Na CID-11, o TDAH recebeu o código 6A05 e o título oficial em português de Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.
O número, porém, é a parte menos interessante. O que aconteceu de fato foi uma troca de vizinhança. O TDAH saiu do grupo que ocupava na CID-10 e passou a integrar os transtornos do neurodesenvolvimento.1 Uma troca dessas altera o que a classificação afirma sobre a natureza do problema, e isso pesa mais do que qualquer numeração nova.
Um aviso antes de seguir: esse código ainda não aparece em documento brasileiro. O país codifica em CID-10, e a previsão de adoção da CID-11 nos sistemas de informação em saúde é janeiro de 2027.2
De onde o TDAH saiu
Na CID-10, ele ficava entre os transtornos hipercinéticos, vizinho dos transtornos de comportamento. Era essa a companhia.
Na CID-11, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade substituiu os transtornos hipercinéticos da CID-10 e foi movido para o grupo dos transtornos do neurodesenvolvimento.1
Por que a mudança foi feita
Os autores da revisão apontam três motivos, e é aqui que a leitura começa a render.
O TDAH tem início no período do desenvolvimento. Cursa com alterações características de funções intelectuais, motoras e sociais. E coocorre com frequência com outros transtornos do neurodesenvolvimento.1 Nos três aspectos, ele se parece mais com os vizinhos novos do que com os antigos.
Há ainda um quarto motivo, o mais direto de todos. A mudança corrige o que os autores chamam de fragilidade conceitual de enxergar o TDAH como algo mais próximo dos transtornos de comportamento disruptivo e dissocial, uma vez que pessoas com TDAH tipicamente não são disruptivas de forma intencional.1
Releia essa última frase, porque ela vem de um artigo assinado por integrantes do grupo de trabalho da OMS. A classificação internacional registrou, por escrito, que o comportamento do TDAH não é intencional. Para a mãe que ouviu na reunião da escola que o filho é malcriado, isso não é detalhe de nomenclatura.
O que continua igual
Nem tudo virou outra coisa.
A descrição por apresentações permanece. A CID-11 mantém qualificadores para o tipo predominantemente desatento, o predominantemente hiperativo-impulsivo e o combinado.1 Quem se acostumou aos termos “desatento” e “hiperativo” vai reencontrá-los na classificação nova.
A diferença é que o quadro passou a ser descrito ao longo de toda a vida.1 Isso conversa com um movimento maior da revisão: a CID-11 eliminou o agrupamento que a CID-10 reservava aos transtornos com início na infância e na adolescência e redistribuiu essas condições entre os grupos com os quais compartilham sintomas.1
Os tiques ficaram do lado, de propósito
Para quem convive com as duas coisas ao mesmo tempo, um detalhe de arranjo merece parágrafo próprio. Os transtornos de tique crônicos, incluindo a síndrome de Tourette, são classificados na CID-11 no capítulo das doenças do sistema nervoso, mas aparecem também listados no grupo dos transtornos do neurodesenvolvimento, justamente pela alta coocorrência com o TDAH e pelo início típico no período do desenvolvimento.1
É a arquitetura da CID-11 em funcionamento. Em vez de obrigar a escolher um único capítulo, ela deixa a condição aparecer onde quem procura espera encontrá-la. O texto sobre o que muda na CID-11 mostra como esse desenho opera.
O código oficial, e o que ele não é
Na versão em português da CID-11, o registro é este:
6A05Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade
Código e título conforme a International Classification of Diseases, Eleventh Revision (ICD-11), World Health Organization (WHO) 2019, versão em português, release 2026-01.3
Ele não é o código do seu laudo. Documentos emitidos no Brasil hoje trazem código da CID-10, até a adoção prevista para janeiro de 2027.2
Também não é o “equivalente” do código antigo. A OMS publica tabelas de correspondência entre as revisões, mas afirma que elas servem para comparar dados entre a CID-10 e a CID-11, não para converter dados de uma para a outra nem para gerar automaticamente um código da CID-11 a partir de um da CID-10.4
E ele não estabelece diagnóstico. A classificação nomeia e organiza. Quem avalia uma pessoa específica é quem examina.
O que fazer com essa informação hoje
Se o diagnóstico na sua família é recente, nada muda no papel por enquanto. Se você acompanha o assunto de perto, a mudança de grupo é hoje o argumento mais sólido contra a leitura do TDAH como problema de comportamento ou de educação.
Esta página descreve uma classificação. Não interpreta o laudo que você tem em mãos, nem substitui a avaliação de quem acompanha o caso.
Se o que você quer entender é o quadro por trás do código, me chame no WhatsApp.
Qual é o código do TDAH na CID-11?
É 6A05, e o título oficial em português é Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.3 Esse código ainda não aparece em documentos brasileiros: o país codifica em CID-10, e a previsão de adoção da CID-11 nos sistemas de informação em saúde é janeiro de 2027.2
O que mudou no TDAH da CID-10 para a CID-11?
A mudança principal é de classificação, não de nome. Na CID-10, o quadro ficava entre os transtornos hipercinéticos; na CID-11, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade substituiu aquele agrupamento e passou a integrar os transtornos do neurodesenvolvimento.1 Os motivos registrados são o início no período do desenvolvimento, as alterações características de funções intelectuais, motoras e sociais, e a coocorrência frequente com outros transtornos do neurodesenvolvimento.1
O TDAH é considerado um transtorno de comportamento?
Não na CID-11. A mudança de grupo corrige explicitamente o que os autores da revisão chamam de fragilidade conceitual de tratar o TDAH como algo mais próximo dos transtornos de comportamento disruptivo e dissocial, uma vez que pessoas com TDAH tipicamente não são disruptivas de forma intencional.1 A classificação passou a situá-lo entre os transtornos do neurodesenvolvimento.1
A CID-11 ainda separa TDAH desatento, hiperativo e combinado?
Sim. A CID-11 descreve o quadro com qualificadores para o tipo predominantemente desatento, o predominantemente hiperativo-impulsivo e o combinado.1 A diferença é que a descrição passou a valer ao longo de toda a vida, e não apenas na infância.1
Adulto pode ter TDAH na CID-11?
A classificação descreve o TDAH ao longo de toda a vida.1 Isso acompanha uma mudança maior da revisão: a CID-11 eliminou o agrupamento que a CID-10 reservava aos transtornos com início na infância e na adolescência, distribuindo essas condições entre os grupos com os quais compartilham sintomas.1 Se um adulto específico preenche o quadro, quem avalia é o profissional que examina.
O código 6A05 é o equivalente do código antigo de TDAH?
Não funciona assim. A OMS publica tabelas de correspondência entre a CID-10 e a CID-11, mas afirma que elas existem para comparar dados entre as revisões, não para converter dados de uma para a outra nem para gerar automaticamente um código da CID-11 a partir de um da CID-10.4 Mudanças no conhecimento médico e na estrutura de codificação limitam a equivalência direta.4
Tourette e TDAH ficam no mesmo grupo na CID-11?
Não exatamente, e a solução é interessante. Os transtornos de tique crônicos, incluindo a síndrome de Tourette, são classificados no capítulo das doenças do sistema nervoso, mas aparecem também listados no grupo dos transtornos do neurodesenvolvimento, pela alta coocorrência com o TDAH e pelo início típico no período do desenvolvimento.1
Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Ele descreve como a classificação internacional de doenças organiza o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, não interpreta laudos individuais e não estabelece diagnóstico.
Referências
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Reed GM, First MB, Kogan CS, Hyman SE, Gureje O, Gaebel W, et al. Innovations and changes in the ICD-11 classification of mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. World Psychiatry. 2019;18:3-19. https://doi.org/10.1002/wps.20611 ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8 ↩9 ↩10 ↩11 ↩12 ↩13 ↩14 ↩15 ↩16 ↩17
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Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Nota Técnica nº 91/2024-CGIAE/DAENT/SVSA/MS. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/notas-tecnicas/2024/nota-tecnica-no-91-2024-cgiae-daent-svsa-ms.pdf ↩ ↩2 ↩3
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World Health Organization. International Classification of Diseases, Eleventh Revision (ICD-11). Genebra: WHO; 2019. Versão em português, release 2026-01. Licença CC BY-ND 3.0 IGO. https://icd.who.int/browse/2026-01/mms/pt ↩ ↩2
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World Health Organization. ICD-11 implementation: frequently asked questions. Genebra: WHO. https://www.who.int/standards/classifications/frequently-asked-questions/icd-11-implementation ↩ ↩2 ↩3