Não existe ensaio clínico randomizado publicado de creatina na doença de Alzheimer. Toda a evidência humana disponível hoje vem de um único estudo piloto, aberto, de braço único, com 20 participantes.1
Esse piloto mostrou uma coisa importante e outra que costuma ser mal lida. A importante é que 20 gramas por dia durante 8 semanas elevaram a creatina cerebral total em 11%, ou seja, a substância chega ao cérebro de quem tem a doença.1 A mal lida é que os escores cognitivos também subiram, e sem grupo de comparação não dá para atribuir isso ao tratamento.
Há um ensaio randomizado e controlado por placebo registrado, e ele é brasileiro. Até agora não publicou resultado.
O único estudo humano é um piloto de braço único
O desenho vem antes do resultado, porque aqui o desenho é a história inteira.
Publicado em 2025, o estudo testou se era viável dar 20 gramas diárias de creatina monoidratada por 8 semanas a 20 pacientes com doença de Alzheimer. Dezenove participantes bateram a meta de pelo menos 80% de adesão. A creatina sérica subiu na semana 4 e na semana 8 (p < 0,001), e a creatina cerebral total aumentou 11% (p < 0,001).1
Nos testes cognitivos houve melhora em vários domínios, do composto global (p = 0,02) ao composto de inteligência fluida (p = 0,004), passando por ordenação de listas (p = 0,001), leitura oral (p < 0,001) e o teste de Flanker (p = 0,05).1
Os próprios autores classificam isso como evidência preliminar para futuros estudos de eficácia e de mecanismo, não como demonstração de benefício.1 É a leitura correta. A razão está logo abaixo.
Por que “a cognição melhorou” não pode ser lido como benefício
Braço único significa que todo mundo tomou creatina. Ninguém tomou placebo, ninguém ficou cego para o que estava recebendo, não havia grupo de comparação.
Quando falta o controle, qualquer melhora em teste cognitivo tem pelo menos três explicações concorrentes além do tratamento. A primeira é o efeito de prática. Aplicar a mesma bateria de testes duas vezes, com 8 semanas de intervalo, costuma render escores melhores só porque a pessoa já fez aquilo antes. A segunda é a expectativa, do participante e de quem cuida dele, num contexto em que todos sabem que a substância está sendo tomada. A terceira é a variação natural do desempenho, que num quadro cognitivo muda bastante de um dia para o outro.
Nenhuma dessas explicações foi descartada, porque o estudo não foi desenhado para descartá-las. Ele foi desenhado para responder se dava para fazer o estudo, quer dizer, se a pessoa com Alzheimer consegue tomar 20 gramas por dia, se a creatina chega ao cérebro, se aparece algum problema de tolerância. Nisso ele foi bem-sucedido.
Transformar esse resultado em “creatina melhora o Alzheimer” é a extrapolação mais grave possível neste assunto. E ela circula bastante.
Vários artigos, um estudo só
Um detalhe de leitura, para quem for pesquisar por conta própria. Esses mesmos 20 participantes geraram mais de uma publicação, cada uma com desfechos diferentes. Não são estudos independentes. É o mesmo ensaio (registro NCT05383833).
Um desses artigos, publicado em 2026, foi olhar os marcadores bioenergéticos do piloto, e o que ele encontrou merece figurar aqui justamente por ser menos animador. O N-acetilaspartato e a glutationa cerebrais não mudaram. Já o ADP (p < 0,02) e o ATP (p < 0,001) em linfócitos subiram nos dois sexos, enquanto a razão ATP/ADP, o superóxido e o peróxido de hidrogênio ficaram estáveis. A respiração mitocondrial em plaquetas e linfócitos aumentou apenas nas mulheres.2
Os autores desse segundo artigo não escondem as limitações: ausência de grupo controle, amostra pequena e tempo curto.2
Por que a hipótese existe
O racional é bom, e é ele que sustenta o interesse.
O hipometabolismo cerebral de glicose aparece antes do declínio cognitivo na doença de Alzheimer, o que coloca a falha energética entre os eventos precoces e não entre as consequências. Nesse terreno, o sistema da creatina vira alvo natural. Uma revisão mecanística descreve a creatina quinase inativada por oxidação na doença, complexos entre a proteína precursora amiloide e a creatina quinase, e depósitos focais de creatina no tecido cerebral.3
Uma revisão de 2023 organizou esse argumento e apontou o passo seguinte. Em modelos animais de Alzheimer, a suplementação de creatina melhorou a bioenergética cerebral, biomarcadores da doença e desempenho cognitivo, mas até então nenhum ensaio humano havia investigado o benefício.4
O pré-clínico ainda traz uma ressalva que raramente aparece nas manchetes. Num modelo de camundongo transgênico com três mutações ligadas ao Alzheimer, a suplementação de creatina por 8 semanas melhorou o aprendizado espacial nas fêmeas, medido pelo labirinto aquático de Morris. Nos machos não houve melhora de desempenho.5 Some isso ao achado de respiração mitocondrial só nas mulheres do piloto humano2 e a possibilidade de o efeito depender do sexo é real, e ainda não foi resolvida.
O ensaio randomizado que existe é brasileiro, e ele não aparece na busca internacional
Este é o ponto que a maior parte das páginas sobre o tema não tem, e ele importa especialmente para quem lê em português.
Quem procura no ClinicalTrials.gov, a base americana tratada por aí como o mapa do mundo, encontra um único ensaio de creatina em Alzheimer, exatamente o piloto de braço único de 20 pessoas discutido acima.
Só que existe outro. Ele está registrado no REBEC, o Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos, e não aparece naquela busca. O RBR-3jkk5c8, registrado em maio de 2025, é descrito como ensaio clínico randomizado e controlado por placebo sobre o papel da suplementação de creatina no metabolismo, na sarcopenia, na funcionalidade e na cognição de pacientes idosos com doença de Alzheimer.
Daí saem duas conclusões. Quem afirma que “não existe ensaio randomizado no mundo” está olhando só metade do mapa. E a resposta para essa pergunta pode acabar vindo do Brasil, embora ainda não tenha vindo.
A conversa sobre creatina que faz sentido hoje é outra
Repare no que o ensaio brasileiro se propõe a medir: metabolismo, sarcopenia, funcionalidade e cognição. A cognição é um dos desfechos, não o único.
Isso não é acaso. Numa pessoa idosa que está perdendo peso, perdendo força e caindo, existe uma literatura sobre creatina e massa magra que não depende de nada do que foi discutido aqui, e que está resumida em creatina para idosos. Outro assunto, com outro nível de evidência atrás.
Sobre a doença em si, a resposta honesta hoje cabe em uma linha: a hipótese é boa, o alvo foi atingido, o benefício clínico não foi demonstrado, e a decisão de usar ou não usar pertence a quem acompanha o caso.
O que eu vejo no consultório
Quem traz essa pergunta é quase sempre o filho ou a filha. E por baixo dela existe outra, que raramente é dita em voz alta: ainda tem alguma coisa que dê para fazer. Eu levo isso a sério, porque a resposta é sim. Só que não é a que a pessoa veio procurar.
Não confundo isso com ingenuidade. Uma família que está vendo a memória de alguém ir embora não consegue ficar parada, e comprar um pote é uma das poucas coisas que estão ao alcance da mão. Eu entendo o gesto. Só que comprar mais um frasco a cada notícia nova sai caro, e a esperança também cobra seu preço quando é dirigida ao lugar errado.
O salto que eu mais preciso desfazer é o que vai de “creatina e memória” para “creatina e Alzheimer”. A pessoa leu sobre desempenho cognitivo em gente saudável e trouxe aquilo para uma doença neurodegenerativa. São perguntas diferentes, com populações diferentes, e a segunda mal começou a ser estudada.
Antes de falar de suplemento, o que eu faço nessas consultas é rever o básico que ninguém comenta e que tem mais lastro do que qualquer pote. Audição, sono, pressão, o que a pessoa está tomando e que pode estar piorando a cabeça dela, movimento, convívio. Já vi muita coisa melhorar quando a família resolve o aparelho auditivo.
E existe uma conversa sobre creatina que faz sentido comigo nesse cenário, só que ela não é sobre memória. É sobre massa muscular, força e queda numa pessoa idosa que está perdendo peso. Outro assunto, com outra evidência atrás, e às vezes é ele que eu acabo discutindo com a família.
Quando procurar o neurologista
Esquecimento tem muitas causas, e várias delas são tratáveis. Investigar cedo muda o que dá para fazer.
Procure avaliação se o esquecimento vem piorando ao longo de meses, se a pessoa repete a mesma pergunta várias vezes no mesmo dia, se está se perdendo em lugares conhecidos, se troca palavras ou tem dificuldade de encontrá-las, se deixou de dar conta de tarefas que sempre fez, como pagar contas, cozinhar ou tomar a medicação certa, ou se houve mudança marcante de comportamento, humor ou personalidade.
Confusão mental que se instala rápido, em dias ou horas, é outra história e pede avaliação imediata.
Problemas de tireoide, deficiência de vitamina B12, depressão, apneia do sono e efeitos de medicações podem causar ou piorar queixa de memória, e todos têm tratamento. Por isso a investigação vem antes de qualquer decisão sobre suplemento.
Se você está preocupado com a memória de alguém da família e quer entender o que está acontecendo, me chame no WhatsApp.
Creatina ajuda no Alzheimer?
Não dá para afirmar isso. Não existe ensaio randomizado publicado, e o único estudo humano é um piloto de braço único com 20 participantes, sem grupo controle e sem placebo.1 Ele mostrou que a creatina chega ao cérebro, o que é bem diferente de mostrar que ela ajuda.
Creatina previne Alzheimer?
Não existe estudo que responda a essa pergunta. A pesquisa disponível foi feita em pessoas que já tinham o diagnóstico, e não em prevenção. Mesmo nesse cenário, ainda não há ensaio randomizado publicado.1
O que o estudo de creatina no Alzheimer realmente mostrou?
Que 20 gramas por dia durante 8 semanas foram viáveis em 20 pacientes, com 19 atingindo pelo menos 80% de adesão, e que a creatina cerebral total subiu 11% (p < 0,001).1 Escores cognitivos também melhoraram, mas sem grupo de comparação isso não pode ser atribuído ao tratamento: efeito de prática nos testes, expectativa e variação natural do desempenho continuam como explicações possíveis.
Qual a dose de creatina usada no estudo de Alzheimer?
Vinte gramas por dia, por 8 semanas.1 É dose de protocolo de pesquisa, bem acima da usada para músculo, e não é recomendação: qualquer uso nesse contexto deve ser definido individualmente, com o médico que acompanha o caso.
Existe algum ensaio clínico de creatina para Alzheimer em andamento?
Sim, e um deles é brasileiro. O registro RBR-3jkk5c8, no Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos, descreve um ensaio randomizado e controlado por placebo sobre creatina em metabolismo, sarcopenia, funcionalidade e cognição de idosos com doença de Alzheimer. Ele não aparece na busca do ClinicalTrials.gov, e ainda não publicou resultado.
Creatina funciona diferente em homens e mulheres no Alzheimer?
É uma possibilidade em aberto. No piloto humano, a respiração mitocondrial em plaquetas e linfócitos aumentou apenas nas mulheres.2 Num modelo animal de Alzheimer, a creatina melhorou o aprendizado espacial nas fêmeas e não melhorou o desempenho nos machos.5 São sinais convergentes, e nenhum deles é conclusivo.
Meu pai tem demência. Vale a pena dar creatina?
Essa decisão é do médico que acompanha, e a conversa costuma render mais quando parte do quadro inteiro. Antes do suplemento, o caminho é investigar causas tratáveis de piora cognitiva, como problemas de tireoide, deficiência de vitamina B12, depressão, apneia do sono e efeitos de medicações em uso. Se a preocupação principal for perda de peso, força e quedas, o assunto é outro, e está em creatina para idosos.
Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer uso ou investigação deve ser avaliado com o seu médico.
Referências
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Smith AN, Choi I, Lee P, Sullivan DK, Burns JM, Swerdlow RH, et al. Creatine monohydrate pilot in Alzheimer’s: Feasibility, brain creatine, and cognition. Alzheimer’s & Dementia: Translational Research & Clinical Interventions. 2025. https://doi.org/10.1002/trc2.70101 ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8 ↩9
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K Taylor M, Smith AN, Choi I, Lee P, Kelly E, Arora T, et al. Bioenergetic data from a creatine monohydrate pilot trial in Alzheimer’s disease. Alzheimer’s & Dementia: Translational Research & Clinical Interventions. 2026. https://doi.org/10.1002/trc2.70228 ↩ ↩2 ↩3 ↩4
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Bürklen TS, Schlattner U, Homayouni R, Gough K, Rak M, Szeghalmi A, et al. The Creatine Kinase/Creatine Connection to Alzheimer’s Disease: CK Inactivation, APP-CK Complexes and Focal Creatine Deposits. BioMed Research International. 2006. https://doi.org/10.1155/JBB/2006/35936 ↩
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Smith AN, Morris JK, Carbuhn AF, Herda TJ, Keller JE, Sullivan DK, et al. Creatine as a Therapeutic Target in Alzheimer’s Disease. Current Developments in Nutrition. 2023. https://doi.org/10.1016/j.cdnut.2023.102011 ↩
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Snow WM, Cadonic C, Cortes-Perez C, Adlimoghaddam A, Roy Chowdhury SK, Thomson E, et al. Sex-Specific Effects of Chronic Creatine Supplementation on Hippocampal-Mediated Spatial Cognition in the 3xTg Mouse Model of Alzheimer’s Disease. Nutrients. 2020. https://doi.org/10.3390/nu12113589 ↩ ↩2