O cloreto de magnésio, vendido nas farmácias e lojas de produto natural como “cloreto de magnésio PA”, é o magnésio ligado ao cloro. Ele serve para repor o mineral no corpo e, ao contrário do que se imagina de uma forma inorgânica e barata, é bem absorvido. O que ele não é: o remédio para tudo que a fama promete.
Essa fama, no Brasil, é grande. Rende listas de “22 benefícios”, vídeos com milhões de visualizações e a ideia de que o pó resolve desde cansaço até pressão alta. O que o cloreto entrega, de fato, é magnésio. Os benefícios reais são os do magnésio corrigindo uma falta que já existia, não um poder especial do sal de cloro.
Como o cloreto é uma das formas de magnésio mais procuradas no país, separar a lenda popular do que o dado sustenta faz diferença na hora de comprar.
O que é o cloreto de magnésio
O cloreto de magnésio é um sal: um íon de magnésio ligado a dois íons de cloro. Ele entra na conta das formas inorgânicas do magnésio, porque o mineral está preso a um elemento simples, e não a uma molécula orgânica como um aminoácido ou um ácido de fruta.
No corpo, o que importa é o magnésio que vem junto. O cloro é só o veículo. Quando o cloreto se dissolve, ele libera o íon de magnésio, que é absorvido no intestino como o de qualquer outra forma. É o mesmo magnésio do citrato, do bisglicinato ou do óxido: muda a companhia, não o mineral. O cloreto é, aliás, um dos sais de magnésio mais antigos e estudados na farmacologia.1
O que quer dizer o “PA”
No Brasil, o cloreto de magnésio costuma ser vendido com a sigla “PA” no rótulo, e essas duas letras viraram quase um selo de qualidade. Não são.
PA quer dizer “pró-análise”. É uma classificação de pureza química, usada para reagentes de laboratório, que indica um pó de pureza alta e com poucos contaminantes. É uma informação sobre a pureza do sal, não sobre quanto ele faz pela saúde nem sobre quão bem o corpo o aproveita.
Ou seja, um cloreto “PA” não é um magnésio superior por causa da sigla. Ele é um cloreto de magnésio puro. Puro e bem aproveitado não são a mesma coisa, e é a segunda parte que interessa para quem toma.
Cloreto é inorgânico, mas não é óxido
Este é o ponto que mais confunde. Como o cloreto é inorgânico, muita gente o trata igual ao óxido de magnésio, a forma inorgânica famosa por ser mal absorvida. Não é o mesmo caso.
Numa revisão sistemática de biodisponibilidade, o cloreto de magnésio teve absorção na faixa de 9% a 11% da dose, equivalente à das formas orgânicas. Quem ficou para trás, sozinho, foi o óxido, com cerca de 4%.2 A divisão que o dado sustenta não é “orgânico contra inorgânico”. É o óxido de um lado e quase todas as outras formas do outro, com o cloreto entre elas.
Então, quando alguém diz que “inorgânico não presta”, está certo sobre o óxido e errado sobre o cloreto. O mapa completo das formas, com o que existe de dado para cada uma, está no guia geral do magnésio.
Para que serve o cloreto de magnésio
Na prática, o cloreto de magnésio serve para uma coisa: repor magnésio em quem precisa. Todos os usos que a literatura reconhece para o mineral, do funcionamento muscular e nervoso ao papel em centenas de reações do corpo, valem para o magnésio que vem do cloreto, porque é o mesmo mineral.
O que não se sustenta é a fama de “serve para tudo”. O cloreto não tem estudos próprios mostrando que ele, especificamente, trate esta ou aquela doença. A revisão que comparou as formas de magnésio deixou isso claro por um caminho curioso: ela excluiu de propósito os estudos de tratamento de doença e olhou só a absorção, filtrando 433 trabalhos até sobrarem 14.2 A comparação entre as formas é sobre quanto do mineral entra no corpo, não sobre o que cada uma resolve.
Se o magnésio ajuda em algo no seu caso, o cloreto entrega esse mineral bem. Mas o benefício é do mineral corrigindo uma falta, não do cloreto ter um poder que as outras formas não têm. O que o magnésio realmente sustenta, e o que é exagero, está detalhado no guia geral do magnésio.
E o “óleo de magnésio” na pele?
Uma parte grande da fama do cloreto não vem de engolir, e sim de passar na pele. O chamado “óleo de magnésio” é cloreto de magnésio dissolvido em água, borrifado em spray, com a promessa de que o mineral entra por ali sem passar pelo intestino.
A ideia atrai, principalmente quem sente desconforto no estômago com o magnésio oral. O problema é a falta de lastro. A pele é uma barreira feita justamente para impedir que substâncias entrem, e o magnésio é um mineral em forma de íon, que atravessa mal essa barreira. A evidência de que a aplicação na pele eleve o magnésio do corpo de forma relevante é fraca e não está estabelecida.
Muita gente relata alívio de cãibra depois de borrifar o óleo na perna, e sente um formigamento ou ardor que interpreta como o produto agindo. O formigamento é irritação da pele pelo sal concentrado, não é prova de absorção. Se o objetivo é repor magnésio, a via oral tem lastro e a aplicação na pele não.
Cloreto, citrato ou quelato: onde ele se encaixa
O cloreto de magnésio é uma boa opção quando a meta é repor magnésio gastando pouco. Ele é barato, é bem absorvido e cumpre o papel. Não é a forma mais bem tolerada por quem tem o estômago sensível, e não tem uma indicação exclusiva que o citrato ou os quelatos como o bisglicinato não tenham.
A escolha entre as formas se decide mais por tolerância e objetivo do que por uma diferença de eficácia, que quase não foi medida. Quem passa mal do estômago com um sal costuma se dar melhor com um quelato. Para qualquer forma, o aproveitamento cai conforme a dose de uma vez aumenta. Por isso, dividir a quantidade ao longo do dia costuma render mais do que trocar de sal. Esse ponto está detalhado no guia do quelato.
O que eu vejo no consultório
O cloreto de magnésio, o famoso “PA”, é o magnésio que chega cercado de fama. A pessoa me conta que começou porque ouviu que serve para tudo, comprou o pó barato, dissolveu num litro de água e guarda a garrafa na geladeira. Quase sempre vem com uma expectativa alta, esperando que aquilo ajude num problema que ela nem sabe direito nomear.
A primeira coisa que eu desfaço é o “PA”. As pessoas tratam essas duas letras como um selo de qualidade superior, e não é isso. PA quer dizer “pró-análise”, uma classificação de pureza química do pó, não uma medida de quanto ele faz pela saúde. Um cloreto com a sigla PA não é um magnésio melhor por causa dela.
Por outro lado, eu não sou duro com o cloreto do jeito que sou com o óxido. Ele é inorgânico, mas absorve razoavelmente bem. Se a pessoa estava mesmo com magnésio baixo, ele é barato e entra no corpo, então não faço campanha contra. Onde eu freio é na fama de que ele serve para tudo. Quando aparece um benefício de verdade, quase sempre é a correção de uma falta que já existia, não um poder especial do cloreto. E na dose que muita gente toma, ele solta o intestino, o que às vezes a pessoa confunde com “desintoxicação”.
O outro assunto que sempre volta é o óleo de magnésio, o cloreto passado na pele em spray. As pessoas juram que funciona para cãibra, e o ardor que ele provoca é lido como sinal de que está agindo. Aí eu prefiro ser franco: a passagem do magnésio pela pele é questionável, não é o caminho estabelecido de repor o mineral, e o alívio que a pessoa sente provavelmente vem de outro lugar. Se o objetivo é repor magnésio, o copo com água faz mais que o spray na canela.
Se você está tomando cloreto de magnésio por conta própria e quer entender se ele faz sentido para o seu caso, e em que quantidade, me chame no WhatsApp e a gente conversa.
O que é o cloreto de magnésio PA?
É o cloreto de magnésio em grau de pureza “pró-análise”, uma classificação química que indica um pó de pureza alta e com poucos contaminantes. O “PA” fala da pureza do sal, não de qualidade nutricional nem de quanto o corpo aproveita. Um cloreto PA é um cloreto de magnésio puro, e serve, como as outras formas, para repor magnésio.
Cloreto de magnésio faz mal?
Em quem tem os rins funcionando bem, o cloreto de magnésio é seguro nas doses habituais. O efeito mais comum quando a dose passa do ponto é soltar o intestino. A cautela maior é para quem tem doença renal, porque é o rim que elimina o magnésio que sobra, e nesse caso a suplementação só deve ser feita com acompanhamento. Como qualquer suplemento, o ideal é usar com orientação.
Cloreto de magnésio emagrece?
Não. Nenhuma forma de magnésio, incluindo o cloreto, tem efeito de emagrecimento comprovado. O magnésio participa do metabolismo, e corrigir uma falta dele pode ajudar quem está deficiente a funcionar melhor, mas isso não é o mesmo que queimar gordura. Perder peso depende de outros fatores.
Posso passar cloreto de magnésio na pele?
Pode, mas não conte com isso para repor magnésio. O “óleo de magnésio” é cloreto dissolvido em água, e a evidência de que o mineral entre pela pele em quantidade relevante é fraca. O alívio que algumas pessoas sentem, e o formigamento na pele, não provam que o magnésio foi absorvido. Para repor de verdade, a via oral é a que tem lastro.
Quanto cloreto de magnésio tomar por dia?
Depende do que você come, da sua função renal e dos remédios que usa, então a resposta é individual. Como regra geral, doses altas de uma vez rendem menos, porque a fração absorvida cai quando a quantidade sobe, e dividir ao longo do dia costuma render mais.2 A quantidade certa para o seu caso deve ser definida com um médico ou nutricionista.
Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer uso ou dose de magnésio deve ser avaliado com o seu médico ou nutricionista.
Referências
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Ranade VV, Somberg JC. Bioavailability and pharmacokinetics of magnesium after administration of magnesium salts to humans. American Journal of Therapeutics. 2001;8:345-357. https://doi.org/10.1097/00045391-200109000-00008 ↩
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Pardo MR, Garicano Vilar E, San Mauro Martín I, Camina Martín MA. Bioavailability of magnesium food supplements: a systematic review. Nutrition. 2021;89:111294. https://doi.org/10.1016/j.nut.2021.111294 ↩ ↩2 ↩3