Dr. Jonas BernardesNeurologista Agendar consulta

Creatina e traumatismo craniano: a evidência é menor do que parece

Em criança, tudo se apoia num ensaio aberto de 39 participantes que foi publicado mais de uma vez. Em concussão de adulto, nada publicado ainda. E em AVC o ensaio duplo-cego foi negativo.

Pessoa recostada num sofá verde em sala de luz baixa, de costas e com o rosto fora do quadro, a mão apoiada na nuca; na mesa à frente, vários potes de suplemento sem rótulo, óculos e dois copos de água.

A creatina no traumatismo craniano é, até aqui, uma boa promessa de laboratório com pouquíssima sustentação humana. E o pouco que existe fica mais frágil quando você olha de perto.

Em crianças e adolescentes, tudo se apoia num único estudo aberto com 39 participantes. Ele acabou publicado mais de uma vez, com desfechos diferentes em cada artigo, o que dá a impressão de existirem vários estudos onde existe apenas um.1,2 Em adulto com concussão, não há nenhum ensaio publicado. Em AVC, o ensaio maior e cegado foi negativo.3

São quatro perguntas distintas, e cada uma merece resposta própria.

A base da evidência pediátrica é um estudo só

Isso muda a forma de ler tudo o que se publica sobre o tema.

Em 2006, um grupo grego publicou um ensaio aberto e randomizado com 39 crianças e adolescentes, de 1 a 18 anos, com traumatismo cranioencefálico. Eles receberam creatina por via oral, 0,4 g por quilo por dia, durante 6 meses. Os autores relataram melhora na duração da amnésia pós-traumática, no tempo de intubação e no tempo de internação em terapia intensiva, e também melhora significativa em função cognitiva (p < 0,001) e em personalidade e comportamento. Nenhum efeito adverso foi observado.1

Em 2008, o mesmo grupo voltou a publicar. Outro artigo, outros sintomas avaliados, e as mesmas 39 crianças e adolescentes. Dessa vez relataram melhora significativa em dor de cabeça (p < 0,001), tontura (p = 0,005) e fadiga (p < 0,001).2

Não são dois estudos. É o mesmo ensaio clínico repartido em desfechos diferentes. Quem cita os dois artigos lado a lado dobra o tamanho aparente da evidência sem acrescentar um único participante. A pesquisa ainda tinha outras fragilidades. Correu sem cegamento e sem placebo, num contexto em que a criança costuma melhorar ao longo dos meses de qualquer maneira. Mas o que mais pesa é o silêncio que veio depois. Passaram cerca de vinte anos e ninguém replicou o resultado.

Isso não torna o achado falso. Torna-o exatamente o que ele é: um sinal inicial que pede confirmação e não a recebeu.

Por que a ideia da creatina continua fazendo sentido

A biologia por trás dela é boa, e é essa biologia que mantém o assunto vivo.

O trauma craniano abre uma crise energética no cérebro. A demanda de ATP dispara justamente quando a capacidade de produzi-lo despenca, e as bombas iônicas da membrana ficam sem combustível na hora em que mais precisam funcionar. A creatina serve como reserva rápida dessa moeda energética. Oferecer mais creatina antes ou logo depois da lesão, portanto, é uma hipótese razoável.

No modelo animal, ela funciona. Em camundongos, a administração profilática de creatina produziu neuroproteção em isquemia cerebral.4 Uma revisão de 2017 juntou as peças e mostrou a semelhança entre a fisiopatologia do trauma leve e o papel celular da creatina. Os autores registraram que a suplementação não havia sido pesquisada em humanos com trauma leve, mas apontaram o potencial da substância como neuroprotetora, administrada antes ou depois da lesão.5

Fazer sentido na teoria e funcionar na prática são coisas diferentes. A própria creatina já deu esse exemplo: na doença de Parkinson, a justificativa da energia celular era forte, mas o ensaio grande não confirmou o benefício.

Concussão em adulto: não é ausência de estudo, é resultado que ainda não saiu

São duas frases que parecem iguais e não são. “Ninguém testou” e “testaram e o resultado não saiu” não são a mesma coisa, e a primeira seria falsa.

O registro público de ensaios clínicos mostra um ensaio piloto randomizado e controlado por placebo com creatina monoidratada em traumatismo craniano leve. Quem conduziu foi a Universidade do Sul da Dinamarca, com 34 participantes. Começou em agosto de 2023 e foi concluído em dezembro de 2024 (NCT06644131). O resultado ainda não foi publicado.

Há outros dois registros parecidos. Um estudo canadense com 120 participantes, ainda recrutando, combina orientação alimentar, fisioterapia e um grupo que recebe ômega-3, vitamina D3 e creatina (NCT05589064). O outro é dinamarquês, com 45 participantes, e avalia sintomas prolongados depois da concussão, mas seu status consta como desconhecido (NCT05562232). O método de um ensaio piloto para esses sintomas persistentes também já foi publicado.6

Ou seja, a pesquisa saiu do zero, o dado existe e a resposta deve aparecer nos próximos anos. Até lá, afirmar que a creatina ajuda na recuperação da concussão é prometer algo que ainda não foi publicado.

Atletas de esporte de contato: uma revisão de escopo, quatro estudos

Em 2025, uma revisão de escopo foi atrás exatamente disso, o uso de creatina no manejo do trauma craniano leve em atletas de esporte de contato. Localizou 52 estudos, e apenas quatro passaram pelos critérios de inclusão: dois em modelos animais e dois em atletas.7

Nos modelos animais, com ratos e camundongos, a creatina reduziu de forma significativa o acúmulo de lactato e o dano tecidual depois da lesão. Já nos estudos com atletas, ela aparecia dentro de protocolos nutricionais mais amplos para a recuperação da concussão, e o que se observou ali foram variações num marcador medido por espectroscopia de ressonância magnética (a razão N-acetilaspartato/creatina). Os próprios autores concluem que a evidência é limitada e que faltam estudos humanos para estabelecer dose, momento de uso e desfechos de longo prazo.7

A revisão ainda faz uma declaração que aumenta a confiança no texto. Um dos autores integra o conselho consultivo científico de uma iniciativa ligada à creatina.7 Isso não invalida o trabalho, mas é uma informação que o leitor merece ter.

AVC é outra pergunta, e a resposta é diferente

Trauma e AVC costumam cair na mesma busca, embora sejam problemas distintos. Aqui existem dois ensaios pequenos apontando para lados opostos, e a ordem em que se cita cada um faz diferença.

O maior e mais bem desenhado é o ICaRUS, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, em idosos internados por AVC agudo. Trinta participantes, quinze em cada grupo, receberam 10 gramas de creatina por via oral duas vezes ao dia, ou placebo, durante os sete dias de internação. O acompanhamento durou cerca de 90 dias. A conclusão dos autores não deixa margem. A suplementação não influenciou capacidade funcional, força ou massa muscular. Três participantes do grupo da creatina tiveram diarreia e um relatou empachamento, tudo com melhora rápida ao ajustar o horário da tomada.3

O estudo com resultado positivo é bem menor. Oito sobreviventes de AVC (cinco tomando creatina e três com placebo) fizeram dez semanas de treino de força supervisionado. Vários ganhos apareceram nos dois grupos, efeito do próprio treino. A única diferença a favor da creatina foi no teste de caminhada de 6 minutos, em que a distância percorrida aumentou.8

Oito pessoas, um desfecho positivo entre vários avaliados. Isso serve para iniciar uma investigação maior, não para recomendar o uso.

O que dá para dizer hoje, em uma linha por cenário

  • TCE em criança e adolescente: um único ensaio aberto, 39 participantes, sem replicação em cerca de vinte anos.1,2
  • Concussão em adulto: nenhum resultado publicado, com pelo menos um ensaio controlado por placebo já concluído e aguardando publicação.
  • AVC, recuperação funcional: o ensaio duplo-cego foi negativo, e o positivo tem oito participantes.3,8
  • AVC, neuroproteção na fase aguda: existe mecanismo e existe modelo animal, não existe ensaio humano.4

Nenhum desses cenários sustenta a creatina como tratamento de lesão cerebral. Qualquer decisão de uso nesse contexto cabe ao médico que acompanha o caso, não a um texto na internet.

O que eu vejo no consultório

Quem faz essa pergunta quase nunca é quem bateu a cabeça. É a mãe, é a esposa, é o filho. A pessoa com sequela de trauma muitas vezes está cansada demais para pesquisar, e quem pesquisa por ela chega com uma lista.

E a lista é o problema prático. Já vi gente começar oito, dez suplementos ao mesmo tempo, cada um sugerido por um lugar diferente. Se melhorar, ninguém sabe o que ajudou. Se piorar, também não. O risco raramente está na creatina em si, está em tomar tantas decisões de uma vez que nenhuma delas pode ser avaliada.

O momento da pergunta também chama atenção. Ela quase nunca vem na primeira semana. Vem meses depois, quando o cansaço e a lentidão não passaram e a paciência acabou. E o pouco que existe de estudo foi feito logo depois do trauma, em criança e adolescente. Justo nessa fase tardia, ninguém está pesquisando suplemento.

A queixa que domina não é dor de cabeça, é fadiga e lentidão para pensar. Daí a ideia de repor energia no cérebro soar tão convincente para essa família, e daí eu precisar ser cuidadoso ao explicar o tamanho do que a literatura tem hoje.

E tem uma parte em que eu insisto, porque muda mais o dia do que qualquer pote. Boa parte da dor de cabeça que persiste depois de um trauma vem do pescoço, e responde a tratamento do pescoço. Sono regular, retorno gradual às atividades e uma avaliação bem-feita da coluna cervical costumam render mais do que a próxima coisa comprada na farmácia.

Quando procurar o neurologista

Traumatismo craniano tem sinais de alarme, e eles não têm nada a ver com suplemento.

Depois de uma pancada na cabeça, procure atendimento imediato se houver perda de consciência, vômitos repetidos, confusão mental, sonolência excessiva ou dificuldade para acordar a pessoa, convulsão, fraqueza ou dormência em um lado do corpo, fala arrastada, pupilas de tamanhos diferentes, ou dor de cabeça que piora progressivamente. Saída de sangue ou de líquido claro pelo nariz ou pelo ouvido também exige avaliação na hora.

Em quem usa anticoagulante, em idosos e em crianças pequenas, o limiar para ir ao pronto-socorro deve ser ainda mais baixo, mesmo diante de um trauma aparentemente leve.

Passada a fase aguda, procure o médico se sintomas como dor de cabeça, tontura, cansaço, irritabilidade ou dificuldade de concentração persistirem por semanas. Se isso está atrapalhando o trabalho, o estudo ou a vida em casa, a avaliação é indispensável. Boa parte disso tem tratamento, e nem sempre o tratamento é um comprimido.

Se você ou alguém da sua família está lidando com sequelas de um trauma craniano e quer entender o que ainda dá para fazer, me chame no WhatsApp.

Creatina ajuda na recuperação de traumatismo craniano?

Não dá para afirmar isso. Em crianças e adolescentes existe um único ensaio aberto, com 39 participantes, que relatou melhora em vários desfechos e nunca foi replicado em cerca de vinte anos.1,2 Em adultos com concussão, não existe resultado publicado. A evidência é inicial, e inicial não é sinônimo de promissora nem de inútil.

Creatina ajuda na concussão?

Ainda não se sabe. Um ensaio piloto randomizado e controlado por placebo, com 34 participantes, foi concluído em dezembro de 2024 na Dinamarca (NCT06644131), e o resultado continua sem publicação. Outros registros estão em andamento. Dizer que ninguém estudou seria falso, e dizer que funciona seria adiantar uma resposta que não saiu.

Qual dose de creatina foi usada nos estudos de trauma craniano?

O ensaio pediátrico usou 0,4 g por quilo de peso por dia, por via oral, durante 6 meses.1 O ensaio em AVC agudo usou 10 gramas duas vezes ao dia por sete dias.3 São doses de protocolo de pesquisa, bem acima do uso comum, e nenhuma delas vale como recomendação. A dose adequada é definida individualmente, com seu médico.

Creatina previne concussão em atletas de esporte de contato?

Não há evidência para isso. Uma revisão de escopo de 2025 localizou 52 estudos e só quatro atendiam aos critérios, dois em animais e dois em atletas. Nestes últimos, a creatina aparecia dentro de protocolos nutricionais mais amplos, com desfecho de espectroscopia, não de prevenção.7

Creatina ajuda na recuperação depois de um AVC?

O ensaio mais bem desenhado disse que não. Trinta idosos internados por AVC agudo receberam creatina ou placebo de forma duplo-cega, e a suplementação não influenciou capacidade funcional, força ou massa muscular.3 Um estudo com apenas oito participantes encontrou melhora na distância caminhada em 6 minutos no grupo da creatina, o que é sinal para investigar, não base para recomendar.8

Por que parece haver vários estudos de creatina em trauma craniano infantil?

Porque a mesma coorte de 39 crianças e adolescentes foi publicada mais de uma vez, com desfechos diferentes em cada artigo.1,2 Contar esses artigos como estudos separados infla a base aparente sem acrescentar nenhum participante novo.

Quem teve traumatismo craniano pode tomar creatina?

Essa decisão é de quem acompanha o caso. O perfil de segurança da creatina em pessoas saudáveis é bem estudado, o que não é a mesma coisa que evidência de benefício depois de uma lesão cerebral. Vale ainda um cuidado prático: começar vários suplementos ao mesmo tempo impede saber o que ajudou e o que atrapalhou.


Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer uso ou investigação deve ser avaliado com o seu médico.

Referências

  1. Sakellaris G, Kotsiou M, Tamiolaki M, Kalostos G, Tsapaki E, Spanaki M, et al. Prevention of Complications Related to Traumatic Brain Injury in Children and Adolescents With Creatine Administration: An Open Label Randomized Pilot Study. The Journal of Trauma: Injury, Infection, and Critical Care. 2006. https://doi.org/10.1097/01.ta.0000230269.46108.d5 2 3 4 5 6

  2. Sakellaris G, Nasis G, Kotsiou M, Tamiolaki M, Charissis G, Evangeliou A. Prevention of traumatic headache, dizziness and fatigue with creatine administration. A pilot study. Acta Paediatrica. 2008. https://doi.org/10.1111/j.1651-2227.2007.00529.x 2 3 4 5

  3. Souza JT, Minicucci MF, Ferreira NC, Polegato BF, Okoshi MP, Modolo GP, et al. Influence of CReatine Supplementation on mUScle Mass and Strength After Stroke (ICaRUS Stroke Trial): A Randomized Controlled Trial. Nutrients. 2024. https://doi.org/10.3390/nu16234148 2 3 4 5

  4. Zhu S, Li M, Figueroa BE, Liu A, Stavrovskaya IG. Prophylactic Creatine Administration Mediates Neuroprotection in Cerebral Ischemia in Mice. The Journal of Neuroscience. 2004. https://doi.org/10.1523/JNEUROSCI.1278-04.2004 2

  5. Ainsley Dean PJ, Arikan G, Opitz B, Sterr A. Potential for use of creatine supplementation following mild traumatic brain injury. Concussion. 2017. https://doi.org/10.2217/cnc-2016-0016

  6. Bødker RL, Marcussen M. Pilot study protocol of a randomized controlled trial for the potential effects of creatine monohydrate on persistent post-concussive symptoms. Frontiers in Neurology. 2023. https://doi.org/10.3389/fneur.2023.1209548

  7. Giraldo JE, Bonilla DA, Bedoya LF, Hoyos KF, Velasquéz SG, Márquez MM, et al. Neuroprotective effects of creatine supplementation in mild TBI management among contact sport athletes: A scoping review. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2025. https://doi.org/10.1080/15502783.2025.2533681 2 3 4

  8. Butchart S, Candow DG, Forbes SC, Mang CS, Gordon JJ, Ko J. Effects of Creatine Supplementation and Progressive Resistance Training in Stroke Survivors. International Journal of Exercise Science. 2022. https://doi.org/10.70252/ekhj1489 2 3

Dr. Jonas Bernardes

Dr. Jonas Bernardes

Neurologia Clínica · CRM-SP 150216 · RQE 108175

Neurologista em Jaú/SP, dedicado ao diagnóstico e tratamento das doenças do sistema nervoso. Escreve para traduzir o que a neurologia sabe em decisões práticas de saúde. Atende presencialmente e por teleconsulta.

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