Não existe ensaio clínico de suplementação de creatina no TDAH. Nenhum. Nem em criança, nem em adulto, nem sequer registrado como estudo em andamento.
O que temos são achados de imagem mostrando creatina cerebral alterada no TDAH e um modelo animal que liga o transportador de creatina ao comportamento hiperativo. Isso é mecanismo, e mecanismo não é tratamento.
Mais importante ainda, a direção desse achado aponta para o oposto da narrativa de que falta energia e a creatina repõe.
O achado de imagem e a direção que surpreende
Em 2007, um estudo de espectroscopia por ressonância magnética mediu creatina e glutamato/glutamina no estriado de crianças com TDAH. A creatina estriatal estava mais alta nos pacientes virgens de tratamento, e caiu depois do tratamento com estimulante.1
Leia de novo, porque é contraintuitivo. Não havia falta de creatina. Havia creatina a mais, e foi o remédio que funciona no TDAH que a reduziu.
Nada disso torna suplementar prejudicial, nem inútil. Só significa que a premissa popular, a de que o cérebro com TDAH está sem combustível e a creatina repõe esse combustível, não é sustentada pelo próprio achado que costuma justificá-la.
Outros estudos de imagem descrevem alterações metabólicas regionais no cingulado de adultos com TDAH, envolvendo as razões entre glutamato, glutamina e creatina.2 São achados de composição química cerebral, e não de resposta a tratamento.
Um problema de método na literatura de imagem
Existe um detalhe técnico que muda a forma de ler qualquer estudo de espectroscopia sobre o TDAH.
Boa parte deles usa a creatina como denominador, ou seja, expressa outros metabólitos como uma razão em relação à creatina, no pressuposto de que ela é estável. É o caso das razões glutamato/creatina e glutamina/creatina.2
Só que a própria creatina varia. Um estudo em cérebro de rato mostrou que o sinal de creatina medido por espectroscopia correlaciona com a densidade da proteína transportadora de creatina no tecido.3 Se o denominador varia junto com a densidade de transportador, e se no TDAH a creatina está alterada,1 o pressuposto que sustenta a razão fica frágil.
Isso importa na prática. É por causa disso que a afirmação “a creatina está alterada no TDAH” precisa ser lida com cuidado antes de virar justificativa para tomar o suplemento.
O que o modelo animal do transportador mostra, e o que não mostra
O eixo creatina-dopamina existe, e é ele que mantém a hipótese viva.
Camundongos em que o transportador de creatina foi deletado especificamente nos neurônios dopaminérgicos desenvolvem hiperatividade.4 Um modelo de rato de deficiência do transportador também apresenta distúrbio comportamental e metabolismo cerebral alterado.5
Repare no que esses modelos fazem. Eles removem o transportador e criam uma falha de entrega de creatina no neurônio. É a situação inversa de dar creatina a alguém cujo transportador funciona bem. Um modelo de deficiência não prevê o efeito de suplementar quem não é deficiente.
A única condição em que essa falha do transportador acontece de verdade em pessoas está no artigo sobre deficiência cerebral de creatina.
Por que “não existe ensaio” é informação útil, e não evasiva
Constatar que não há ensaios tem valor prático imediato.
Uma varredura sistemática de sete camadas de busca não localizou nenhum ensaio de suplementação de creatina no TDAH, publicado ou registrado como estudo em andamento. Isso não é “testaram e não funcionou”, e também não é “funciona mas ninguém divulgou”. É ausência de teste.
Na prática, três consequências:
- Ninguém sabe se ajuda. Não há como afirmar benefício, e quem afirma está indo além do que existe.
- Ninguém sabe a dose. Não existe protocolo testado para esse desfecho, então qualquer número que circule foi emprestado de outro contexto.
- O tempo gasto testando tem custo. Em criança em idade escolar, meses de tentativa sem plano viram meses de dificuldade acumulada.
O que muda o TDAH, e por que a creatina não é comparação
O TDAH tem tratamento com eficácia estabelecida, medicamentoso e não medicamentoso, e essa conversa se faz com o médico que acompanha o caso.
A creatina não é alternativa a isso, porque não foi comparada a nada. Ela não se mostrou inferior a nenhum tratamento. Ela nunca foi testada.
Se o seu interesse é foco e clareza mental de forma geral, e não o transtorno, o que a literatura mostra sobre cognição está em creatina para memória, e essa resposta também é mais modesta do que a fama sugere.
O que eu vejo no consultório
Quem traz essa pergunta costuma ser mãe ou pai que não quer dar estimulante ao filho e procura alguma coisa antes do remédio. Eu levo esse receio a sério, ele quase sempre tem uma razão legítima por trás, e por isso não respondo com pressa.
O problema é o custo do tempo. Enquanto a família testa suplemento por suplemento, a criança segue com dificuldade na escola, e é isso que costuma pesar mais no fim. Eu prefiro dizer logo que a creatina não tem ensaio nenhum nesse cenário, para ninguém perder meses achando que está tratando.
Também aparece o adulto que se diagnosticou pela internet e quer a creatina pelo foco. Aí a conversa muda, porque quase sempre existe outra coisa acontecendo junto, sono desregulado, álcool, ansiedade, ou um trabalho que ninguém aguentaria mesmo.
Uma confusão que eu preciso desfazer com frequência é a do exame de ressonância. A pessoa leu que a creatina aparece alterada no cérebro de quem tem TDAH e concluiu que estava faltando creatina. Não é isso que o achado diz, e a direção dele surpreende quem chega com essa ideia.
E quando a família insiste no suplemento, eu peço só uma coisa. Que a decisão de dar ou não dar remédio não fique esperando o resultado dessa tentativa.
Quando procurar avaliação
Desatenção e agitação têm várias causas, e boa parte delas responde a tratamento quando é identificada.
Procure avaliação se a dificuldade de atenção, a agitação ou a impulsividade aparecem em mais de um ambiente, como casa e escola ou casa e trabalho, se estão prejudicando o desempenho, se vêm desde a infância no caso do adulto, ou se estão afetando as relações e a autoestima.
Sono insuficiente ou de má qualidade, apneia do sono, ansiedade, depressão, problemas de tireoide, anemia e dificuldades de visão ou audição imitam a desatenção muito bem, sobretudo em criança. Investigar isso vem antes de qualquer suplemento, e muitas vezes resolve sem remédio nenhum.
Se você está diante dessa decisão e quer entender o quadro antes de escolher um caminho, me chame no WhatsApp.
Creatina ajuda no TDAH?
Não há como afirmar isso. Não existe ensaio clínico de suplementação de creatina no TDAH, nem publicado, nem registrado como estudo em andamento. O que existe são achados de imagem e modelos animais, ou seja, mecanismo, não tratamento.
Creatina melhora o foco e a concentração?
No TDAH, nada foi testado. Fora do transtorno, a evidência sobre cognição é mais modesta do que a fama sugere: na meta-análise que avaliou os domínios, cognição global e função executiva ficaram nulas. O detalhe está em creatina para memória.
Falta creatina no cérebro de quem tem TDAH?
O achado mais citado aponta na direção oposta. Num estudo de espectroscopia, a creatina estriatal estava mais alta em crianças com TDAH virgens de tratamento, e caiu depois do tratamento com estimulante.1 Isso contraria a ideia de que o cérebro com TDAH está sem esse combustível.
Creatina pode substituir o remédio do TDAH?
Não. A creatina não foi comparada a nenhum tratamento de TDAH, porque não existe ensaio dela nesse cenário. Ela não perdeu de nada, simplesmente nunca foi testada. Decisão sobre medicação é de quem acompanha o caso.
Criança com TDAH pode tomar creatina?
Essa decisão é do médico que acompanha. A questão prática mais importante não é o risco do suplemento, é o custo do tempo: enquanto a família testa alternativas sem evidência, a criança segue com a dificuldade na escola.
Por que tantos estudos mencionam creatina e TDAH?
Porque boa parte deles usa a creatina como denominador de uma razão, no pressuposto de que ela é estável, e não como tratamento.2 Um estudo em cérebro de rato mostrou que o sinal de creatina medido por espectroscopia correlaciona com a densidade do transportador de creatina,3 o que enfraquece esse pressuposto. Aparecer no estudo não é o mesmo que ter sido testada.
O que os estudos em animais mostram sobre creatina e hiperatividade?
Que remover o transportador causa hiperatividade, e não que dar creatina a resolva. Camundongos sem o transportador de creatina nos neurônios dopaminérgicos ficam hiperativos,4 e um modelo de rato de deficiência do transportador apresenta distúrbio de comportamento e metabolismo cerebral alterado.5 São modelos de falta, e não de suplementação.
Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer uso ou investigação deve ser avaliado com o seu médico.
Referências
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Carrey NJ, MacMaster FP, Gaudet L, Schmidt MH. Striatal Creatine and Glutamate/Glutamine in Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder. Journal of Child and Adolescent Psychopharmacology. 2007. https://doi.org/10.1089/cap.2006.0008 ↩ ↩2 ↩3
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Perlov E, Philipsen A, Hesslinger B, Buechert M, Ahrendts J, et al. Reduced cingulate glutamate/glutamine-to-creatine ratios in adult patients with attention deficit/hyperactivity disorder – A magnet resonance spectroscopy study. Journal of Psychiatric Research. 2007. https://doi.org/10.1016/j.jpsychires.2006.12.007 ↩ ↩2 ↩3
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Sartorius A, Lugenbiel P, Mahlstedt MM, Ende G. Proton magnetic resonance spectroscopic creatine correlates with creatine transporter protein density in rat brain. Journal of Neuroscience Methods. 2008. https://doi.org/10.1016/j.jneumeth.2008.04.028 ↩ ↩2
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Abdulla ZI, Pahlevani B, Lundgren KH, Pennington JL, et al. Deletion of the Creatine Transporter (Slc6a8) in Dopaminergic Neurons Leads to Hyperactivity in Mice. Journal of Molecular Neuroscience. 2020. https://doi.org/10.1007/s12031-019-01405-w ↩ ↩2
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Duran-Trio L, Fernandes-Pires G, Simicic D, Grosse J, et al. A new rat model of creatine transporter deficiency reveals behavioral disorder and altered brain metabolism. Scientific Reports. 2021. https://doi.org/10.1038/s41598-020-80824-x ↩ ↩2