Dr. Jonas BernardesNeurologista Agendar consulta

Enxaqueca

Aura ou AVC: por que a diferença não se decide em casa

Aura de enxaqueca ou AVC? A distinção não se decide em casa: os sintomas se sobrepõem mais do que as tabelas sugerem. Veja os números e quando ir direto ao pronto-socorro.

Pessoa sentada numa cadeira de madeira, enquadrada do peito para baixo, segurando com as duas mãos um envelope pardo grande e fechado sobre o colo, junto a uma parede clara com luz de janela.

Se você está lendo isto com o susto ainda recente, o recado vem antes de qualquer explicação: sintoma neurológico que apareceu de repente e ainda está acontecendo pede atendimento imediato, não pesquisa no Google. Vá ao pronto-socorro ou ligue 192. O resto deste texto é para depois, para entender o que aconteceu.

Passado o susto, a resposta à pergunta do título incomoda. A aura da enxaqueca e um evento isquêmico se parecem muito mais do que as tabelas da internet sugerem. O que os livros descrevem como diferença é uma tendência de grupo, não um teste que funcione para você, sozinho, em casa. A sobreposição tem números, e eles mudam o que você decide fazer na hora da crise.

Se você quer entender o mecanismo básico da aura, escrevi um texto separado em enxaqueca com aura: o que é, como se manifesta e quanto dura. Os limites das regras de “gradual contra súbito” estão em enxaqueca com aura é perigoso.

A sobreposição, medida nos dois sentidos

Um estudo colocou lado a lado 350 pacientes com AVC isquêmico confirmado por imagem e 343 pacientes com enxaqueca com aura. A pergunta era simples: quantos, de cada lado, tinham sintomas parecidos com os do outro grupo?1

AVC parecendo aura. Entre os pacientes com AVC que tiveram sintoma visual, 46,2% descreveram sintomas positivos. Ou seja, viram coisas que aparecem (luzes, formas), e não apenas perderam a visão. Entre os que tiveram sintoma sensitivo, 53,8% também relataram sensações positivas, como formigamentos. A fraqueza demorou mais de 5 minutos para se instalar em 21,8% dos casos. E o sintoma caminhou pelo corpo, com o formigamento passando de uma parte para outra, em 25,5% dos quadros sensitivos e em 18,8% dos motores.

Aura parecendo AVC. Do outro lado, o espelho. Entre os pacientes com aura, 12% dos que tinham sintoma visual relataram apenas sintomas negativos: só perderam parte da visão, sem ver nada aparecer. Esse mesmo padrão de perda pura ocorreu em 31,4% dos que tinham sintoma sensitivo. E quando houve fraqueza, ela surgiu de forma súbita em 28% das vezes.

Quase metade dos AVCs com sintoma visual, portanto, apresentou o sinal considerado típico de aura. Uma parcela relevante das auras mostrou o sinal típico de isquemia. É por isso que os autores concluem que esclarecer o diagnóstico exige história clínica detalhada, exame físico e investigação complementar.1

Por que eles se parecem: a onda não é exclusiva da enxaqueca

Existe um mecanismo no cérebro que explica essa semelhança.

A aura nasce de um fenômeno elétrico chamado despolarização alastrante. Acontece que essa onda não é exclusiva da enxaqueca. Ela também percorre o córtex de um cérebro que está sofrendo isquemia. Quando pacientes com AVC isquêmico ou hemorrágico são monitorados em terapia intensiva neurológica, essa mesma onda é detectada em até 70% a 90% dos casos.2

A aura e certos sintomas de um AVC não se parecem por coincidência. Em grande parte, eles compartilham o mesmo evento elétrico. A diferença real está na causa do problema, não na onda gerada.

A dor de cabeça não absolve

O erro de raciocínio mais comum nessa área é concluir que o quadro “era enxaqueca” porque a dor de cabeça veio logo depois do sintoma neurológico. Um evento isquêmico pode disparar uma dor de cabeça com todas as características de enxaqueca.

Uma análise avaliou 670 pacientes com doença cerebrovascular isquêmica aguda. A dor de cabeça idêntica à da enxaqueca foi atribuída ao próprio evento isquêmico em 16 de 120 AITs (13,3%) e em 38 de 550 AVCs isquêmicos (6,9%), e não apareceu em nenhum paciente do grupo controle. Quase sempre era uma dor nova, que começou no início do evento ou nas 24 horas seguintes, e que respondeu mal aos remédios convencionais para enxaqueca.3

A dor também pode chegar antes, como aviso. Em uma série de 120 pacientes com AIT confirmado, 26 (21,6%) tiveram dor de cabeça na semana anterior ao evento, contra 6,2% dos controles. Dessas, 22 foram classificadas como cefaleia sentinela. Sete tiveram dor do tipo enxaqueca naquela semana, e nos 4 que já eram migranosos as crises ficaram diárias e mais fortes que o habitual nos dias que antecederam o AIT. O local da isquemia também pesou: todos os 14 pacientes com AIT na circulação cerebral posterior tiveram dor de cabeça naquela semana, contra 11,3% dos que tiveram AIT na circulação anterior.4

A lição prática cabe em duas frases. Dor de cabeça associada ao sintoma visual ou sensitivo não confirma o diagnóstico de enxaqueca. E mudança recente no padrão da sua dor habitual nunca deve ser ignorada.

O que a imagem separa, e o que ela não separa

É natural esperar que um exame de imagem resolva a dúvida na hora. Ele ajuda. Mas tem limites clínicos que precisam ser ditos.

Um estudo avaliou 47 pacientes que chegaram ao hospital com suspeita de AVC agudo e que, no fim, receberam o diagnóstico de enxaqueca com aura. Entre eles, apenas 16 (34%) tinham hipoperfusão focal na tomografia de perfusão.5 Na prática, isso significa que um exame de perfusão normal não exclui a possibilidade de uma aura estar acontecendo. Quando a alteração apareceu, o padrão foi diferente do visto no AIT, com o fluxo reduzido cruzando territórios de diferentes artérias ou cobrindo o hemisfério inteiro, numa queda menos acentuada.

O mesmo trabalho lembra que a enxaqueca com aura responde por até 10% dos casos que chegam ao pronto-socorro parecendo AVC e não são.5 É bastante gente. E é o motivo de o serviço de emergência investigar antes de tranquilizar.

A situação que muda a conduta: auras novas, em salva, no idoso

Este é o cenário em que errar a conduta custa mais caro.

Quatro pacientes idosos foram encaminhados a centros de AVC com o diagnóstico presumido de “AIT em crescendo”. Todos apresentavam salvas de 3 a 6 episódios idênticos de sintomas sensitivos, espalhados ao longo de dias a semanas, cada crise durando de 10 a 30 minutos, com a marcha gradual típica. Em um dos casos, o formigamento começava na língua e no lábio e caminhava para a bochecha e a mão em 20 minutos. Nenhum deles tinha história prévia de enxaqueca. A neuroimagem revelou hemorragia subaracnóidea focal da convexidade em todos os quatro. O sangue estava restrito a um sulco do córtex cerebral, no lado oposto aos sintomas, sem sinal de aneurisma ou malformação. Os autores apontam a angiopatia amiloide cerebral como a causa provável desse sangramento.6

Duas conclusões práticas saem daí. A primeira é que a tomografia pode não enxergar esse sangramento, principalmente se feita dias depois. O exame correto para investigar isso é a ressonância magnética, com sequências específicas para detectar depósitos de sangue. A segunda é sobre o custo de tratar no automático: assumir isquemia significa antiagregante ou anticoagulante em quem está sangrando.

A incidência é baixa, cerca de um caso por ano nesses centros especializados. Mesmo assim, uma salva de episódios neurológicos novos e inexplicados em pessoa idosa exige investigação rigorosa, idealmente com ressonância magnética.

Um fenômeno visual que costuma ser chamado de aura e não é

Preciso separar um quadro que gera confusão constante no consultório: a síndrome da neve visual. Ela produz pontinhos dinâmicos por todo o campo de visão, parecidos com a estática de uma televisão antiga. A diferença clínica é grande, porque a neve visual é contínua e persistente, não um episódio isolado que começa, evolui e vai embora.7 A aura vem em crises. A neve visual está lá o tempo todo.

Há pacientes que convivem com as duas condições, e é comum chamarem tudo de “aura”. São quadros diferentes, com investigação e conduta diferentes.

O que eu vejo no consultório

Muita gente chega ao meu consultório com o exame na mão. Passou pelo pronto-socorro, fez uma tomografia para descartar AVC, deu tudo normal, e a família guardou o papel na pasta para me mostrar. Costumo ouvir a mesma frase logo depois: “então não foi nada”. Não é isso que o exame diz. Ele afasta algumas coisas, e não explica o que aconteceu.

E o pronto-socorro fez certo. Diante de um sintoma neurológico que apareceu do nada, ninguém consegue separar as possibilidades pela conversa. Investigar é a conduta correta, mesmo quando o resultado vem normal, e sobretudo quando vem normal.

O que traz a pessoa até mim quase nunca é o episódio isolado. É a repetição. Vieram dois, três episódios em poucos dias, cada um com um tempo de recuperação diferente, e aí a pergunta muda de “o que foi isso?” para “e se acontecer de novo?”. Essa é a pergunta certa, e é ela que organiza a investigação.

Do meu lado, existe uma disciplina que eu não abro mão. Quando a história tem qualquer coisa fora do lugar, um antecedente que peça cuidado, um sintoma que não é o de sempre, uma idade em que aquilo não costuma estrear, eu peço o exame mesmo achando que é aura. Já disse isso a paciente com essas palavras: provavelmente é a aura da enxaqueca, e mesmo assim a gente vai olhar. Achar que é aura não é motivo para não investigar. É uma hipótese, e hipótese se confirma.

O que eu não faço, e recomendo que ninguém faça, é decidir isso pela lista de sinais que circula na internet. Eu não consigo fechar esse diagnóstico sem examinar a pessoa e ouvir a história inteira. Quem está sozinho em casa, com o susto ainda quente, consegue menos ainda.

Quando é emergência, e quando é consulta

Procure atendimento imediato, pronto-socorro ou 192, se:

  • O sintoma começou de repente, sem caminhar nem se instalar aos poucos.
  • O sintoma ainda está acontecendo, ou a duração já ultrapassou o que é normal para as suas crises.
  • Você sente fraqueza de um lado do corpo, apresenta boca torta, fala embolada ou dificuldade de entender o que dizem.
  • É o primeiro episódio de sintoma neurológico focal na sua vida, não importa a sua idade.
  • Surgiram vários episódios neurológicos em poucos dias, especialmente se você tem mais de 60 anos.
  • Apareceu uma dor de cabeça súbita e muito forte, totalmente diferente das suas crises habituais.

Na dúvida, vá. Nenhum serviço médico sério considera exagero avaliar um sintoma neurológico. Investigar um quadro que se revela inofensivo custa muito menos do que deixar um AVC passar.

Marque uma consulta de consultório se: o episódio já passou por completo, o pronto-socorro liberou você com exames normais e ninguém explicou direito o que aconteceu. Esse seguimento ambulatorial serve para entender o seu padrão de crises e organizar a prevenção. Como é uma avaliação detalhada, que exige tempo, você pode falar comigo pelo WhatsApp para agendarmos a consulta.

Como saber se é aura ou AVC?

Com segurança, em casa, não dá. As diferenças descritas nas tabelas existem como tendência de grupo e falham no caso individual: entre pacientes com AVC que tiveram sintoma visual, 46,2% descreveram sensações do tipo que aparece, considerado típico de aura; e 12% das auras visuais se apresentaram só com perda, considerada típica de isquemia.1 A regra prática que funciona é outra: sintoma neurológico súbito, ou que ainda está acontecendo, é atendimento imediato.

A dor de cabeça depois do sintoma quer dizer que foi enxaqueca?

Não. Um evento isquêmico pode disparar uma dor de cabeça com todas as características de enxaqueca. Em pacientes com doença cerebrovascular aguda, essa dor apareceu em 13,3% dos AITs e 6,9% dos AVCs isquêmicos, quase sempre nova e surgida no início do evento ou nas 24 horas seguintes.3 A presença de dor não descarta nada.

Aura sem dor de cabeça pode ser AIT?

Pode, e é a apresentação que mais se confunde com AIT, especialmente quando os episódios começam depois dos 50 anos. A ausência de dor não é sinal tranquilizador nem sinal de alarme por si só. O que orienta é o conjunto: idade, se é a primeira vez, se o sintoma é diferente do habitual, com que velocidade apareceu e se está se repetindo.

A tomografia normal descarta AVC?

Não descarta tudo. A tomografia é ótima para ver sangramento agudo, e é por isso que ela é o primeiro exame na emergência, mas pode não mostrar uma isquemia recente nem uma hemorragia pequena de dias antes. Num estudo com pacientes cujo diagnóstico final foi enxaqueca com aura, só 34% tinham alteração na tomografia de perfusão, o que mostra que exame normal não fecha diagnóstico em nenhuma das direções.5 Quem interpreta o exame junto da história é o médico.

Enxaqueca com aura pode ser confundida com AVC no pronto-socorro?

Com frequência. A enxaqueca com aura responde por até 10% dos casos que chegam ao pronto-socorro parecendo AVC e não são.5 Isso não é falha do serviço: diante de sintoma neurológico agudo, investigar primeiro e tranquilizar depois é a conduta correta.

Tive vários episódios parecidos em poucos dias. Isso é grave?

Episódios que se repetem em salvas ao longo de dias ou semanas merecem investigação, sobretudo em pessoa idosa e sem história prévia de enxaqueca. Numa série de quatro pacientes idosos com esse padrão, encaminhados como AIT em crescendo, a imagem revelou hemorragia subaracnóidea focal da convexidade, e o exame que mostrou o achado foi a ressonância, não a tomografia.6 É raro, e é uma das situações em que a conduta apressada piora o quadro.

Vejo pontinhos o tempo todo. Isso é aura?

Provavelmente não. Sintoma visual contínuo, presente o dia inteiro, como uma estática de televisão sobre tudo o que você vê, corresponde melhor à síndrome da neve visual, que é persistente por definição.7 A aura é episódica: começa, caminha, termina. São quadros diferentes e a avaliação é diferente.


Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer uso ou investigação deve ser avaliado com o seu médico.

Referências

  1. Scutelnic A, et al. Migraine aura-like symptoms at onset of stroke and stroke-like symptoms in migraine with aura. Frontiers in Neurology. 2022. https://doi.org/10.3389/fneur.2022.1004058 2 3

  2. Pensato U, et al. Aura phenomenon: a proposal for an etiology-based clinical classification. The Journal of Headache and Pain. 2025. https://doi.org/10.1186/s10194-024-01943-8

  3. Lebedeva ER, et al. Migraine-like headache attributed to a causative disorder: primary migraine or secondary headache with a migraine-like phenotype? The Journal of Headache and Pain. 2025. https://doi.org/10.1186/s10194-025-02152-7 2

  4. Lebedeva ER, et al. Headache in transient ischemic attacks. The Journal of Headache and Pain. 2018. https://doi.org/10.1186/s10194-018-0888-5

  5. Strambo D, et al. Computed tomographic perfusion abnormalities in acute migraine with aura: Characteristics and comparison with transient ischemic attack. European Stroke Journal. 2022. https://doi.org/10.1177/23969873221114256 2 3 4

  6. Izenberg A, et al. Crescendo Transient Aura Attacks. Stroke. 2009. https://doi.org/10.1161/STROKEAHA.109.557009 2

  7. Barral E, et al. Differential Diagnosis of Visual Phenomena Associated with Migraine: Spotlight on Aura and Visual Snow Syndrome. Diagnostics. 2023. https://doi.org/10.3390/diagnostics13020252 2

Dr. Jonas Bernardes

Dr. Jonas Bernardes

Neurologia Clínica · CRM-SP 150216 · RQE 108175

Neurologista em Jaú/SP, dedicado ao diagnóstico e tratamento das doenças do sistema nervoso. Escreve para traduzir o que a neurologia sabe em decisões práticas de saúde. Atende presencialmente e por teleconsulta.

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