose, e a certeza de que ali está a explicação da dor. Eu costumo dizer o que os estudos mostram: se a gente pegasse as pessoas ao seu redor que não sentem dor nenhuma e mandasse todas para a máquina, mais da metade voltaria com um laudo parecido. O achado não é a causa só por estar lá. Ele precisa combinar com a história e com o que eu encontro examinando o pescoço.

Eu não tenho pressa de rotular. Prefiro entender o mecanismo: se a dor nasce no nervo, se vem da articulação e sobe, ou se é o cérebro produzindo uma crise que se manifesta atrás. Cada uma dessas três coisas tem um caminho diferente, e o que resolve uma não faz nada pela outra. Um nome errado no papel custa meses de tratamento no alvo errado.

Quando procurar o neurologista

A grande maioria das dores na região occipital é benigna e tem a ver com músculo, postura e coluna. Ainda assim, alguns sinais pedem avaliação imediata. Procure atendimento se a sua dor:

  • veio de forma súbita e explosiva, como a pior dor da sua vida;10
  • vem com febre e rigidez na nuca (dificuldade de encostar o queixo no peito), ou com alteração da consciência;10
  • começou depois de uma pancada, queda ou acidente;10
  • vem com fraqueza, dormência, alteração na fala, na visão ou no equilíbrio, confusão ou convulsão;10
  • começou depois dos 50 anos, ou mudou de padrão e ficou diferente da sua dor de sempre;10
  • piora ao tossir, fazer força ou deitar, ou é progressiva e não passa;10
  • aparece em quem tem câncer, imunidade baixa ou está grávida.10

Fora esses alertas, existe outro motivo para uma segunda olhada: você recebeu o rótulo de neuralgia occipital e o tratamento não está funcionando. Isso, por si só, já justifica revisar. Pelo que a literatura mostra, esse é um diagnóstico aplicado de forma bem mais larga do que o critério permite, e a chance de haver outra coisa por trás (uma cervicogênica, uma enxaqueca não reconhecida, uma musculatura sobrecarregada) é real. Tratar a causa certa muda o resultado.

Se você quer entender o que está por trás da sua dor occipital e sair com um raciocínio, e não com um rótulo, agende uma consulta pelo WhatsApp.

Perguntas frequentes

O que é a região occipital?

É a parte de trás da cabeça, do alto da nuca até a curva onde o crânio encontra o pescoço. O nome vem do osso occipital, que fecha o crânio por trás e por baixo. Nessa região ficam o osso, os músculos que sustentam a cabeça e os nervos occipitais, que sobem do pescoço em direção ao couro cabeludo. “Occipital” é o nome do lugar, não o nome de uma doença.

Qual é o nervo atrás da nuca?

O principal é o nervo occipital maior. Ele tem uma característica que surpreende: não nasce na cabeça, nasce nas raízes nervosas da coluna cervical alta e sobe atravessando camadas de músculo até emergir no couro cabeludo. Existem ainda o nervo occipital menor, que cobre uma faixa mais lateral, em direção à orelha, e o terceiro nervo occipital. Um estudo anatômico com 41 corpos encontrou seis pontos no trajeto do nervo occipital maior onde ele pode ser comprimido, e três desses seis pontos são cruzamentos com a artéria occipital.1

Dor no osso occipital: é o osso que dói?

Quase nunca. O osso em si raramente é a origem da dor. O que dói, na grande maioria das vezes, é o que está em volta dele: os músculos que se inserem ali e sustentam a cabeça o dia inteiro, as articulações da coluna cervical alta logo abaixo, e, mais raramente, os nervos occipitais que atravessam a região. A sensação de que “o osso dói” costuma vir da musculatura tensa que se prende justamente nessa saliência da parte de trás do crânio.

Cefaleia occipital é grave?

Na grande maioria das vezes, não. “Cefaleia occipital” só descreve onde a dor aparece, e o que está por trás costuma ser tensão muscular, sobrecarga postural, uma dor que vem da coluna cervical ou uma enxaqueca. Os sinais que pedem avaliação imediata não são o local da dor, e sim: dor súbita e explosiva, como a pior da vida; febre com rigidez na nuca; início após pancada ou queda; fraqueza, dormência, alteração de fala, visão ou equilíbrio; início depois dos 50 anos ou mudança do padrão de sempre; piora ao tossir, fazer força ou deitar.10

Como saber se é neuralgia occipital ou enxaqueca?

Não dá para saber pelo local da dor, e essa é justamente a confusão mais comum. A enxaqueca dói na região occipital com muito mais frequência do que as pessoas imaginam, e cerca de 7 em cada 10 pessoas com enxaqueca sentem dor no pescoço durante as crises, como parte do próprio episódio.7 A neuralgia occipital tem exigências que a enxaqueca não tem: crises de segundos a minutos, quase sempre do mesmo lado, e uma alteração de sensibilidade do couro cabeludo, com dor ao simples toque no cabelo ou na pele da cabeça.3 Nos estudos, as duas coisas coexistem com frequência: 46% dos pacientes com neuralgia occipital também tinham enxaqueca.4 Quem separa uma da outra é o exame de um médico, não a localização.

Neuralgia occipital tem cura?

É uma pergunta direta, e a resposta também precisa ser: a literatura sobre essa doença é surpreendentemente rasa. Não existe nenhum estudo populacional de neuralgia occipital, e a frequência dela varia de 0,6% a 24,4% entre os serviços especializados, o que mostra que nem o critério é aplicado do mesmo jeito.4 Não há bom dado sobre a evolução natural do quadro. O que as sociedades de dor propõem é uma escada de tratamento, começando pelo conservador e só depois considerando procedimentos.5 O passo mais importante, e o mais negligenciado, vem antes de tudo isso: confirmar que é mesmo neuralgia occipital, porque o rótulo é aplicado de forma bem mais larga do que o critério permite. Tratar a causa errada é o motivo mais comum de um tratamento não funcionar.

O bloqueio do nervo occipital confirma o diagnóstico?

Não, apesar de ele ser um critério obrigatório da classificação internacional. É um paradoxo real desse tema. Tanto a cefaleia cervicogênica quanto a neuralgia occipital podem responder ao bloqueio, e os bloqueios occipitais também aliviam a dor na maioria dos pacientes com enxaqueca, cefaleia tensional e cefaleia em salvas.5 Além disso, a taxa de falso-positivo é comum, por resposta placebo e porque o anestésico se espalha para estruturas vizinhas: nem volumes muito pequenos garantem que só o nervo alvo foi bloqueado.5 Uma resposta positiva ao bloqueio não indica definitivamente neuralgia occipital.4 Ele acrescenta informação ao raciocínio do médico, mas não fecha o diagnóstico sozinho.

A ressonância mostra a neuralgia occipital?

Não. O valor adicional dos exames de imagem é limitado nesse tipo de dor, e a razão é importante: os estudos encontram alterações degenerativas na coluna cervical em mais de 50% das pessoas sem sintoma nenhum.5 Ou seja, achar “desgaste” ou “artrose” no exame de quem tem dor na nuca não prova que aquilo é a causa da dor, porque a mesma imagem aparece em quem não sente nada. A imagem serve para procurar causas graves e para planejar procedimentos, não para explicar a dor comum. O que decide é a história e o exame do pescoço.


Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer investigação ou tratamento deve ser avaliado com o seu médico.

Referências

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Dr. Jonas Bernardes

Dr. Jonas Bernardes

Neurologia Clínica · CRM-SP 150216 · RQE 108175

Neurologista em Jaú/SP, dedicado ao diagnóstico e tratamento das doenças do sistema nervoso. Escreve para traduzir o que a neurologia sabe em decisões práticas de saúde. Atende presencialmente e por teleconsulta.

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