Dr. Jonas BernardesNeurologista Agendar consulta

Creatina faz cair cabelo? Ensaio de 2025 não achou diferença

O medo nasceu de um estudo de 2009 que mediu um hormônio e não olhou cabelo nenhum. Em 2025 um ensaio finalmente olhou, com tricograma, e não encontrou diferença.

Pia de banheiro com azulejo verde, onde um pente com fios de cabelo presos está apoiado na borda; ao lado, um pote de vidro sem rótulo com pó branco e um copo de água, e uma pessoa desfocada de costas na direita

Nenhum estudo mostrou que a creatina faça cair cabelo. O medo inteiro nasceu de um trabalho só, publicado em 2009, que mediu um hormônio em 20 jogadores de rúgbi e não olhou um fio de cabelo de ninguém. Em 2025 um ensaio randomizado foi olhar, com exame de couro cabeludo e fotografia padronizada, e não encontrou diferença.

Isso não é o mesmo que dizer “está provado que não cai”. É um ensaio só, e é recente. Mas a distância entre o que se sabe e o que se repete na internet, nesse assunto, é enorme.

De onde veio o medo: um estudo de 2009 com 20 jogadores de rúgbi

O trabalho existe, é sério e foi bem feito para aquilo a que se propôs.

Vinte homens de 18 e 19 anos, jogadores de rúgbi de um centro de treinamento na África do Sul, entraram num desenho cruzado, duplo-cego e com placebo. Tomaram creatina em dose de carga, 25 gramas por dia durante sete dias, e depois catorze dias de manutenção com 5 gramas diários.1

A testosterona não mudou. A di-hidrotestosterona subiu 56% depois dos sete dias de carga e continuou 40% acima do valor inicial ao fim das duas semanas de manutenção. A razão entre DHT e testosterona subiu 36% e depois 22%.1 Foram esses números que rodaram o mundo.

A di-hidrotestosterona é o andrógeno envolvido na calvície de padrão masculino. Daí em diante a ponte lógica se monta sozinha na cabeça de quem lê. Se a creatina sobe o DHT, e o DHT causa calvície, então a creatina causa calvície.

O que esse estudo não mediu

Ninguém, naquele estudo, avaliou cabelo. Não houve contagem de fios, não houve exame de couro cabeludo, não houve fotografia. O desfecho medido foi hormônio no sangue, e os próprios autores escreveram, na conclusão, que o achado merecia investigação adicional.1 Esse é o buraco, e ele é o ponto inteiro desta página.

Um hormônio que sobe não é um cabelo que cai. Entre uma coisa e outra existem vários passos biológicos, e cada um deles precisa ser demonstrado, não presumido. A alopecia androgenética depende da sensibilidade herdada dos folículos ao DHT, não simplesmente do nível do hormônio circulante.

Por dezesseis anos a ponte ficou de pé sustentada apenas pela lógica. O estudo virou vídeo, virou post, virou fórum, e o 56% passou a circular sozinho, descolado do desenho que o produziu.

O ensaio que ia medir o cabelo foi retirado sem nenhum participante

Houve uma tentativa de resolver isso. Um estudo registrado com o nome “Influência da suplementação de creatina monoidratada sobre andrógenos e avaliações globais do cabelo”, da Texas Tech University, entrou no registro público de ensaios clínicos com início previsto para abril de 2020. O registro está lá. O status dele é retirado, com zero participantes recrutados.

A pergunta certa foi formulada, o ensaio foi desenhado para respondê-la, e ele não aconteceu. Durante anos o que existiu foi um estudo de hormônio de 2009 e um ensaio de cabelo que nunca começou.

Em 2025 alguém finalmente foi olhar

O ensaio saiu em 2025 e fez as duas coisas ao mesmo tempo.

Quarenta e cinco homens treinados em musculação, de 18 a 40 anos, foram sorteados para tomar 5 gramas diários de creatina monoidratada ou 5 gramas de maltodextrina como placebo, durante doze semanas. Trinta e oito completaram o estudo. Mediram testosterona total, testosterona livre e di-hidrotestosterona no sangue, no começo e no fim, e avaliaram o cabelo com tricograma e com um sistema de fotografia padronizada que quantifica densidade capilar, número de unidades foliculares e espessura acumulada dos fios.2

Não houve diferença entre os grupos ao longo do tempo em nenhum dos hormônios nem em nenhum dos desfechos de cabelo.2

Repare no que isso significa em relação a 2009. Não é só que o cabelo não caiu. O aumento de DHT também não se reproduziu neste ensaio, que usou dose de manutenção, sem fase de carga.

O conflito de interesse que eu preciso declarar

Uma parte considerável da literatura que tranquiliza sobre creatina tem autores ligados à indústria de suplementos, incluindo a revisão de perguntas frequentes que costuma ser citada nesse debate.3 Isso não invalida os dados, e omitir não seria honesto.

A desconfiança, porém, precisa correr para os dois lados. O estudo de 2009 que assustou todo mundo tinha vinte participantes, usou uma dose de carga alta e nunca teve o desfecho que interessa confirmado. O ensaio de 2025 tinha o dobro de gente, mediu o cabelo diretamente e durou doze semanas. Nenhum dos dois encerra o assunto sozinho.

O que costuma estar por trás da queda

Se você tem menos de trinta anos, começou a treinar, arrumou a alimentação, começou a tomar creatina e notou a entrada aumentando, existe uma explicação bem mais provável, e ela não é o pote.

A calvície de padrão masculino costuma se manifestar justamente nessa faixa etária, e depende sobretudo de herança familiar. É também a idade em que muita gente começa a suplementar. A coincidência é quase inevitável, e a conclusão que sai dela é errada.

Queda de cabelo tem ainda outras causas que pedem investigação em vez de palpite: alterações de tireoide, deficiência de ferro, quadros que se seguem a uma doença ou a uma perda de peso importante, uso de certas medicações. Nenhuma delas se resolve trocando de suplemento.

O que eu vejo no consultório

Quem traz essa pergunta quase sempre é homem, jovem, e já vem observando o espelho há um tempo. A pergunta nunca é teórica. É “eu comecei creatina e minha entrada aumentou, foi ela?”.

A primeira coisa que eu pergunto não é sobre o suplemento. É sobre o pai e os avós. A calvície de padrão masculino costuma se declarar entre os vinte e os trinta anos, que é exatamente a idade em que a pessoa entra na academia, arruma a alimentação e começa a tomar creatina. Duas coisas acontecendo no mesmo período não são uma causando a outra, e nesse tema a coincidência é quase a regra.

Muita gente chega com o número decorado, aquele “aumenta o DHT em 56%”. Eu sempre pergunto onde leu. É sempre o mesmo estudo, repetido em vídeo, em post e em fórum, e quase nunca lido por quem repete.

Tem também quem já ouviu que o assunto foi desmentido e não acreditou, porque descobriu que boa parte dessa literatura tem autores ligados à indústria do suplemento. Essa desconfiança é legítima e eu não descarto. Só que ela corre para os dois lados. O estudo que assustou todo mundo também é pequeno, antigo e nunca teve o desfecho confirmado.

E existe o grupo que já parou a creatina por conta própria e voltou ao consultório porque o cabelo continuou caindo do mesmo jeito. Esse costuma ser o mais fácil de convencer a investigar direito, porque já testou a própria hipótese sozinho.

Quando procurar o neurologista

Queda de cabelo é assunto de dermatologia, e esse é o caminho mais direto para investigar. Procure avaliação se a queda é rápida ou acontece em falhas circulares, se veio acompanhada de cansaço, ganho ou perda de peso, intestino alterado ou intolerância ao frio, se você é mulher e notou rarefação no topo da cabeça, ou se tudo começou depois de uma cirurgia, de uma doença ou de uma dieta restritiva.

Do meu lado, o que mais aparece é a queda que veio junto de cansaço persistente e de exames alterados, e aí a conversa deixa de ser sobre cabelo.

Se você quer entender o que está por trás em vez de cortar suplemento no escuro, me chame no WhatsApp e a gente investiga isso direito.

Creatina faz cair cabelo?

Não há estudo mostrando que faça. O medo vem de um trabalho de 2009 que observou aumento de di-hidrotestosterona em 20 jogadores de rúgbi sob dose de carga, sem avaliar o cabelo de ninguém.1 Em 2025, um ensaio randomizado de doze semanas mediu o cabelo com tricograma e fotografia padronizada e não encontrou diferença em relação ao placebo.2 É um ensaio só, então a resposta correta não é “está provado que não cai”, e sim que a ligação nunca foi demonstrada.

Creatina aumenta o DHT?

O estudo de 2009 encontrou aumento de 56% depois de sete dias de dose de carga alta, com a testosterona inalterada.1 Em 2025, um ensaio com dose de manutenção de 5 gramas por dia durante doze semanas mediu os mesmos hormônios e não encontrou diferença entre creatina e placebo.2 Os desenhos e as doses são diferentes, e o achado de 2009 segue sem confirmação.

Quem tem calvície na família deve evitar creatina?

Nenhum dado sustenta essa recomendação. O único ensaio que avaliou cabelo diretamente não encontrou diferença, e ele não foi desenhado para responder especificamente sobre quem já tem predisposição.2 Se você tem histórico familiar e está preocupado, a conversa útil é com um dermatologista, sobre acompanhar a alopecia, e não sobre cortar o suplemento.

Se eu parar a creatina o cabelo volta?

A premissa da pergunta não se sustenta nos dados, porque a queda não foi ligada à creatina. Na prática, quem para o suplemento e continua perdendo cabelo costuma estar diante de alopecia androgenética, que segue o próprio curso e tem tratamento próprio.

A creatina interfere no minoxidil ou na finasterida?

Nenhum estudo avaliou essa combinação, então não dá para afirmar nada em nenhuma direção. Se você usa medicação para queda de cabelo, avise o médico que acompanha antes de acrescentar qualquer suplemento, para que ele consiga interpretar corretamente a sua resposta ao tratamento.

Existe alguma forma de creatina que não afete o cabelo?

A pergunta não se aplica, porque não existe efeito estabelecido sobre o cabelo para nenhuma forma. A monoidratada é a forma usada na maior parte dos ensaios, incluindo o de 2025, que avaliou cabelo diretamente.2 Formas alternativas mais caras não têm evidência de vantagem, nem nesse aspecto nem em outros.


Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer uso ou investigação deve ser avaliado com o seu médico.

Referências

  1. van der Merwe J, Brooks NE, Myburgh KH. Three Weeks of Creatine Monohydrate Supplementation Affects Dihydrotestosterone to Testosterone Ratio in College-Aged Rugby Players. Clinical Journal of Sport Medicine. 2009. https://doi.org/10.1097/jsm.0b013e3181b8b52f 2 3 4 5

  2. Lak M, Forbes SC, Ashtary-Larky D, Dadkhahfar S, Robati RM, Nezakati F, et al. Does creatine cause hair loss? A 12-week randomized controlled trial. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2025. https://doi.org/10.1080/15502783.2025.2495229 2 3 4 5 6

  3. Antonio J, Candow DG, Forbes SC, Gualano B, Jagim AR, Kreider RB, et al. Common questions and misconceptions about creatine supplementation: what does the scientific evidence really show? Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2021. https://doi.org/10.1186/s12970-021-00412-w

Dr. Jonas Bernardes

Dr. Jonas Bernardes

Neurologia Clínica · CRM-SP 150216 · RQE 108175

Neurologista em Jaú/SP, dedicado ao diagnóstico e tratamento das doenças do sistema nervoso. Escreve para traduzir o que a neurologia sabe em decisões práticas de saúde. Atende presencialmente e por teleconsulta.

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