Dr. Jonas BernardesNeurologista Agendar consulta

Creatina faz mal para os rins? Em rim saudável, não piora

O mito começou num caso publicado em 1998, em paciente que já tinha doença renal e usava ciclosporina. Quando a filtração foi medida por um método que não depende da creatinina, ela não mudou.

Pessoa de costas diante de uma janela, enquadrada dos ombros para baixo, segurando contra a luz uma folha impressa de resultado de exame; na outra mão, junto ao corpo, um pote branco de suplemento sem rótulo

Em rim saudável, os estudos não encontraram piora de função renal com creatina. O que sobe é a creatinina do exame de sangue, e creatinina alta não é a mesma coisa que rim doente.

Esse é o mito mais fácil de desmontar do assunto creatina. Se sabe de onde ele veio, o que foi medido depois e por que o número do laboratório confunde.

De onde veio o mito: um caso publicado em 1998

O mito nasceu de uma carta publicada na revista The Lancet, em 1998, que descrevia um paciente cuja função renal piorou enquanto ele usava creatina.1

Quem repete a história quase nunca conta quem era esse paciente. Ele tinha glomeruloesclerose segmentar focal, uma doença renal diagnosticada oito anos antes, com síndrome nefrótica de repetição, e vinha usando ciclosporina havia cinco anos para segurar as recaídas.1 Rim já doente, e um medicamento reconhecidamente capaz de afetar o rim já em uso.

Os autores foram mais cautelosos que a internet que passou a citá-los. Escreveram que havia forte evidência circunstancial de que a creatina estivesse envolvida e registraram, na mesma carta, que não estava claro se aquilo representava dano tubular ou uma manifestação do aumento de produção de creatina.1 Essa segunda hipótese é justamente a armadilha de medida que faz a creatinina subir sem que o rim mude.

Um caso, num paciente com doença renal prévia e em uso de imunossupressor nefrotóxico, sustentou quase trinta anos de medo em gente com rim saudável.

O que os ensaios clínicos mediram depois

Uma revisão sistemática com meta-análise dedicada ao efeito da creatina sobre a função renal não encontrou piora.2 Uma meta-análise mais recente reuniu 19 ensaios randomizados e um estudo cruzado, 575 pessoas ao todo, e mediu o trio que interessa. A creatinina sérica subiu 0,13 mg/dL. A ureia não mostrou diferença, e a taxa de filtração glomerular estimada também não.3

Preste atenção nesse arranjo, porque ele é a chave do assunto. Se a creatina estivesse danificando o rim, a creatinina subiria e os outros marcadores acompanhariam. Subiu só a creatinina.

Por que a creatinina sobe sem que o rim mude

A explicação é bioquímica, e é simples. Uma fração da creatina do corpo se converte espontaneamente em creatinina, o resíduo dessa reação, que o rim filtra e o laboratório usa para estimar a filtração. Quem suplementa aumenta o estoque de creatina, produz mais resíduo e vê a creatinina do exame subir. Como a taxa de filtração glomerular estimada sai de uma conta que parte da creatinina, ela cai no papel pelo mesmo motivo. Nada disso passa por lesão.

Um ensaio duplo-cego foi atrás exatamente disso. Trinta e seis universitários saudáveis foram divididos em placebo, 3 gramas por dia e 5 gramas por dia, durante 35 dias, com dosagem de dois marcadores modernos de lesão renal, o KIM-1 e o MCP-1.4 Nenhum dos dois diferiu entre os grupos. Na análise pareada, os grupos suplementados de fato tiveram aumento de creatinina sérica e queda da filtração estimada, e os valores permaneceram dentro da faixa de referência.4 Os autores atribuem essa variação ao aumento do estoque e do metabolismo da creatina, e concluem que as doses testadas não prejudicaram o rim naquele período.4

O marcador indireto se mexeu. O marcador de lesão, não.

A prova mais direta: quando mediram a filtração de verdade

Estimar não é medir, e alguém foi medir.

Num ensaio com mulheres na pós-menopausa, com idade média de 58 anos, as participantes receberam creatina em 20 gramas por dia na primeira semana e 5 gramas por dia depois, ou placebo, durante 12 semanas. A filtração glomerular foi medida pela depuração de [51Cr]EDTA, um método de referência que não depende da creatinina.5 Ela ficou inalterada. O grupo creatina foi de 86,16 para 87,25 mL/min por 1,73 m², o placebo foi de 85,15 para 87,18, com p igual a 0,81.5

Há ainda uma terceira via independente. Um estudo populacional avaliou a cistatina C, marcador de filtração que também não depende da creatinina, e não encontrou associação entre ingestão de creatina e cistatina C elevada, tanto em pessoas com quanto sem disfunção renal.6

Três caminhos que não passam pela creatinina, três resultados na mesma direção. Daí uma revisão narrativa de 2023 ter perguntado, no próprio título, se não estava na hora de um réquiem para a ideia de insuficiência renal induzida por creatina.7

E quem já tem doença renal?

Aqui a resposta muda, e ela precisa ser dita com a mesma clareza.

Tudo o que está acima foi medido em pessoas com rim saudável. Em quem já tem doença renal estabelecida, a evidência é escassa, e a decisão é do nefrologista que acompanha, não do rótulo do pote. Quem precisa dessa conversa antes de começar está no post sobre quem não pode tomar creatina.

O dano que este mito já causou

Existe um prejuízo real nessa história, e ele não vem da creatina.

Há relato publicado de paciente com creatinina elevada, sem nenhuma doença renal por trás, investigado por causa do número.8 E existe alerta formal, publicado no BMJ, sobre suplementos de proteína e creatina levando a diagnóstico equivocado de doença renal.9

O dano documentado é iatrogênico. Exame desnecessário, encaminhamento desnecessário, susto desnecessário, e às vezes a suspensão de algo que estava ajudando a pessoa.

Quanto tempo de uso já foi observado

O maior conjunto de dados de segurança de longo prazo saiu de um ensaio que testava creatina em doença de Parkinson: 1.741 participantes, 10 gramas por dia, por mais de cinco anos.10 O ensaio falhou no desfecho que buscava e, por isso mesmo, virou uma fonte incomum de dados de segurança, com uma dose bem acima da usada na academia e por um tempo que nenhum estudo de nutrição esportiva alcança.

Quando o exame realmente preocupa

Creatinina alta em quem toma creatina merece interpretação, não pânico, e também não merece ser ignorada de forma automática.

Procure avaliação médica se a creatinina veio alterada e você tem diabetes, hipertensão, história familiar de doença renal ou usa medicação de uso contínuo. Procure também se, junto do exame alterado, existe urina espumosa persistente, inchaço em pernas ou pálpebras, redução do volume de urina ou pressão descontrolada. E se o valor continua subindo em exames seguidos, isso já pede avaliação por si só.

Mais uma coisa, prática. Não pare o suplemento na véspera de repetir o exame sem combinar isso com quem pediu o exame. Uma repetição improvisada costuma gerar um segundo resultado tão difícil de interpretar quanto o primeiro.

O que eu vejo no consultório

Começo pela confusão que atrapalha tudo, e que aparece já na primeira frase: “doutor, minha creatina deu alta”. Quase sempre a pessoa está falando da creatinina, que é outra coisa, e em boa parte das vezes ela nem toma creatina. Perdi a conta de quantas vezes precisei escrever as duas palavras num papel antes de conseguir avançar na conversa.

Depois vem o medo, e ele raramente é proporcional ao número. Quem tem alguém na família que fez diálise lê qualquer creatinina fora da referência como uma sentença. Nesse estado ninguém escuta explicação de fisiologia. Aprendi a tratar o susto antes de tratar o dado.

Um perfil me chama atenção mais que os outros. O homem de muita massa muscular, que treina pesado, cuja creatinina nunca vai parecer normal numa tabela feita para a população geral. Ele acumula anos de exames “alterados” e às vezes chega já rotulado com doença renal crônica, rótulo montado só com esse número.

O que eu não faço é discutir com o resultado. Repito a medida por um caminho que não dependa da creatinina, e combino antes com a pessoa como e quando vamos repetir. Parar o suplemento às pressas, sem esse combinado, costuma produzir um segundo exame tão difícil de interpretar quanto o primeiro.

E existe um prejuízo que quase ninguém contabiliza. Gente que largou a creatina por causa desse mal-entendido. Me incomoda mais quando é uma pessoa mais velha, que estava justamente na fase da vida em que manter músculo importa, e que parou por causa de um número que nunca quis dizer o que ela achou que queria dizer.

Quando levar isso ao médico

Se você tomou creatina, viu a creatinina alterada e não sabe o que fazer com esse resultado, me chame no WhatsApp e a gente olha o exame inteiro antes de decidir qualquer coisa.

Creatina faz mal para os rins?

Em rim saudável, os estudos não encontraram piora de função renal. Uma meta-análise dedicada ao tema não achou prejuízo,2 e quando a filtração foi medida por um método que não depende da creatinina, ela ficou inalterada.5 Em quem já tem doença renal estabelecida a evidência é escassa, e essa decisão cabe ao nefrologista que acompanha.

Por que minha creatinina subiu depois que comecei a tomar creatina?

Porque uma fração da creatina do corpo se converte espontaneamente em creatinina, que é o resíduo medido no exame. Mais estoque de creatina, mais resíduo, creatinina mais alta. Numa meta-análise com 19 ensaios randomizados e um estudo cruzado, somando 575 pessoas, a creatinina subiu 0,13 mg/dL enquanto a ureia e a filtração estimada não mostraram diferença.3 O marcador indireto se mexeu. O rim, não.

Creatina baixa a taxa de filtração glomerular?

A estimada, sim, no papel, porque ela sai de uma conta que parte da creatinina. A medida de verdade, não. Num ensaio em mulheres na pós-menopausa, a filtração medida por depuração de [51Cr]EDTA ficou inalterada depois de 12 semanas, com p igual a 0,81.5 Um estudo populacional com cistatina C, outro marcador que não depende da creatinina, também não encontrou associação com ingestão de creatina.6

Preciso parar a creatina antes de fazer exame de sangue?

Essa combinação é com quem pediu o exame. Parar por conta própria na véspera costuma gerar um segundo resultado tão difícil de interpretar quanto o primeiro. O mais útil é avisar o laboratório e o médico que você usa creatina, para que o resultado seja lido com essa informação, e alinhar com ele se e por quanto tempo suspender antes de repetir.

De onde surgiu a ideia de que creatina prejudica o rim?

De uma carta publicada em 1998 descrevendo um paciente que piorou a função renal usando creatina.1 Esse paciente tinha glomeruloesclerose segmentar focal diagnosticada oito anos antes e usava ciclosporina havia cinco anos.1 Os próprios autores registraram que não estava claro se o quadro representava dano tubular ou apenas o aumento da produção de creatina.1

Creatina causa lesão nos rins a longo prazo?

Não é o que os dados de exposição prolongada mostram. O maior conjunto de dados de segurança de longo prazo veio de um ensaio em doença de Parkinson, com 1.741 participantes recebendo 10 gramas por dia por mais de cinco anos,10 dose bem acima da usada na academia. Marcadores modernos de lesão renal, como KIM-1 e MCP-1, também não se alteraram num ensaio duplo-cego de 35 dias.4

Quem tem só um rim pode tomar creatina?

Essa situação entra na mesma categoria de doença renal estabelecida. A evidência específica é escassa e a decisão é do nefrologista. O que dá para dizer é que a interpretação dos exames de acompanhamento fica mais difícil com o suplemento em uso, porque a creatinina passa a refletir também o estoque de creatina, e não só o trabalho do rim. Converse antes de começar.

Beber muita água protege o rim de quem toma creatina?

Não existe evidência de que a creatina exija hidratação especial para proteger o rim, porque não há dano renal a prevenir em rim saudável. Hidratação adequada é recomendação geral e ajuda no desconforto gastrointestinal de quem toma dose alta de uma vez. Não trate a água como antídoto de um risco que os estudos não encontraram.


Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer uso ou investigação deve ser avaliado com o seu médico.

Referências

  1. Pritchard N, Kalra P. Renal dysfunction accompanying oral creatine supplements. The Lancet. 1998. https://doi.org/10.1016/s0140-6736(05)79319-3 2 3 4 5 6

  2. de Souza e Silva A, Pertille A, Reis Barbosa CG, Aparecida de Oliveira Silva J, de Jesus DV, Ribeiro AGSV, et al. Effects of Creatine Supplementation on Renal Function: A Systematic Review and Meta-Analysis. Journal of Renal Nutrition. 2019. https://doi.org/10.1053/j.jrn.2019.05.004 2

  3. Tsiaras A, Loufopoulos G, Theodoridis X, Liakopoulos V, Poulia KA, Chourdakis M. The effect of creatine supplementation on kidney function: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Journal of Renal Nutrition. 2026. https://doi.org/10.1053/j.jrn.2026.04.010 2

  4. de Oliveira Vilar Neto J, da Silva CA, Meneses GC, Pinto DV, Brito LC, da Cruz Fonseca SG, et al. Novel renal biomarkers show that creatine supplementation is safe: a double-blind, placebo-controlled randomized clinical trial. Toxicology Research. 2020. https://doi.org/10.1093/toxres/tfaa028 2 3 4

  5. Neves M, Gualano B, Roschel H, Lima FR, de Sá-Pinto AL, Seguro AC, et al. Effect of creatine supplementation on measured glomerular filtration rate in postmenopausal women. Applied Physiology, Nutrition, and Metabolism. 2011. https://doi.org/10.1139/H11-014 2 3 4

  6. Nedeljkovic D, Baltic S, Todorovic N, Ostojic SM. Creatine Intake Is Not Associated With Elevated Circulating Cystatin C Levels in Individuals With and Without Kidney Dysfunction in the General Population. Journal of the American Nutrition Association. 2025. https://doi.org/10.1080/27697061.2024.2432484 2

  7. Longobardi I, Gualano B, Seguro AC, Roschel H. Is It Time for a Requiem for Creatine Supplementation-Induced Kidney Failure? A Narrative Review. Nutrients. 2023. https://doi.org/10.3390/nu15061466

  8. Williamson L, New D. How the use of creatine supplements can elevate serum creatinine in the absence of underlying kidney pathology. BMJ Case Reports. 2014. https://doi.org/10.1136/bcr-2014-204754

  9. Willis J, Jones R, Nwokolo N, Levy J. Protein and creatine supplements and misdiagnosis of kidney disease. BMJ. 2010. https://doi.org/10.1136/bmj.b5027

  10. Kieburtz K, Tilley BC, Elm JJ, Babcock D, Hauser R, Ross GW, et al. Effect of Creatine Monohydrate on Clinical Progression in Patients With Parkinson Disease. JAMA. 2015. https://doi.org/10.1001/jama.2015.120 2

Dr. Jonas Bernardes

Dr. Jonas Bernardes

Neurologia Clínica · CRM-SP 150216 · RQE 108175

Neurologista em Jaú/SP, dedicado ao diagnóstico e tratamento das doenças do sistema nervoso. Escreve para traduzir o que a neurologia sabe em decisões práticas de saúde. Atende presencialmente e por teleconsulta.

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