Dr. Jonas BernardesNeurologista Agendar consulta

Ashwagandha: o que é, para que serve e por que no Brasil ela exige receita

A ashwagandha ajuda no estresse, na ansiedade e no sono, mas pede atenção ao fígado e, no Brasil, uso sob prescrição. Veja o que a evidência realmente mostra.

Ilustração botânica da planta ashwagandha (Withania somnifera) com folhas, frutos alaranjados no cálice papiráceo e as raízes claras sob o solo

A ashwagandha (Withania somnifera) é uma planta que a medicina ayurvédica da Índia usa há séculos e que hoje o mundo inteiro vende como suplemento para estresse, sono e disposição. Ela pertence a um grupo chamado adaptógenos, plantas que agem ajustando a resposta do corpo ao estresse.1 Respondendo logo à pergunta que traz a maioria das pessoas até aqui: existe evidência razoável de que a ashwagandha ajuda na ansiedade, no estresse e no sono. Para testosterona no homem e para desempenho físico, o sinal é mais modesto. E para as promessas de emagrecimento que circulam por aí, a base é fraca.

Duas coisas, porém, quase nunca são ditas, e elas mudam a forma de olhar para essa planta. A primeira é que a ashwagandha é fitoterápico de verdade, com efeito real e com o fígado como ponto de atenção, não um chá inofensivo. A segunda é que, no Brasil, ela não é um suplemento de prateleira legalizado: o caminho regular para usá-la é a fórmula manipulada com prescrição. Vamos por partes.

O que é a ashwagandha?

É a raiz de um arbusto nativo da Índia, também conhecida como ginseng indiano ou cereja-de-inverno. Os efeitos estudados vêm de compostos chamados witanolídeos, acompanhados de outras substâncias como os sitoindosídeos.2 Por isso a parte da planta e o tipo de extrato importam tanto. Nem todo produto rotulado como “ashwagandha” carrega a mesma concentração desses princípios ativos, e é justamente essa variação que torna tão difícil comparar um estudo com outro, uma fórmula com outra.2

Ashwagandha para que serve? O que a evidência mostra (e o que não mostra)

Aqui a conversa precisa ser franca, porque a distância entre o que os estudos mostram e o que os rótulos prometem é enorme. Vou organizar pela força da evidência.

  • Estresse e ansiedade: é onde a base é mais firme. Vários ensaios clínicos e revisões mostram que a ashwagandha reduz o estresse percebido, a ansiedade e o cortisol (o hormônio do estresse) frente ao placebo.3,4,5 Faço uma ressalva importante: os efeitos aparecem grandes nos estudos, mas a qualidade geral da evidência vai de baixa a moderada, com muita variação entre um trabalho e outro. O tamanho real do benefício, portanto, ainda é incerto.4
  • Sono: um dos capítulos com melhor evidência, sobretudo na insônia. O que os estudos mostram, a dose e o horário estão no texto sobre ashwagandha para dormir.6,7
  • Testosterona e fertilidade masculina: sinal moderado, e só nos homens. Nas mulheres a planta não mexe na testosterona nem no estrogênio, e não é o hormônio feminino que a propaganda promete (veja ashwagandha para mulheres). Em quem tem baixa contagem de espermatozoides, há sinal de melhora nos parâmetros do sêmen. Tudo isso longe do que os anúncios prometem. O que a evidência mostra, e por que a planta não substitui investigar a causa de uma testosterona baixa, está no texto sobre ashwagandha e testosterona.8,9
  • Desempenho físico: favorável, com qualidade variável. Uma meta-análise apontou benefício para força e condicionamento, mas boa parte dos estudos é pequena.10
  • Emagrecimento: aqui a base é fraca. Não há evidência sólida de que a ashwagandha faça emagrecer. O que existe é só uma hipótese indireta, pela redução do estresse, para quem come por ansiedade. Por que a resposta é não, e o que a planta de fato faz, está no texto sobre ashwagandha e emagrecimento.

Como a ashwagandha age? O eixo do cortisol

Em resumo, a ashwagandha é um adaptógeno que atua sobre o sistema que comanda a resposta ao estresse, o eixo HPA, reduzindo o cortisol. Ela não seda como um calmante nem repõe um hormônio.1 É isso que explica por que costuma agir ao mesmo tempo sobre ansiedade e sono: os dois são faces de um mesmo eixo desregulado. O mecanismo em detalhe, o papel dos witanolídeos e por que a parte da planta muda o efeito estão no texto sobre como a ashwagandha age.

Ashwagandha faz mal? Efeitos colaterais e o cuidado com o fígado

Em quem usa por poucas semanas, os efeitos colaterais costumam ser leves: enjoo, sonolência, desconforto abdominal, às vezes dor de cabeça. Um grande estudo de segurança, com mais de mil adultos usando 600 mg por dia durante oito semanas, não encontrou eventos graves nem alteração nos exames de fígado, rim ou sangue.11

O ponto que merece atenção é outro, e quase nenhum texto conta. Existem casos bem documentados de lesão no fígado associada à ashwagandha.12,13 Efeito incomum, mas real. O padrão costuma ser colestático, com a bile “represada” causando pele amarelada, coceira e urina escura, aparece entre duas e doze semanas de uso e, na maioria dos casos descritos, melhora depois da suspensão.13 Um detalhe importante e até tranquilizador: as análises químicas desses produtos encontraram a própria ashwagandha, sem adulteração. A lesão foi da planta, não de contaminação.13

Como conciliar o estudo grande, que não achou problema, com os casos de lesão no fígado? A leitura mais provável é que esse dano seja idiossincrásico. Ou seja, acontece em pessoas particularmente suscetíveis, ligado a dose e tempo de uso, e não é um efeito que atinge todo mundo. Isso não diminui o sinal. Significa que dá para usar com mais segurança sabendo em quem evitar e o que vigiar.

Quem deve evitar a ashwagandha (contraindicações)

Reunindo o que se sabe, alguns grupos precisam de cautela redobrada, e alguns deveriam simplesmente evitar.

  • Quem já tem doença no fígado: é o grupo de maior risco. Os quadros mais graves de lesão hepática se concentraram justamente em pessoas com doença de fígado prévia. Se você tem qualquer hepatopatia, ashwagandha não é coisa para tomar por conta.
  • Gestantes e lactantes: por falta de segurança comprovada, a orientação é evitar.
  • Uso crônico em dose alta: há relato de que o uso prolongado e em dose elevada pode, pelo mesmo mecanismo do benefício, suprimir demais o eixo do cortisol. É o efeito bom levado ao exagero.
  • Quem usa remédios que interagem: a ashwagandha pode somar efeito sedativo com calmantes e indutores do sono, e há sinais de interação com medicações da tireoide (ela tende a elevar um pouco o T4)8 e com imunossupressores. Se você toma remédio contínuo, converse antes.

Repare que quase nada disso aparece no rótulo. É informação de quem prescreve, não de quem vende.

Ashwagandha é proibida no Brasil?

Há uma confusão comum por aqui. A ashwagandha não é exatamente “proibida” no Brasil, mas também não é um suplemento liberado para vender na prateleira. A Anvisa não a colocou na lista de plantas autorizadas para suplementos alimentares e vem retirando do mercado os produtos industrializados que a contêm. O caminho que segue legal é a fórmula manipulada, feita sob prescrição médica, e nesse caso quem assume a responsabilidade pelo uso é o médico que prescreve.

Manipulada com receita é uma coisa. Proibida é outra. Essa distinção tem detalhes que pedem um texto à parte, e é o que destrincho no conteúdo sobre se a ashwagandha é proibida no Brasil.

Como tomar ashwagandha?

Esta é a parte mais sensível, então vou ser claro: o que vem abaixo é informação educativa, não uma receita. Nos estudos, as doses mais usadas ficam na faixa de 300 a 600 mg por dia de extrato padronizado da raiz, por 8 a 12 semanas.6,5 Extratos mais concentrados agem em doses menores. Mas a dose certa, a forma e o tempo de uso dependem do seu caso, dos seus exames e dos remédios que você já toma, e devem ser definidos com um médico ou nutricionista, ainda mais porque, no Brasil, o caminho regular passa pela fórmula manipulada com prescrição. Como cada detalhe do uso rende bastante conversa, reuni tudo num guia dedicado a como tomar ashwagandha.

O que eu vejo no consultório

A ashwagandha quase nunca chega até mim como pergunta. Chega como algo que a pessoa já está tomando. Comprou por conta própria, na maioria das vezes porque alguém da família recomendou ou porque viu num vídeo, e usa como se fosse uma vitamina qualquer. Essa costuma ser a primeira conversa que preciso ter: no Brasil ela não é suplemento de prateleira. Quando faz sentido usar, eu prescrevo manipulada, com dose e padronização definidas na consulta. É fitoterápico de verdade, com efeito real e com um órgão que pede atenção, o fígado, que ninguém que compra pela internet está acompanhando.

Onde eu realmente vejo ajudar é no que a evidência também sustenta: ansiedade e sono. Costumo usar em torno de 500 mg à noite, quase sempre como parte de um conjunto, nunca como solução única. E a resposta muda muito de pessoa para pessoa. Tem quem sinta diferença em poucas semanas e tem quem não tolere, e nesse caso eu suspendo. Não é o “aumenta testosterona” ou o “emagrece” que viralizam que me fazem indicá-la. É o efeito sobre o estresse e o sono, e mesmo esse eu trato como individual, nunca como promessa.

Afinal, vale a pena tomar ashwagandha?

Depende de para quê e de quem. Para ansiedade, estresse e sono, existe base razoável, e é aí que ela costuma entregar alguma coisa. Para as promessas de testosterona nas alturas ou de emagrecimento, a base é fraca. E, por ser um fitoterápico com efeito de verdade, ela pede o mesmo cuidado de qualquer medicação: saber em quem evitar, o que vigiar e em que dose, ainda mais num país onde o uso correto passa por prescrição. É a automedicação por indicação de vídeo ou de conhecido que transforma uma planta potencialmente útil em risco desnecessário.

Se você está pensando em usar ashwagandha, ou já usa e quer saber se faz sentido no seu caso, converse comigo pelo WhatsApp e a gente avalia com calma, olhando os seus exames e o que você já toma.

A ashwagandha é proibida no Brasil?

Não exatamente. Ela não está liberada como suplemento de prateleira, porque a Anvisa não a incluiu na lista de plantas autorizadas para suplementos alimentares e vem retirando do mercado os produtos industrializados que a contêm. O uso, porém, continua legal pela fórmula manipulada, feita sob prescrição médica, em que o médico assume a responsabilidade. Manipulada com receita é uma coisa. Proibida é outra.

Ashwagandha faz mal ao fígado?

Na maioria das pessoas, não. Um grande estudo de segurança, com mais de mil adultos, não mostrou alteração nos exames de fígado em oito semanas de uso.11 Ainda assim, existem casos incomuns, porém bem documentados, de lesão hepática ligada à ashwagandha, em geral com pele amarelada, coceira e urina escura, um quadro que costuma melhorar depois que a pessoa para.13 Quem já tem doença no fígado corre o maior risco. Diante de qualquer sinal desses, pare e procure avaliação médica.

Ashwagandha pode tomar à noite?

Pode. Muita gente usa à noite justamente pelo efeito sobre o sono e a ansiedade. Como parte das pessoas sente sonolência com a planta, a noite tende a ser mais confortável do que o dia. Ainda assim, o melhor horário depende do seu objetivo e da sua resposta, e vale combinar com quem prescreve.

Ashwagandha emagrece?

Não há evidência sólida de que a ashwagandha faça emagrecer. O que se especula é um efeito indireto: por reduzir o estresse e o cortisol, ela poderia ajudar quem come por ansiedade. Isso está longe de fazer dela um remédio para emagrecer, e quem usa a planta com essa expectativa quase sempre se frustra.

Quanto tempo a ashwagandha leva para fazer efeito?

Não é coisa de um dia para o outro. Nos estudos, os benefícios sobre sono e estresse aparecem ao longo de algumas semanas de uso contínuo, e no caso do sono ficam mais nítidos a partir de umas oito semanas.6 Se em poucos dias nada mudou, não significa que “não funciona”: o efeito é gradual e varia de pessoa para pessoa.

Ashwagandha aumenta a testosterona?

Aumenta, mas pouco, e só nos homens. Uma meta-análise de ensaios clínicos encontrou elevação da testosterona nos homens e nenhuma mudança nas mulheres.8 É bem menos do que os anúncios prometem, e não dispensa investigar a causa real de uma testosterona baixa, que precisa de avaliação médica.


Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer uso ou investigação deve ser avaliado com o seu médico.

Referências

  1. Speers et al. Effects of Withania somnifera (Ashwagandha) on Stress and the Stress-Related Neuropsychiatric Disorders Anxiety, Depression, and Insomnia. Current Neuropharmacology. 2021. https://doi.org/10.2174/1570159X19666210712151556 2

  2. Bashir et al. An updated review on phytochemistry and molecular targets of Withania somnifera (L.) Dunal (Ashwagandha). Frontiers in Pharmacology. 2023. https://doi.org/10.3389/fphar.2023.1049334 2

  3. Salve et al. Adaptogenic and anxiolytic effects of ashwagandha root extract in healthy adults: a double-blind, randomized, placebo-controlled clinical study. Cureus. 2019. https://doi.org/10.7759/cureus.6466

  4. Della Porta et al. Effects of Withania somnifera on cortisol levels in stressed human subjects: a systematic review. Nutrients. 2023. https://doi.org/10.3390/nu15245015 2

  5. Pandit et al. Effects of Withania somnifera extract in chronically stressed adults: a randomized controlled trial. Nutrients. 2024. https://doi.org/10.3390/nu16091293 2

  6. Cheah et al. Effect of ashwagandha (Withania somnifera) extract on sleep: a systematic review and meta-analysis. PLOS ONE. 2021. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0257843 2 3

  7. Langade et al. Efficacy and safety of ashwagandha (Withania somnifera) root extract in insomnia and anxiety: a double-blind, randomized, placebo-controlled study. Cureus. 2019. https://doi.org/10.7759/cureus.5797

  8. Fornalik et al. Hormonal modulation with Withania somnifera: systematic review and meta-analysis of randomized-controlled trials. Planta Medica. 2026. https://doi.org/10.1055/a-2802-8363 2 3

  9. Ambiye et al. Clinical evaluation of the spermatogenic activity of the root extract of ashwagandha (Withania somnifera) in oligospermic males: a pilot study. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine. 2013. https://doi.org/10.1155/2013/571420

  10. Bonilla et al. Effects of ashwagandha (Withania somnifera) on physical performance: systematic review and Bayesian meta-analysis. Journal of Functional Morphology and Kinesiology. 2021. https://doi.org/10.3390/jfmk6010020

  11. Pakhale et al. Safety of 8-week administration with ashwagandha (Withania somnifera) root extract in adults with stress and anxiety: findings from a prospective, randomized, multi-center, double-blinded, placebo-controlled study. Phytotherapy Research. 2026. https://doi.org/10.1002/ptr.70315 2

  12. Lubarska et al. Liver dangers of herbal products: a case report of ashwagandha-induced liver injury. International Journal of Environmental Research and Public Health. 2023. https://doi.org/10.3390/ijerph20053921

  13. Björnsson et al. Ashwagandha-induced liver injury: a case series from Iceland and the US Drug-Induced Liver Injury Network. Liver International. 2020. https://doi.org/10.1111/liv.14393 2 3 4

Dr. Jonas Bernardes

Dr. Jonas Bernardes

Neurologia Clínica · CRM-SP 150216 · RQE 108175

Neurologista em Jaú/SP, dedicado ao diagnóstico e tratamento das doenças do sistema nervoso. Escreve para traduzir o que a neurologia sabe em decisões práticas de saúde. Atende presencialmente e por teleconsulta.

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