Dr. Jonas BernardesNeurologista Agendar consulta

Creatina e depressão: efeito modesto como apoio ao tratamento

A maior meta-análise reuniu 11 ensaios e chegou a 2,2 pontos na escala de Hamilton, abaixo do limiar de relevância clínica. E sempre somada ao tratamento, nunca no lugar dele.

Pessoa de suéter cinza sentada na beira de uma cama desfeita, rosto fora do quadro e mãos nos joelhos; à frente, sobre a mesa de cabeceira, um pote branco sem rótulo aberto, uma cartela de comprimidos e um copo de água.

Existe pesquisa de creatina para depressão. Existe um mecanismo plausível por trás dela. E existe um resultado modesto. A maior síntese publicada até agora reuniu 11 ensaios e 1.093 participantes, e a diferença que encontrou equivale a 2,2 pontos na escala de Hamilton de 17 itens, abaixo dos 3,0 pontos adotados como a menor diferença que um paciente percebe. A certeza dessa estimativa foi classificada como muito baixa.1

Há um detalhe que quase nunca sobrevive à manchete. Em todos esses ensaios a creatina foi somada ao tratamento. Nenhum testou creatina no lugar do antidepressivo ou da psicoterapia.

E há uma ressalva de segurança para quem tem transtorno bipolar, mais abaixo nesta página, que precisa ser lida antes de qualquer decisão.

O que a maior meta-análise sobre creatina e depressão encontrou

Em 2025, uma revisão sistemática com meta-análise varreu quatro bases procurando todos os ensaios que compararam creatina com placebo e mediram sintomas depressivos. Chegou a 11 ensaios e 1.093 participantes.1

O resultado combinado foi uma diferença média padronizada de −0,34, com intervalo de confiança de 95% indo de −0,68 a −0,00. Traduzido para a escala de Hamilton de 17 itens, isso equivale a 2,2 pontos. Como a diferença mínima importante nessa escala é de 3,0 pontos, o efeito médio ficou abaixo do limiar de relevância clínica, e o intervalo de confiança encosta no zero.1

Outros três números da mesma análise dizem bastante sobre a solidez do achado. A heterogeneidade entre os ensaios foi substancial, com I² de 71,3%, o que significa que eles não estavam medindo a mesma coisa do mesmo jeito. A certeza da evidência pelo sistema GRADE ficou em muito baixa. E as análises de subgrupo, somadas ao ajuste por trim-and-fill, indicaram viés substancial a favor da creatina, ou seja, a estimativa provavelmente está inflada.1

Nos desfechos secundários a resposta se dividiu. A remissão foi significativa (três ensaios, OR 3,60; IC 95% 1,76 a 7,56). A resposta ao tratamento não foi (dois ensaios, OR 0,72; IC 95% 0,28 a 1,88).1

A conclusão dos próprios autores resume esta página melhor do que qualquer paráfrase minha. A creatina pode oferecer um benefício de pequeno a moderado em pessoas com depressão, mas o efeito médio não foi clinicamente importante e o efeito verdadeiro pode ser trivial ou nulo.1

Dois pontos na escala de Hamilton não são melhora percebida

Essa distinção é o que separa uma manchete de um dado, e ela merece um parágrafo próprio.

A escala de Hamilton pontua sintomas de depressão. Humor, sono, apetite, ansiedade, lentificação. Quando um tratamento move essa pontuação, a pergunta seguinte não é se moveu, e sim se moveu o bastante para alguém sentir diferença na vida. Foi para responder a isso que se estabeleceu a diferença mínima importante, situada em torno de 3,0 pontos na versão de 17 itens.

Um resultado pode ser estatisticamente diferente de zero e ainda assim ficar abaixo desse limiar. É o caso aqui: 2,2 pontos, com o intervalo de confiança tocando o zero.1 Quem lê só a palavra “significativo” entende uma coisa. Quem lê o tamanho do efeito entende outra.

Os ensaios de creatina que sustentam o entusiasmo

A ideia não nasceu do nada. Estudos de espectroscopia descrevem alterações de fosfocreatina no cérebro de pessoas com depressão, e a hipótese é que oferecer mais substrato melhore a eficiência energética de regiões frontais, potencializando o antidepressivo.2

O ensaio que mais alimentou esse interesse saiu em 2012. Cinquenta e duas mulheres com depressão maior receberam escitalopram e foram sorteadas para tomar creatina, 5 gramas por dia, ou placebo, por 8 semanas. O grupo da creatina melhorou mais na escala de Hamilton já na semana 2, e a diferença se manteve nas semanas 4 e 8.3

Quatro anos depois, o mesmo grupo publicou a parte de neuroimagem do estudo. Entre os participantes que fizeram os exames, o N-acetilaspartato pré-frontal subiu mais no grupo da creatina, e o mesmo aconteceu com a conectividade dos hubs centrais da rede cerebral.4 Isso indica que a substância chegou onde se propunha a chegar, o que não é pouco. Também não é o mesmo que benefício clínico consolidado.

Os limites precisam vir junto: 52 pessoas, todas mulheres, um único centro. É um bom estudo, não é uma resposta final.

Por que uma revisão fala em cinco ensaios e outra em onze

Quem procura sobre o assunto vai encontrar números diferentes, e a explicação está na pergunta que cada síntese fez.

Uma revisão sistemática publicada em 2026 buscou até setembro de 2025 e incluiu apenas ensaios randomizados em pessoas com transtorno mental diagnosticado. Encontrou seis artigos vindos de cinco ensaios, 126 pessoas em creatina e 112 em placebo. Quatro desses ensaios foram feitos em depressão maior e um em depressão bipolar, e nenhum outro transtorno mental foi investigado.5

A meta-análise de 2025 buscou até fevereiro de 2025 e incluiu ensaios que compararam creatina com placebo em pessoas com ou sem depressão.1 Rede mais larga, mais ensaios, população mais heterogênea. Daí a diferença.

As duas não se contradizem. Elas respondem perguntas distintas, e a leitura honesta considera as duas em vez de escolher a que soa melhor.

Creatina sempre somada ao tratamento, nunca no lugar dele

Este é o ponto que mais muda decisão prática, e ele é consistente em toda a literatura.

Na revisão de 2026, a creatina foi usada em doses de 2 a 10 gramas por dia, por 4 a 8 semanas, sempre como tratamento adjuvante. Ela apareceu somada ao escitalopram, somada à farmacoterapia em adultos, somada à farmacoterapia em adolescentes do sexo feminino e somada à terapia cognitivo-comportamental.5

O braço de psicoterapia tem um ensaio próprio, de 2025, em que cem pessoas com depressão foram sorteadas para creatina mais terapia cognitivo-comportamental ou placebo mais a mesma terapia, por 8 semanas. Os sintomas caíram nos dois grupos, e caíram mais no grupo da creatina, com diferença média de 5,12 pontos no questionário PHQ-9. Os próprios autores classificam o trabalho como gerador de hipótese, um piloto que pede ensaios maiores e mais longos.6

Nem todo braço foi positivo. O ensaio em adolescentes do sexo feminino não encontrou diferença em relação ao placebo.5

Sobre a dose, a faixa usada nesses estudos é a mesma que a literatura usa para o músculo, e o que serve para você é individual, definido com quem acompanha o seu caso. Se você quer entender a lógica da dose e da rotina, ela está em como tomar creatina. O que nenhum desses ensaios permite dizer é que a creatina substitui alguma coisa.

Transtorno bipolar: a ressalva que precisa vir antes

Se o seu diagnóstico é transtorno bipolar, esta seção vale mais do que todas as anteriores, e a decisão é do psiquiatra que acompanha você.

Num ensaio randomizado de 2018, 35 pessoas com transtorno bipolar tipo I ou II em episódio depressivo receberam creatina 6 gramas por dia ou placebo, somados ao tratamento habitual, por 6 semanas. No desfecho primário, a mudança na escala MADRS, não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos (p = 0,560). Na remissão houve: 52,9% no grupo da creatina contra 11,1% no placebo, na análise por intenção de tratar (p = 0,012).7

E dois dos 17 participantes que receberam creatina viraram para hipomania ou mania logo no início do estudo.7

Um estudo aberto anterior, de 2007, tratou dez pessoas com depressão resistente por 4 semanas, com 3 a 5 gramas por dia. Oito eram unipolares e duas, bipolares. As duas com transtorno bipolar desenvolveram hipomania ou mania.8

Esses dois estudos não se somam num número único, porque os desenhos, as doses e os denominadores são diferentes. O que eles têm em comum é a direção do sinal. E num quadro em que a virada de humor é justamente o evento que se quer evitar, um sinal desses entra na conta. A conversa sobre creatina em quem já toma medicação psiquiátrica tem uma página própria.

O dado de dieta que costuma ser confundido com o do suplemento

Circula bastante um número que vem de outro lugar. Uma análise do inquérito nacional de saúde e nutrição dos Estados Unidos, com 22.692 adultos, encontrou prevalência de depressão de 10,23 por 100 pessoas no quartil de menor ingestão alimentar de creatina, contra 5,98 por 100 no quartil de maior ingestão. A razão de chances ajustada foi de 0,68 (IC 95% 0,52 a 0,88).9

Só que o estudo é observacional, e mede creatina que veio da comida, principalmente carne e peixe. Quem come mais carne difere de quem come menos em dezenas de outras coisas, e associação não é efeito. Esse dado justifica investigar. Não justifica suplementar.

O que eu vejo no consultório

A pergunta quase nunca chega direta. Chega como “eu vi que creatina ajuda no humor” e, logo atrás, vem a pergunta que a pessoa realmente veio fazer, que é se dá para diminuir o remédio. Aí eu preciso ser bem claro, porque toda a pesquisa que existe somou creatina ao tratamento. Ninguém testou creatina no lugar do tratamento. Trocar uma coisa pela outra não é uma versão mais natural do mesmo caminho, é sair do caminho.

Tem uma pergunta que eu faço sempre antes de opinar, e ela costuma pegar as pessoas de surpresa: se em algum momento da vida houve uma fase de dormir muito pouco sem sentir falta, gastar demais, falar demais, ficar acelerado por dias seguidos. Muita gente que chega se apresentando com depressão nunca ouviu falar em transtorno bipolar, e essa história só aparece quando alguém pergunta. Faz diferença aqui, porque é justamente nesse grupo que existe um sinal de segurança para levar ao psiquiatra antes de começar qualquer coisa.

Outra coisa que eu aprendi a antecipar é o prazo. A creatina não dá nenhuma sensação na hora, não tem aquele efeito que a pessoa percebe e diz “olha, funcionou”. Quem começa esperando sentir alguma coisa na primeira semana desiste na segunda, e às vezes desiste do tratamento inteiro junto, que é o pior desfecho possível dessa conversa.

E existe uma confusão que vale desfazer logo. Voltar a treinar, aguentar mais uma série, sair do sedentarismo. Isso melhora o humor de qualquer um. Boa parte do que as pessoas me contam como “a creatina me tirou do buraco” é o exercício que voltou junto com ela. Não desmereço o resultado, mas prefiro que a pessoa saiba o que está segurando o quê.

Quando procurar ajuda

Depressão tem tratamento, e a decisão sobre esse tratamento não deveria depender de um pote.

Procure avaliação profissional se a tristeza ou a falta de vontade duram mais de duas semanas na maior parte dos dias, se você perdeu o interesse pelo que gostava, se o sono e o apetite mudaram de forma persistente, se está difícil trabalhar ou cuidar de casa, ou se você vem se afastando das pessoas.

Se existirem pensamentos de morte ou de se machucar, a ajuda é imediata. No Brasil, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188, e procurar uma emergência é sempre uma opção legítima.

Parte dos quadros de cansaço, lentidão e desânimo tem componente neurológico ou metabólico que passa despercebido, e é isso que eu costumo investigar. Se você quer entender o que está por trás dos seus sintomas antes de decidir sobre suplemento, me chame no WhatsApp.

Creatina ajuda na depressão?

A evidência sugere benefício pequeno e incerto, e sempre como complemento do tratamento. A maior meta-análise disponível reuniu 11 ensaios e 1.093 participantes, e o efeito encontrado equivale a 2,2 pontos na escala de Hamilton de 17 itens, abaixo dos 3,0 pontos considerados a menor diferença importante. A certeza da evidência ficou muito baixa e há sinais de viés a favor da creatina.1

Creatina pode substituir o antidepressivo?

Não. Nenhum ensaio testou creatina no lugar do tratamento. Em todos os estudos disponíveis ela entrou somada ao que a pessoa já fazia, medicação ou psicoterapia.5 Reduzir ou interromper antidepressivo é decisão de quem prescreve, e fazer isso por conta própria costuma piorar o quadro.

Quanto tempo a creatina leva para fazer efeito no humor?

Os ensaios em depressão duraram de 4 a 8 semanas.5 No estudo que somou creatina ao escitalopram, a diferença em relação ao placebo apareceu na semana 2 e se manteve até a semana 8.3 Nada disso se sente no primeiro dia. A creatina não produz sensação aguda.

Qual a dose de creatina usada nos estudos de depressão?

A revisão de ensaios randomizados descreve doses de 2 a 10 gramas por dia, por 4 a 8 semanas, sempre como adjuvante.5 O ensaio mais citado usou 5 gramas por dia.3 Essa faixa é o que a literatura testou, e a dose adequada para o seu caso precisa ser definida com o seu médico.

Quem tem transtorno bipolar pode tomar creatina para depressão?

Essa decisão é do psiquiatra que acompanha. Num ensaio randomizado em depressão bipolar, dois dos 17 participantes que receberam creatina viraram para hipomania ou mania no início do estudo.7 Num estudo aberto anterior, em depressão resistente, as duas pessoas com transtorno bipolar incluídas também desenvolveram hipomania ou mania.8 São números pequenos. Mas num quadro em que a virada de humor é justamente o evento a evitar, eles pesam na decisão.

Comer carne, que tem creatina, protege da depressão?

Uma análise observacional com 22.692 adultos encontrou menos depressão entre quem tinha maior ingestão alimentar de creatina, com razão de chances ajustada de 0,68.9 Esse tipo de estudo mostra associação, não causa, e mede a creatina que veio da comida, não do suplemento. Serve para justificar mais pesquisa, não para justificar suplementação.

Creatina serve para ansiedade também?

Não há ensaio de creatina com ansiedade como desfecho. A revisão sistemática de creatina em transtornos mentais só encontrou estudos em depressão maior e em depressão bipolar, e registra que nenhum outro transtorno mental foi investigado.5


Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer uso ou investigação deve ser avaliado com o seu médico.

Referências

  1. Eckert I, Lima J, Dariva AA. Creatine supplementation for treating symptoms of depression: a systematic review and meta-analysis. British Journal of Nutrition. 2025. https://doi.org/10.1017/s0007114525105588 2 3 4 5 6 7 8 9

  2. Kious BM, Kondo DG, Renshaw PF. Creatine for the Treatment of Depression. Biomolecules. 2019. https://doi.org/10.3390/biom9090406

  3. Lyoo IK, Yoon S, Kim T, Hwang J, Kim JE, Won W, et al. A Randomized, Double-Blind Placebo-Controlled Trial of Oral Creatine Monohydrate Augmentation for Enhanced Response to a Selective Serotonin Reuptake Inhibitor in Women With Major Depressive Disorder. American Journal of Psychiatry. 2012. https://doi.org/10.1176/appi.ajp.2012.12010009 2 3

  4. Yoon S, Kim JE, Hwang J, Kim T, Kang HJ, Namgung E, et al. Effects of Creatine Monohydrate Augmentation on Brain Metabolic and Network Outcome Measures in Women With Major Depressive Disorder. Biological Psychiatry. 2016. https://doi.org/10.1016/j.biopsych.2015.11.027

  5. Jeryous Fares B, Zhou C, Fabiano N, Wong S, Stubbs B, Shorr R, et al. The Effect of Creatine Monohydrate on Mental Disorders: A Systematic Review of Randomized Controlled Trials. The Canadian Journal of Psychiatry. 2026. https://doi.org/10.1177/07067437251408171 2 3 4 5 6 7

  6. Sherpa NN, De Giorgi R, Ostinelli EG, Choudhury A, Dolma T, Dorjee S. Efficacy and safety profile of oral creatine monohydrate in add-on to cognitive-behavioural therapy in depression: An 8-week pilot, double-blind, randomised, placebo-controlled feasibility and exploratory trial in an under-resourced area. European Neuropsychopharmacology. 2025. https://doi.org/10.1016/j.euroneuro.2024.10.004

  7. Toniolo RA, Silva M, Fernandes FdBF, Amaral JAdMS, Dias RdS, Lafer B. A randomized, double-blind, placebo-controlled, proof-of-concept trial of creatine monohydrate as adjunctive treatment for bipolar depression. Journal of Neural Transmission. 2018. https://doi.org/10.1007/s00702-017-1817-5 2 3

  8. Roitman S, Green T, Osher Y, Karni N, Levine J. Creatine monohydrate in resistant depression: a preliminary study. Bipolar Disorders. 2007. https://doi.org/10.1111/j.1399-5618.2007.00532.x 2

  9. Bakian AV, Huber RS, Scholl L, Renshaw PF, Kondo D. Dietary creatine intake and depression risk among U.S. adults. Translational Psychiatry. 2020. https://doi.org/10.1038/s41398-020-0741-x 2

Dr. Jonas Bernardes

Dr. Jonas Bernardes

Neurologia Clínica · CRM-SP 150216 · RQE 108175

Neurologista em Jaú/SP, dedicado ao diagnóstico e tratamento das doenças do sistema nervoso. Escreve para traduzir o que a neurologia sabe em decisões práticas de saúde. Atende presencialmente e por teleconsulta.

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