Dr. Jonas BernardesNeurologista Agendar consulta

Ashwagandha aumenta a testosterona? O que a evidência mostra (e o que não)

A ashwagandha aumenta a testosterona? O efeito é pequeno e só nos homens. Veja o que a ciência sustenta e onde a propaganda exagera.

Balança de latão antiga com raízes de ashwagandha em um prato e um pouco de folhas secas ao lado, sobre uma placa de ardósia escura

A ashwagandha aumenta a testosterona? Um pouco, e só nos homens. Uma meta-análise de ensaios clínicos encontrou um aumento modesto nos homens e nenhuma mudança nas mulheres, com diferença estatística entre os grupos.1 O ganho é bem menor do que a propaganda de “testosterona natural” faz parecer. E existe um ponto que importa mais do que o tamanho do efeito: a testosterona baixa tem uma causa, e tomar a planta não resolve o problema de fundo.

Este texto faz parte do conjunto sobre a ashwagandha. Aqui o foco é direto: o que ela faz, e o que não faz, com a testosterona.

Afinal, quanto a ashwagandha aumenta a testosterona?

O melhor retrato que temos vem de uma meta-análise que juntou vários ensaios clínicos sobre os efeitos hormonais da planta, e ela aponta para dois lados. Nos homens, o aumento médio ficou na ordem de 57 ng/dL. Nas mulheres, praticamente nada mudou. A diferença entre os grupos foi estatisticamente significativa.1

Vale colocar esse número em escala. A testosterona de um homem adulto costuma transitar por uma faixa de várias centenas de ng/dL. Diante disso, os 57 de ganho médio são reais, mas pequenos. Um empurrão, não uma virada.

Há um motivo para o efeito ser tão contido. A ashwagandha não repõe testosterona nem cutuca a glândula que a produz. Ela age por outra porta: derruba o cortisol, o hormônio do estresse, algo que a própria meta-análise confirmou.1 Cortisol cronicamente alto tende a puxar a testosterona para baixo. Aliviar o estresse, então, apenas devolve parte do que a ansiedade vinha tirando. Como o caminho é indireto, o ganho também é.

Por que o efeito aparece só nos homens?

É esse mecanismo indireto que explica a diferença entre os sexos. Se a planta forçasse a produção de testosterona como um remédio de reposição, os níveis subiriam em qualquer pessoa. Mas ela mexe no eixo do estresse e no cortisol,2 e o resto do sistema hormonal responde à queda do estresse de maneiras diferentes. No homem, o ajuste rende um leve ganho de testosterona. Na mulher, o mesmo alívio não se converte nesse ganho.1 O detalhe de como isso acontece no corpo está no texto sobre como a ashwagandha age.

Ashwagandha e fertilidade masculina: o que o estudo mostrou

Aqui o sinal da ciência é mais forte, embora bem específico. Um estudo acompanhou homens com baixa contagem de espermatozoides, uma forma de subfertilidade, que usaram o extrato de raiz por cerca de três meses. Os parâmetros do sêmen melhoraram de forma clara: a contagem mais que dobrou, e o volume e a movimentação também subiram.3

Antes de generalizar, é preciso pisar no freio por dois motivos. O primeiro é que a melhora apareceu em homens que já tinham um problema de fertilidade diagnosticado, o que é bem diferente de dizer que a planta aumenta a fertilidade de um homem saudável. O segundo é o tamanho: trata-se de um estudo piloto pequeno. O achado é promissor e conversa com o efeito hormonal, mas ainda pede confirmação em pesquisas maiores.

O que a propaganda promete, e o que a evidência entrega

O abismo entre a internet e o consultório é grande. Nas redes e nas academias, a ashwagandha virou uma espécie de “testosterona ancestral”, com promessas de ganhos de 30% ou 40%, mais músculo e libido nas alturas. A ciência mostra um quadro muito mais modesto: o aumento de testosterona é pequeno e restrito aos homens.1 Existe, sim, um benefício de força e condicionamento, mas ele se apoia em estudos pequenos e de qualidade variável.4

E aqui mora uma confusão comum. A pessoa toma a ashwagandha, sente mais disposição ou mais libido, e credita tudo à testosterona. Na maior parte das vezes, o que ela está sentindo é o alívio da ansiedade e a melhora do sono. Dormir bem e viver com menos estresse já devolvem energia e desejo de forma natural, sem que a testosterona precise se mexer muito. O benefício é verdadeiro. A explicação é que costuma ser outra.

Testosterona baixa tem causa (e é ela que precisa ser investigada)

Esta é a regra clínica mais importante do texto, e a que menos aparece nos vídeos. Diante de cansaço crônico, queda de libido e falta de disposição, a suspeita cai naturalmente sobre a testosterona. Só que o caminho certo nunca começa por um suplemento. O primeiro passo médico é descobrir de onde vem o sintoma.

Na prática, a testosterona baixa quase sempre é o reflexo de outra condição. Sono ruim, apneia, excesso de peso, um problema de tireoide. Certos medicamentos, o estresse crônico ou uma falha no próprio testículo também puxam o hormônio para baixo. Cada uma dessas causas pede um tratamento próprio, e nenhuma delas se resolve com ashwagandha. Usar a planta para “mascarar” a testosterona cria um risco claro: a pessoa alivia o sintoma na superfície enquanto a causa real segue sem ser olhada.

Diante da suspeita de testosterona baixa, o cuidado imediato é medir e investigar com um médico. Pegar um suplemento na prateleira só atrapalha esse processo. A ashwagandha pode ter um papel de apoio, focado no estresse e no sono, mas entra na receita depois que a causa do cansaço foi mapeada, nunca no lugar do diagnóstico.

A testosterona é o assunto que chega ao consultório com a maior carga de expectativa. Boa parte dos pacientes já aparece tomando a ashwagandha por conta própria, porque viu um vídeo ou ouviu na academia que ela é o “estimulante natural” definitivo, e espera a transformação que viu na tela. Nesses casos, preciso alinhar duas realidades. Uma é que o efeito sobre a testosterona existe, mas é pequeno, exclusivo dos homens, e fica bem longe da propaganda. A outra, mais urgente, é que testosterona baixa tem causa, e o suplemento não investiga a origem do problema.

Quando um homem acha que resolveu a saúde hormonal com um pote de cápsulas, percebo que ele pulou a etapa principal: descobrir por que o hormônio caiu, se é que caiu mesmo. Na minha conduta, prescrevo a planta para aquilo que a ciência sustenta de verdade, o controle do estresse e do sono. É nesse terreno que a disposição do paciente costuma melhorar, e não porque a planta “acionou” uma chave hormonal potente, e sim porque o corpo voltou a dormir direito e a viver com menos tensão. A promessa de “turbinar a testosterona” não é o que me faz indicá-la.

O uso da ashwagandha pela testosterona compensa?

Se o seu objetivo é só aumentar a testosterona, a planta não entrega a transformação que a propaganda sugere. O efeito existe, mas é pequeno, restrito aos homens, e não dispensa a investigação médica para entender por que o hormônio caiu. A base clínica sólida da ashwagandha está no estresse, na ansiedade e no sono. É por aliviar esses três pontos que ela costuma melhorar a disposição geral, de forma indireta. Se a decisão for usá-la, a dose exige ajuste individual, e no Brasil o caminho seguro e regular passa por uma fórmula manipulada com prescrição. Reuni as diretrizes sobre doses e horários no artigo sobre como tomar ashwagandha.

Se você sente cansaço e desconfia de testosterona baixa, ou já toma o extrato por conta própria e quer saber se faz sentido no seu caso, converse comigo pelo WhatsApp. Dá para investigar a causa verdadeira a partir da sua rotina e dos seus exames.

A ashwagandha aumenta a testosterona mesmo?

Aumenta, mas pouco, e só nos homens. Uma meta-análise de ensaios clínicos encontrou um aumento modesto de testosterona em homens e nenhuma mudança nas mulheres.1 O efeito é real, mas fica bem abaixo do que os anúncios de “testosterona natural” prometem. E vem por via indireta, pela redução do estresse e do cortisol, não por uma reposição hormonal.

A ashwagandha aumenta a testosterona na mulher?

Não de forma relevante. A mesma meta-análise que encontrou aumento nos homens não viu mudança importante de testosterona nas mulheres, e a diferença entre os dois grupos foi estatística.1 Até onde a evidência mostra, o efeito da planta sobre a testosterona é coisa de homem.

Em quanto tempo a ashwagandha faz efeito na testosterona?

Não é rápido. Nos estudos, os efeitos hormonais e sobre o estresse aparecem ao longo de semanas de uso contínuo, não em poucos dias. Faz sentido com o modo de agir da planta, que regula o eixo do estresse aos poucos, em vez de repor um hormônio de uma vez. Quem espera uma virada em dias costuma se frustrar.

A ashwagandha serve para quem tem testosterona baixa?

Ela não trata a causa de uma testosterona baixa, e é isso que importa. Testosterona baixa costuma ser sintoma de outra coisa, como sono ruim, excesso de peso, problema de tireoide ou estresse crônico, e cada causa tem uma conduta própria. O caminho certo é investigar o motivo com um médico, não trocar isso por um suplemento. A ashwagandha pode ajudar pelo lado do estresse e do sono, mas depois que a causa foi entendida.

A ashwagandha ajuda na fertilidade masculina?

Há um sinal positivo, mas específico. Um estudo com homens que já tinham baixa contagem de espermatozoides mostrou melhora dos parâmetros do sêmen com o extrato de raiz.3 É um resultado promissor para quem tem subfertilidade, não uma garantia de mais fertilidade para todo mundo, e ainda vem de um estudo pequeno, que precisa de confirmação.


Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer uso ou investigação deve ser avaliado com o seu médico.

Referências

  1. Fornalik et al. Hormonal modulation with Withania somnifera: systematic review and meta-analysis of randomized-controlled trials. Planta Medica. 2026. https://doi.org/10.1055/a-2802-8363 2 3 4 5 6 7

  2. Speers et al. Effects of Withania somnifera (Ashwagandha) on Stress and the Stress-Related Neuropsychiatric Disorders Anxiety, Depression, and Insomnia. Current Neuropharmacology. 2021. https://doi.org/10.2174/1570159X19666210712151556

  3. Ambiye et al. Clinical evaluation of the spermatogenic activity of the root extract of ashwagandha (Withania somnifera) in oligospermic males: a pilot study. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine. 2013. https://doi.org/10.1155/2013/571420 2

  4. Bonilla et al. Effects of ashwagandha (Withania somnifera) on physical performance: systematic review and Bayesian meta-analysis. Journal of Functional Morphology and Kinesiology. 2021. https://doi.org/10.3390/jfmk6010020

Dr. Jonas Bernardes

Dr. Jonas Bernardes

Neurologia Clínica · CRM-SP 150216 · RQE 108175

Neurologista em Jaú/SP, dedicado ao diagnóstico e tratamento das doenças do sistema nervoso. Escreve para traduzir o que a neurologia sabe em decisões práticas de saúde. Atende presencialmente e por teleconsulta.

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