Na CID-11, o autismo é 6A02. Transtorno do espectro autista é o título oficial em português.
Duas coisas antes de anotar esse código. A primeira: ele ainda não aparece nos documentos brasileiros, porque o país segue codificando em CID-10 e a previsão de adoção é janeiro de 2027.1 A segunda: ele não é a tradução do código antigo para o novo. A mudança de fundo não está na numeração. Está no modo como a classificação passou a enxergar o autismo.
O que mudou de verdade: o espectro virou uma categoria só
Essa é a mudança que interessa a quem tem um laudo em casa.
A CID-10 tratava o autismo infantil e a síndrome de Asperger como categorias separadas. A CID-11 incorporou as duas sob uma categoria única, o transtorno do espectro autista, caracterizada por déficits na comunicação social e por padrões de comportamento, interesses ou atividades restritos, repetitivos e inflexíveis.2
Pense em duas famílias. Uma recebeu um diagnóstico de Asperger anos atrás, a outra recebeu autismo infantil. Na CID-11, as duas estão dentro da mesma categoria. Não porque os quadros sejam idênticos, e sim porque a classificação passou a tratá-los como posições de um mesmo espectro, não como rótulos vizinhos.
O detalhe não sumiu, virou qualificador
Se tudo virou uma categoria só, como registrar que dois casos são muito diferentes entre si?
Por qualificadores. A CID-11 acrescenta marcadores para o grau de comprometimento do funcionamento intelectual e para as habilidades de linguagem funcional, de modo a capturar a variação de apresentações do espectro de maneira mais dimensional.2
É isso que separa, na prática, a pessoa que fala e trabalha da criança que não desenvolveu linguagem funcional. Não são dois nomes de diagnóstico. O nome é um só, e o que descreve a diferença vem registrado ao lado dele.
As diretrizes passaram a cobrir a vida inteira
A CID-10 mantinha um agrupamento próprio para os transtornos com início na infância e na adolescência. A CID-11 acabou com esse agrupamento e distribuiu essas condições entre os grupos com os quais elas compartilham sintomas, numa perspectiva de curso de vida.2
No autismo, isso apareceu na atualização das diretrizes, substancialmente revistas para refletir a literatura atual, incluindo as apresentações ao longo de toda a vida.2
Para o adulto que só recebeu o diagnóstico depois dos trinta, dos quarenta ou mais tarde, é uma correção importante. A classificação anterior tratava o assunto como coisa de infância.
”Retardo mental” saiu da classificação
Na CID-11, o autismo integra o grupo dos transtornos do neurodesenvolvimento, que reúne as condições com dificuldades significativas na aquisição e na execução de funções intelectuais, motoras, de linguagem ou sociais, com início no período do desenvolvimento.2
Esse grupo abarca o que a CID-10 chamava de retardo mental e de transtornos do desenvolvimento psicológico.2 E aqui uma mudança de nome merece registro. Retardo mental foi renomeado para transtornos do desenvolvimento intelectual, com a justificativa explícita de que o termo anterior era obsoleto e estigmatizante e não capturava adequadamente a variedade de formas e de causas associadas à condição.2
A definição continua ancorada em limitações significativas do funcionamento intelectual e do comportamento adaptativo, idealmente aferidas por instrumentos padronizados, normatizados e aplicados individualmente.2 Boa parte do mundo, porém, não tem acesso a esses instrumentos nem a profissionais treinados para aplicá-los. Reconhecendo isso, a CID-11 passou a oferecer tabelas de indicadores comportamentais, organizadas por faixa etária e por nível de gravidade.2
O código oficial, e o que ele não é
Na versão em português da CID-11, o registro é este:
6A02Transtorno do espectro autista
Código e título conforme a International Classification of Diseases, Eleventh Revision (ICD-11), World Health Organization (WHO) 2019, versão em português, release 2026-01.3
Três coisas que esse código não é.
Não é o código do seu laudo. Os documentos emitidos no Brasil hoje carregam código da CID-10, e assim seguem até a adoção prevista para janeiro de 2027.1 Se você procura o código que aparece no relatório da escola ou no pedido do plano, não é este.
Não é o “equivalente” do código antigo. A OMS publica tabelas de correspondência entre as revisões, mas afirma que elas servem para comparar dados entre a CID-10 e a CID-11, não para converter dados de uma para a outra nem para gerar automaticamente um código da CID-11 a partir de um da CID-10.4 Quem apresenta um de-para automático está afirmando mais do que a fonte sustenta. O texto sobre o que muda na CID-11 mostra por que a arquitetura nova impede essa conversão direta.
Não é critério diagnóstico. A classificação organiza e nomeia. Ela não diz se uma pessoa específica tem ou não tem a condição. Isso continua sendo avaliação clínica, feita por quem examina.
O que fazer com essa informação hoje
Se o diagnóstico da sua família veio como síndrome de Asperger, a nomenclatura internacional mudou, e a categoria que hoje descreve aquele quadro é a do espectro autista.2 Isso não invalida o que foi feito. Não muda quem a pessoa é. E não exige correr atrás de documento novo.
Se o diagnóstico é recente, a mudança tende a chegar aos poucos: primeiro na literatura e nos serviços, depois nos sistemas de informação.
Esta página descreve uma classificação. Ela não interpreta o laudo que você tem em mãos, e nada aqui substitui a avaliação de quem acompanha o caso.
Se o que você quer entender é o quadro por trás do código, e não o código, me chame no WhatsApp.
Qual é o código do autismo na CID-11?
É 6A02, e o título oficial em português é Transtorno do espectro autista.3 Você ainda não vai encontrá-lo em documentos brasileiros: o país segue codificando em CID-10, e a previsão para a CID-11 entrar nos sistemas de informação em saúde é janeiro de 2027.1
A síndrome de Asperger continua existindo na CID-11?
Não como categoria separada. O autismo infantil e a síndrome de Asperger da CID-10 foram incorporados, na CID-11, sob uma categoria única, o transtorno do espectro autista, definida por déficits na comunicação social e por padrões de comportamento, interesses ou atividades restritos, repetitivos e inflexíveis.2 A variação entre um caso e outro passou a ser registrada por qualificadores, entre eles o grau de comprometimento do funcionamento intelectual e as habilidades de linguagem funcional.2
O laudo do meu filho vai precisar ser refeito?
O laudo emitido no Brasil hoje usa a CID-10, e é ela que continua em uso no país até a adoção prevista para janeiro de 2027.1 Uma mudança de nomenclatura internacional não invalida uma avaliação clínica já feita. O que o documento significa no caso da sua família é conversa com quem o emitiu, e esta página não interpreta documentos individuais.
O código 6A02 é o equivalente do código antigo de autismo?
Não é assim que funciona. A OMS publica tabelas de correspondência entre a CID-10 e a CID-11, mas deixa claro que elas existem para comparar dados entre as revisões, não para converter dados de uma para a outra nem para gerar automaticamente um código da CID-11 a partir de um da CID-10.4 O conhecimento médico mudou, a estrutura de codificação também, e isso limita a equivalência direta entre as revisões.4
Adulto pode receber diagnóstico de autismo na CID-11?
A classificação passou a descrever o autismo ao longo de toda a vida. A CID-11 eliminou o agrupamento que a CID-10 reservava aos transtornos com início na infância e na adolescência, distribuiu essas condições entre os grupos com os quais compartilham sintomas, e as diretrizes do transtorno do espectro autista foram revistas para incluir as apresentações em todas as idades.2 Se um adulto específico preenche ou não o quadro, quem avalia é o profissional que examina.
Por que “retardo mental” não aparece mais?
Porque o termo foi substituído. O que a CID-10 chamava de retardo mental passou a se chamar, na CID-11, transtornos do desenvolvimento intelectual, com a justificativa explícita de que o termo anterior era obsoleto e estigmatizante e não capturava adequadamente a variedade de formas e de causas associadas à condição.2 A definição segue ancorada em limitações significativas do funcionamento intelectual e do comportamento adaptativo.2
Onde consultar o código 6A02 na fonte oficial?
No navegador da CID-11 no site da OMS, em icd.who.int, gratuito e com versão em português.3 Essa tradução é oficial, publicada pela própria OMS. E isso importa, porque a CID-11 circula sob uma licença que permite exibir código e título, mas não reescrevê-los por conta própria.
Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Ele descreve como a classificação internacional de doenças organiza o transtorno do espectro autista, não interpreta laudos individuais e não estabelece diagnóstico.
Referências
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Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Nota Técnica nº 91/2024-CGIAE/DAENT/SVSA/MS. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/notas-tecnicas/2024/nota-tecnica-no-91-2024-cgiae-daent-svsa-ms.pdf ↩ ↩2 ↩3 ↩4
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Reed GM, First MB, Kogan CS, Hyman SE, Gureje O, Gaebel W, et al. Innovations and changes in the ICD-11 classification of mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. World Psychiatry. 2019;18:3-19. https://doi.org/10.1002/wps.20611 ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8 ↩9 ↩10 ↩11 ↩12 ↩13 ↩14 ↩15
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World Health Organization. International Classification of Diseases, Eleventh Revision (ICD-11). Genebra: WHO; 2019. Versão em português, release 2026-01. Licença CC BY-ND 3.0 IGO. https://icd.who.int/browse/2026-01/mms/pt ↩ ↩2 ↩3
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World Health Organization. ICD-11 implementation: frequently asked questions. Genebra: WHO. https://www.who.int/standards/classifications/frequently-asked-questions/icd-11-implementation ↩ ↩2 ↩3