Dr. Jonas BernardesNeurologista Agendar consulta

Creatina e creatinina: por que o suplemento altera o exame

Creatina é o composto, creatinina é o resíduo que o rim filtra. O suplemento sobe a creatinina do exame em torno de 0,13 mg/dL, e isso já rendeu investigação à toa.

Mãos e antebraços apoiados numa mesa de madeira, rosto fora do quadro, diante de um laudo de exame de sangue com uma linha marcada de amarelo; ao lado, óculos de leitura e um pote branco sem rótulo com dosador.

Uma letra separa as duas palavras, e é dela que sai toda a confusão. Creatina é o composto que você toma e que o músculo estoca. Creatinina é o resíduo que sobra quando parte dessa creatina se converte de forma espontânea, e é esse resíduo que o laboratório mede para estimar a função do rim.1

O suplemento aumenta a quantidade de creatina no corpo. Mais creatina, mais resíduo, creatinina mais alta no papel, sem que o rim tenha mudado nada. Nas meta-análises de ensaios randomizados, essa subida gira em torno de 0,13 mg/dL, e nem a ureia nem a filtração estimada acompanham o movimento.2

Tem ainda uma terceira sigla circulando nessa história, a CPK. Ela não fala de rim, mede outra coisa completamente.

Creatina, creatinina e CPK: três nomes, três coisas

Creatina é o composto. Fosforilado a fosfocreatina, funciona como reserva rápida de energia nos tecidos que gastam muito, sobretudo músculo e cérebro.1

Creatinina é o resíduo. Uma fração fixa da creatina do corpo se converte em creatinina sozinha, sem enzima nenhuma no meio, e o rim filtra e elimina esse descarte.1 Como essa produção é razoavelmente estável em cada pessoa, o laboratório usa a creatinina do sangue para estimar a filtração glomerular. Estimar. O mal-entendido inteiro nasce nesse verbo.

CPK, ou creatina quinase, é a enzima que faz a reação. Ela mora dentro da célula muscular e vaza para o sangue quando a fibra sofre. É marcador de músculo, não de rim.

A creatina do pote, a creatinina do sangue, a CPK do laudo. Nenhuma das três mede a mesma coisa.

Quanto a creatina sobe a creatinina, em números

Uma meta-análise de 2026 juntou os ensaios randomizados que avaliaram a função renal em usuários do suplemento. Foram 19 estudos com dados de creatinina, somando 575 pessoas, 307 usando creatina e 268 com placebo. Nesse conjunto, a creatinina sérica subiu em média 0,13 mg/dL, com intervalo de confiança de 95% entre 0,07 e 0,18.2

Os outros dois marcadores contam a metade que ninguém lê. A ureia não mudou (diferença média de −0,60 mg/dL, IC 95% −2,15 a 0,96). A filtração glomerular estimada também não mostrou diferença estatisticamente significativa, ainda que com intervalo largo (−5,20 mL/min/1,73 m², IC 95% −15,00 a 4,60).2

O padrão é característico. Na doença renal, a creatinina sobe e a ureia costuma vir atrás. Quando só a creatinina se mexe e o resto fica parado, a explicação mais provável não está no rim, está na fonte do resíduo.

O que mostra que o rim não mudou, sem depender da creatinina

Estimar não é medir, então alguém foi medir.

Um ensaio randomizado acompanhou mulheres na pós-menopausa que tomaram creatina em dose de carga por uma semana e mantiveram 5 gramas por dia ao longo de 12 semanas. A filtração glomerular foi avaliada por depuração de [51Cr]EDTA, medição direta, sem passar pela creatinina. A filtração não se alterou.3 Essas são doses de protocolo de pesquisa. A dose adequada é definida individualmente, com seu médico ou nutricionista.

O outro caminho é medir um marcador que não venha do metabolismo da creatina. A cistatina C é uma proteína produzida por praticamente todas as células nucleadas, e a quantidade de músculo da pessoa não define seus níveis. Numa análise de 4.969 participantes do inquérito nacional de saúde e nutrição dos Estados Unidos, a ingestão de creatina não estava associada a cistatina C elevada, inclusive no subgrupo com disfunção renal.4

Dois caminhos independentes, chegando na mesma conclusão. O número da creatinina subiu, o rim ficou onde estava.

O prejuízo real desse mal-entendido

O dano documentado é o oposto do que as pessoas temem. Não é o rim que sofre. É a investigação médica desnecessária.

Um relato publicado em 2014 descreve um caso de “pseudo-insuficiência renal”. A creatinina sérica estava alta o bastante para sugerir doença renal avançada, em alguém que usava um suplemento de creatina na forma de etil-éster. Os exames normalizaram quando o suplemento foi suspenso, e a função renal era normal o tempo todo.5

Um alerta publicado no BMJ em 2010 mostra o custo disso na prática. Os autores descrevem quatro pacientes encaminhados por função renal alterada, todos vivendo com HIV e em uso de antirretrovirais. O caso índice fez até ultrassom renal. Todos tinham função renal normal, e o que explicava os exames era o consumo de suplementos de proteína e creatina, identificado só quando alguém perguntou diretamente. A recomendação dos autores é checar a história de suplementos antes de abrir uma investigação clínica.6

É isso que está em jogo. Não um número feio no papel, mas uma investigação inteira, com custo, tempo e susto, disparada por uma informação que uma pergunta simples teria resolvido.

A forma importa: etil-éster não é a mesma coisa que monoidratada

Os casos mais marcantes de creatinina disparada têm um detalhe químico em comum.

O etil-éster de creatina foi criado como pró-fármaco, para melhorar a absorção. Um estudo de estabilidade mostrou que a molécula é mais estável em meio fortemente ácido, com meia-vida de 570 horas em pH 1,0, onde se hidrolisa gerando creatina. Em pH acima de 1,0 ela toma outro rumo e cicliza formando creatinina. A conversão fica mais rápida conforme o pH sobe, chegando a uma meia-vida de 23 segundos acima de pH 8,0.7

Traduzindo, essa forma já entrega a creatinina pronta ao corpo, em vez de fornecer apenas o substrato. A monoidratada, usada na maior parte dos estudos, não se comporta assim. Se o seu exame veio muito alterado, vale olhar qual forma química está escrita no rótulo.

CPK alta depois do treino não é problema de rim

Aqui a confusão é outra, e o dado é igualmente direto.

Num estudo com 203 voluntários que fizeram 50 contrações excêntricas máximas do bíceps, a CPK subiu 6.420% acima do valor inicial no quarto dia. Dos 203 participantes, 111 chegaram a valores acima de 2.000 U/L e 51 passaram de 10.000 U/L, faixas que costumam levantar suspeita de miopatia e de rabdomiólise. Nenhuma medida de função renal aumentou de forma significativa, e ninguém precisou de tratamento por comprometimento renal.8

A régua também não é a mesma para quem treina. Um levantamento em atletas encontrou intervalos de referência de 82 a 1.083 U/L em homens e de 47 a 513 U/L em mulheres, com limites superiores até seis vezes maiores do que os descritos para pessoas inativas.9

Nada disso quer dizer que CPK alta se ignora. Quer dizer que ela precisa ser lida junto do que aconteceu no treino da véspera, e que a régua do sedentário não serve para quem levanta peso.

O que fazer se o seu exame veio alterado

A palavra final é sempre do médico que pediu o exame, e a leitura definitiva é dele. Mas você pode facilitar essa conversa:

  • Conte que toma creatina, informe há quanto tempo usa e em qual dose. Essa informação muda a interpretação e quase nunca é perguntada espontaneamente.
  • Diga se treinou perto da coleta. Exercício intenso nos dias anteriores mexe tanto na creatinina quanto na CPK.
  • Leve o rótulo ou o nome exato do produto, porque a forma química faz diferença.
  • Pergunte se vale medir outra coisa. A cistatina C e a filtração medida diretamente existem justamente para as situações em que a creatinina não é confiável, e quem decide qual exame pedir é o seu médico.
  • Não pare nem comece nada por conta própria com base em um número isolado, e isso vale para os dois sentidos.

Se você quer entender melhor a lógica do suplemento em si, ela está em creatina, para que serve, e a rotina de uso está em como tomar creatina.

O que eu vejo no consultório

Essa é uma das confusões que mais chegam ao consultório, e ela quase sempre vem com o papel do exame na mão, com o resultado circulado ou marcado em vermelho pelo próprio laboratório. A pessoa já pesquisou, já leu que creatinina alta é sinal de rim, e chega com a conversa pronta na cabeça. Uma letra separa as duas palavras, e ninguém tem obrigação de saber disso.

O que eu peço antes de qualquer coisa é a história. Toma creatina, e há quanto tempo. Treinou nos dias anteriores à coleta. Quanta massa muscular tem. Sem essas três respostas, o número sozinho não diz muita coisa, e é impressionante como raramente elas foram perguntadas.

A orientação que costuma chegar comigo é “para de tomar creatina e repete o exame”. Ela não é errada, só é incompleta. Se a creatinina cai depois que a pessoa para, você aprendeu de onde vinha o número, e ainda não sabe como está o rim. Quando eu preciso mesmo dessa resposta, prefiro medir uma coisa que não dependa de músculo.

E existe o erro no sentido contrário, que quase ninguém comenta e me preocupa mais. Uma pessoa idosa, magra, com pouca massa muscular, pode ter creatinina dentro da faixa normal e função renal ruim. Aí o exame tranquiliza quando não deveria. Creatinina alta em quem treina costuma ser uma boa notícia mal contada. Creatinina normal em quem perdeu músculo é a que merece um segundo olhar.

Também aparece a versão com CPK. A pessoa começou na academia, fez exames, veio uma CPK bem alta e o susto é o mesmo. É outra sigla, mede outra coisa, e depende muito do que aconteceu no treino da véspera.

Quando procurar o médico

Creatinina alterada merece avaliação, não autodiagnóstico. A diferença entre um artefato de exame e uma doença renal inicial não se resolve pela internet.

Procure atendimento se, além do exame alterado, você tiver inchaço nas pernas ou no rosto, mudança persistente no volume ou no aspecto da urina, urina espumosa, pressão alta de difícil controle, ou se já tem diagnóstico de diabetes, hipertensão ou doença renal crônica. Dor lombar intensa com febre, ou redução importante da quantidade de urina, pedem avaliação imediata.

Urina muito escura acompanhando dor muscular forte depois de um treino pesado também é motivo para buscar atendimento no mesmo dia.

Se você quer entender o que os seus exames estão dizendo antes de decidir qualquer coisa sobre suplemento, me chame no WhatsApp.

Qual a diferença entre creatina e creatinina?

Creatina é o composto que o músculo estoca e que você toma como suplemento. Creatinina é o resíduo que sobra quando parte dessa creatina se converte de forma espontânea, e é esse resíduo que o rim filtra e que o laboratório mede.1 Uma é a matéria-prima, a outra é o descarte.

Tomar creatina aumenta a creatinina no exame?

Aumenta, e isso é esperado. Nas meta-análises de ensaios randomizados a creatinina sérica subiu em média 0,13 mg/dL em quem usava creatina, enquanto a ureia e a filtração estimada não mostraram diferença.2 Mais creatina no corpo significa mais resíduo circulando, sem que o rim tenha mudado.

Creatinina alta significa problema nos rins?

Nem sempre. Ela é uma estimativa indireta, e depende de quanta creatina o corpo tem e de quanto músculo a pessoa carrega. Quando a filtração é medida diretamente, e não estimada pela creatinina, ela não se altera com o uso de creatina.3 Ainda assim, creatinina alterada é assunto para o médico que pediu o exame, não para autodiagnóstico.

Preciso parar a creatina antes de fazer exame de sangue?

Essa decisão é de quem pediu o exame. O que sempre ajuda é avisar que você toma creatina, há quanto tempo e em que dose, e contar se treinou nos dias anteriores à coleta. Sem essa informação, o número pode ser lido como doença.

Qual exame mostra a função do rim sem sofrer influência da creatina?

A cistatina C é uma alternativa, porque não vem do metabolismo da creatina e não depende da massa muscular. Num levantamento com 4.969 participantes, a ingestão de creatina não estava associada a cistatina C elevada, inclusive entre pessoas com disfunção renal.4 Também existe a medição direta da filtração glomerular.3 Quem escolhe o exame é o seu médico.

Creatina e CPK são a mesma coisa?

Não. CPK, ou creatina quinase, é a enzima que fosforila a creatina, e ela vaza para o sangue quando a fibra muscular sofre. É marcador de músculo, não de rim. Depois de treino pesado ela pode subir muito sem que a função renal se altere.8

CPK alta depois da academia é perigoso?

Não necessariamente. Num estudo com 203 voluntários submetidos a exercício excêntrico intenso, a CPK subiu 6.420% em relação ao valor inicial no quarto dia, e nenhuma medida de função renal se alterou.8 Em atletas, os intervalos de referência chegam a ser até seis vezes maiores que os de pessoas inativas.9 Mesmo assim, urina escura com dor muscular forte depois de um treino pesado pede avaliação no mesmo dia.

Qual forma de creatina altera mais o exame?

O etil-éster é o caso mais problemático. Um estudo de estabilidade mostrou que essa molécula se converte em creatinina, e cada vez mais rápido conforme o pH sobe, chegando a meia-vida de 23 segundos acima de pH 8,0.7 Ou seja, ela entrega creatinina pronta. Os relatos de creatinina muito alta sem doença renal costumam envolver essa forma.5


Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer uso ou investigação deve ser avaliado com o seu médico.

Referências

  1. Wyss M, Kaddurah-Daouk R. Creatine and Creatinine Metabolism. Physiological Reviews. 2000. https://doi.org/10.1152/physrev.2000.80.3.1107 2 3 4

  2. Tsiaras A, Loufopoulos G, Theodoridis X, Liakopoulos V, Poulia KA, Chourdakis M. The effect of creatine supplementation on kidney function: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Journal of Renal Nutrition. 2026. https://doi.org/10.1053/j.jrn.2026.04.010 2 3 4

  3. Neves M Jr, Gualano B, Roschel H, Lima FR, de Sá-Pinto AL, Seguro AC, et al. Effect of creatine supplementation on measured glomerular filtration rate in postmenopausal women. Applied Physiology, Nutrition, and Metabolism. 2011. https://doi.org/10.1139/H11-014 2 3

  4. Nedeljkovic D, Baltic S, Todorovic N, Ostojic SM. Creatine Intake Is Not Associated With Elevated Circulating Cystatin C Levels in Individuals With and Without Kidney Dysfunction in the General Population. Journal of the American Nutrition Association. 2025. https://doi.org/10.1080/27697061.2024.2432484 2

  5. Williamson L, New D. How the use of creatine supplements can elevate serum creatinine in the absence of underlying kidney pathology. BMJ Case Reports. 2014. https://doi.org/10.1136/bcr-2014-204754 2

  6. Willis J, Jones R, Nwokolo N, Levy J. Protein and creatine supplements and misdiagnosis of kidney disease. BMJ. 2010. https://doi.org/10.1136/bmj.b5027

  7. Gufford BT, Ezell EL, Robinson DH, Miller DW, Miller NJ, Gu X, et al. pH-Dependent Stability of Creatine Ethyl Ester: Relevance to Oral Absorption. Journal of Dietary Supplements. 2013. https://doi.org/10.3109/19390211.2013.822453 2

  8. Clarkson PM, Kearns AK, Rouzier P, Rubin R, Thompson PD. Serum Creatine Kinase Levels and Renal Function Measures in Exertional Muscle Damage. Medicine & Science in Sports & Exercise. 2006. https://doi.org/10.1249/01.mss.0000210192.49210.fc 2 3

  9. Mougios V. Reference intervals for serum creatine kinase in athletes. British Journal of Sports Medicine. 2007. https://doi.org/10.1136/bjsm.2006.034041 2

Dr. Jonas Bernardes

Dr. Jonas Bernardes

Neurologia Clínica · CRM-SP 150216 · RQE 108175

Neurologista em Jaú/SP, dedicado ao diagnóstico e tratamento das doenças do sistema nervoso. Escreve para traduzir o que a neurologia sabe em decisões práticas de saúde. Atende presencialmente e por teleconsulta.

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