Dr. Jonas BernardesNeurologista Agendar consulta

Ashwagandha foi proibida pela Anvisa? Entenda o que mudou de verdade

A Anvisa não proibiu a ashwagandha: o que saiu do mercado foi o suplemento de prateleira sem registro. A fórmula manipulada, com prescrição médica, continua legal.

Frasco âmbar de farmácia de manipulação, raiz de ashwagandha, papel de receita em branco e caneta sobre bancada clara

Quase todo texto na internet diz que a ashwagandha “foi proibida” no Brasil. Não foi bem isso. O que a Anvisa tirou do mercado foi o suplemento industrializado de prateleira, aquele pote vendido sem prescrição. A fórmula manipulada, feita sob prescrição médica, continua legal. “Não autorizada como suplemento” e “proibida para todo uso” são coisas diferentes, e é dessa confusão que nasce quase todo o ruído: gente achando que faz algo ilegal quando não faz, e gente achando que está tudo liberado quando não está.

Como a ashwagandha virou febre nos últimos anos, vale entender o que a regra brasileira diz de fato, sem cair no exagero de nenhum dos lados.

O que a Anvisa fez, exatamente

A história não começa com uma proibição. Começa com uma ausência. A ashwagandha nunca entrou na lista de plantas autorizadas para uso em suplementos alimentares (a Instrução Normativa 28/2018), e a RDC 243/2018 barra nos suplementos as espécies que não são permitidas. Traduzindo: ela nunca foi liberada como suplemento de prateleira. Por isso a Anvisa a classifica como “espécie vegetal não autorizada” para esse fim, termo que aparece na Resolução RE 545/2021.1

Daí em diante, o que a mídia chamou de “banimento” foi, na prática, uma série de resoluções de interdição publicadas ano após ano desde 2019, tirando de circulação os produtos industrializados irregulares que continham a planta. A mais abrangente é a RE 3.669/2022, que estende a fiscalização a “todos os produtos irregulares contendo ashwagandha”.2

Repare no alvo. Essas ações miram o produto industrializado sem registro, vendido como suplemento. Não miram a planta enquanto insumo de uma prescrição individual. Quase nenhum texto deixa esse ponto claro, e ele muda tudo.

O mito do “risco tóxico”: a ashwagandha não está na lista de plantas tóxicas

Circula por aí que a ashwagandha teria entrado numa lista de plantas tóxicas da Anvisa. Não entrou, e a correção importa. A Anvisa tem, sim, uma norma que reúne plantas de franco risco tóxico, a Instrução Normativa 410/2025, onde estão espécies como Abrus precatorius e cogumelos do gênero Amanita. A ashwagandha não aparece ali.

O enquadramento dela é outro, e mais brando do que “planta venenosa”: espécie não autorizada como suplemento, somada à interdição dos produtos irregulares. Misturar as duas coisas faz a ashwagandha parecer mais perigosa do que a própria Anvisa a considera.

Então por que a Anvisa restringiu?

O motivo formal é regulatório e sanitário: ausência de registro e de autorização como suplemento, num mercado que cresceu rápido demais e se encheu de produtos sem procedência. Suplemento vendido sem registro é um pote sem garantia. Ninguém assegura que dentro dele está o que o rótulo promete, muito menos na concentração certa.

Existe também um pano de fundo de segurança que ajuda a entender a cautela. Há um sinal real, ainda que incomum, de lesão no fígado associada à ashwagandha.3 Isso não quer dizer dano certo para quem usa. Um estudo grande de segurança, com mais de mil adultos, não encontrou alteração nos exames de fígado em oito semanas de uso.4 O padrão sugere um dano que atinge pessoas particularmente suscetíveis, não todo mundo. Mas o sinal existe, pesa mais em quem já tem doença no fígado, e é mais um argumento para que o uso passe por acompanhamento, não pela prateleira.

”Manipulada com prescrição” é diferente de “proibida”

Muitos textos afirmam que “até o manipulado é proibido”. Não é bem assim, e essa é justamente a informação que mais falta nesse assunto. A via que continua legal é a fórmula manipulada, feita sob prescrição individualizada. Nela, o médico que prescreve assume a responsabilidade sanitária pelo uso, dentro de uma norma própria das farmácias de manipulação.

A leitura correta cabe em duas frases. O irregular é o produto industrializado de prateleira sem registro. O manipulado com receita é a via regular, não uma irregularidade tolerada. Essa confusão gerou tanto ruído que conselhos de farmácia chegaram a consultar formalmente a Anvisa sobre os manipulados. É o tamanho do peso que a palavra “proibida” carrega.

O que eu vejo no consultório

Poucos assuntos rendem tanta confusão no meu consultório quanto a situação legal da ashwagandha. E ela chega de dois jeitos opostos. Tem o paciente assustado, convencido de que fez algo errado porque leu que a planta “foi proibida pela Anvisa”. E tem o contrário: quem comprou cápsula numa viagem ou num site de fora e acha que, se estava à venda lá, está liberado aqui. Os dois estão com a informação pela metade.

O que eu explico é a distinção que quase nenhum texto faz direito. O que a Anvisa tirou do mercado foi o suplemento industrializado de prateleira, o pote vendido sem prescrição. O caminho que continua legal é a fórmula manipulada, feita sob prescrição, em que eu assumo a responsabilidade pelo uso. Não é jeitinho, não é zona cinzenta. É a via regular. Quando alguém me mostra um print dizendo que “é proibida”, minha resposta é sempre a mesma: proibido é o produto irregular de prateleira, não o uso com acompanhamento.

O que fazer com essa informação

Se você usa ou pensa em usar ashwagandha, a mensagem prática é curta. Evite os produtos industrializados irregulares que ainda aparecem à venda: além de estarem fora da regra, são os de procedência mais duvidosa. E, se o uso fizer sentido para o seu caso, siga a via legal e segura, que é a avaliação com um médico e, quando indicada, a fórmula manipulada com prescrição.

Se você quer entender se a ashwagandha faz sentido para o seu caso, e usá-la pela via correta, converse comigo pelo WhatsApp e a gente avalia com calma.

A ashwagandha é proibida no Brasil?

Não exatamente, e a palavra “proibida” atrapalha mais do que ajuda. O que a Anvisa fez foi não autorizar a ashwagandha como suplemento alimentar e interditar os produtos industrializados de prateleira que a contêm. A fórmula manipulada, feita sob prescrição médica, continua legal. Em resumo: o produto de prateleira sem registro está fora, o uso com receita e acompanhamento, não.

Preciso de receita para usar ashwagandha?

Sim. Como a ashwagandha não é liberada como suplemento de prateleira no Brasil, a via regular para usá-la é a fórmula manipulada, feita sob prescrição médica. Nesse caminho, o médico que prescreve assume a responsabilidade pelo uso e define a dose e a padronização para o seu caso.

A ashwagandha está na lista de plantas tóxicas da Anvisa?

Não. A Anvisa tem uma norma que lista plantas de risco tóxico, e a ashwagandha não está nela. O enquadramento dela é outro: espécie não autorizada como suplemento, o que é bem diferente de ser classificada como planta venenosa. Confundir as duas coisas faz a planta parecer mais perigosa do que a própria Anvisa a considera.

Por que a Anvisa restringiu a ashwagandha?

O motivo formal é regulatório e sanitário: a planta não foi autorizada como suplemento e o mercado se encheu de produtos industrializados sem registro, sem garantia do que realmente está no pote. Há ainda um pano de fundo de segurança, porque existe um sinal real, embora incomum, de risco de lesão no fígado, mais preocupante em quem já tem doença hepática.

Posso comprar ashwagandha importada ou trazer de viagem?

Um produto ser vendido livremente em outro país não o torna regular aqui. Trazer ou importar um suplemento industrializado sem registro entra justamente no que a Anvisa considera irregular. E, além da questão legal, produto sem procedência não dá garantia de conteúdo nem de dose. O caminho seguro é a avaliação médica e, quando indicada, a fórmula manipulada com prescrição.

Sim, quando feita sob prescrição médica individualizada. É exatamente a via que continua legal, apesar de a planta não ser autorizada como suplemento de prateleira. Muita gente acredita que “até o manipulado é proibido”, mas isso não procede: o irregular é o produto industrializado sem registro, não o manipulado com receita.


Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. As regras citadas podem mudar; em caso de dúvida sobre o uso, consulte o seu médico.

Referências

  1. Anvisa. Resolução-RE nº 545, de 4 de fevereiro de 2021. Diário Oficial da União, 05/02/2021. https://www.in.gov.br/web/dou/-/resolucao-re-n-545-de-4-de-fevereiro-de-2021-302550468

  2. Anvisa. Resolução-RE nº 3.669, de 4 de novembro de 2022. Diário Oficial da União, 07/11/2022. https://www.in.gov.br/web/dou/-/resolucao-re-n-3.669-de-4-de-novembro-de-2022-441709450

  3. Björnsson et al. Ashwagandha-induced liver injury: a case series from Iceland and the US Drug-Induced Liver Injury Network. Liver International. 2020. https://doi.org/10.1111/liv.14393

  4. Pakhale et al. Safety of 8-week administration with ashwagandha (Withania somnifera) root extract in adults with stress and anxiety: findings from a prospective, randomized, multi-center, double-blinded, placebo-controlled study. Phytotherapy Research. 2026. https://doi.org/10.1002/ptr.70315

Dr. Jonas Bernardes

Dr. Jonas Bernardes

Neurologia Clínica · CRM-SP 150216 · RQE 108175

Neurologista em Jaú/SP, dedicado ao diagnóstico e tratamento das doenças do sistema nervoso. Escreve para traduzir o que a neurologia sabe em decisões práticas de saúde. Atende presencialmente e por teleconsulta.

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