“Burnout virou doença”: essa foi a manchete de 2019. Ela correu o mundo, e está errada.
Que o burnout entrou na CID-11, é verdade. O código é QD85, o título oficial em português é Esgotamento.1 Só que ele entrou fora do território das doenças, e a imprensa pulou justamente essa parte.
Onde o QD85 está, exatamente
Um código da CID-11 nunca fica solto. Ele ocupa uma posição na hierarquia, e a posição revela o que a OMS entende daquilo que nomeou.
O QD85 é uma categoria do bloco “Problemas associados a emprego ou desemprego”, que por sua vez pertence ao capítulo 24 da classificação, “Fatores que influenciam o estado de saúde ou o contato com serviços de saúde”.1
Não é o capítulo dos transtornos mentais, nem o das doenças do sistema nervoso. É o capítulo dos fatores. E essa diferença não é cosmética.
O capítulo 24 é onde mora o que não é doença
Isso não é interpretação nossa. Basta olhar o que mais foi parar ali.
A reação aguda ao estresse, por exemplo, deixou de ser considerada transtorno mental na CID-11. Passou a ser entendida como reação normal a um estressor extremo, e por isso foi classificada nesse mesmo capítulo de fatores que influenciam o estado de saúde.2
A dificuldade de personalidade seguiu caminho parecido. Descreve traços marcantes que podem afetar o tratamento sem chegar à gravidade de um transtorno, não é considerada transtorno mental e aparece listada nesse capítulo.2
E o uso nocivo de substâncias em padrão de risco, que aponta risco antes de haver dano, igualmente não é classificado como transtorno mental e ficou nesse capítulo.2
Três exemplos, o mesmo capítulo: o lugar que a CID-11 reserva ao que merece registro e atenção clínica sem ser, em si, uma doença. Na CID-10, o correspondente é o capítulo XXI, dos códigos que começam com Z.3
O que a definição oficial diz
A definição publicada pela OMS é curta e merece leitura completa, porque quase todo texto sobre burnout cita apenas a primeira frase.
O esgotamento é descrito como uma síndrome conceituada como resultante de estresse crônico no ambiente de trabalho que não foi bem manejado. É caracterizado por três dimensões: sensação de falta de energia ou exaustão; aumento da distância mental em relação ao próprio trabalho, ou sentimentos negativos ou cínicos relacionados ao próprio trabalho; e uma sensação de ineficácia e falta de realização.1
Leia de novo. Não há ali uma pessoa doente. Há o resultado de um estresse que não foi bem manejado, com o ambiente onde isso aconteceu devidamente nomeado.
A trava que quase ninguém cita: só vale para trabalho
A definição oficial termina com uma frase que muda o uso do termo, e é justamente a frase que quase nunca sobrevive às citações.
O esgotamento se refere especificamente a fenômenos no contexto de trabalho e não deve ser utilizado na descrição de experiências em outras áreas da vida.1
Burnout de maternidade, burnout de cuidador, burnout de relacionamento, burnout da vida: nenhum desses usos encontra apoio na classificação. O cansaço existe. O sofrimento é real e pode precisar de ajuda. Mas o termo técnico não se aplica fora do trabalho, por decisão explícita de quem escreveu a definição.
O que o burnout não é
Talvez a informação mais útil desta página esteja nas exclusões, a lista do que a classificação manda considerar antes de usar aquele código.
O QD85 traz quatro exclusões: transtornos de ansiedade ou relacionados ao medo; transtornos do humor; transtorno de adaptação; e transtornos associados especificamente ao estresse.1
Isso é um alerta clínico. Exaustão, desinteresse pelo trabalho, sensação de incapacidade: um episódio depressivo se apresenta assim, e um transtorno de ansiedade também. A classificação está pedindo que essas condições sejam consideradas, e são elas que têm tratamento estabelecido.
Chamar de burnout o que é um quadro depressivo custa caro. A pessoa troca de emprego, tira férias, muda de área. E continua doente, porque o problema nunca esteve no trabalho.
O código oficial, e o que ele não é
Na versão em português da CID-11, o registro é este:
QD85Esgotamento
Código e título conforme a International Classification of Diseases, Eleventh Revision (ICD-11), World Health Organization (WHO) 2019, versão em português, release 2026-01.1
Ele ainda não aparece em documento brasileiro. O país segue codificando em CID-10, e a previsão de adoção da CID-11 nos sistemas de informação em saúde é janeiro de 2027.4 O texto sobre o que muda na CID-11 traz o calendário completo.
E o código não estabelece diagnóstico. A classificação nomeia e organiza. Quem avalia uma pessoa específica é quem a examina.
Quando isso deixa de ser assunto de RH
Cansaço ligado ao trabalho é comum e nem sempre exige consulta. Procure avaliação se o cansaço não melhora com descanso ou férias, se veio junto de perda de interesse por coisas fora do trabalho, se o sono desandou, se memória e concentração pioraram de um jeito que outras pessoas notaram, ou se apareceram sintomas físicos persistentes sem explicação.
Esses são justamente os pontos em que as exclusões da classificação passam a importar. E a separação entre um quadro e outro é clínica, feita por quem examina.
Esta página descreve uma classificação internacional. Ela não interpreta o documento que você tem em mãos, não orienta sobre afastamento do trabalho e não trata de direitos trabalhistas, que são assunto de quem cuida do seu caso e de quem entende de legislação.
Se você quer entender o que está por trás do seu cansaço, me chame no WhatsApp.
O burnout virou doença na CID-11?
Não. O burnout foi incluído na CID-11 com o código QD85 e o título oficial Esgotamento, mas como uma categoria do capítulo 24, “Fatores que influenciam o estado de saúde ou o contato com serviços de saúde”, e não de um capítulo de doenças.1 É ali que a classificação registra situações que merecem atenção clínica sem serem, em si, uma doença.
Qual é o código do burnout na CID-11?
É QD85, e o título oficial em português é Esgotamento.1 O código ainda não aparece em documentos brasileiros: o Brasil codifica em CID-10, e a adoção da CID-11 nos sistemas de informação em saúde está prevista para janeiro de 2027.4
Qual é a definição oficial de burnout da OMS?
A classificação descreve o esgotamento como uma síndrome conceituada como resultante de estresse crônico no ambiente de trabalho que não foi bem manejado, caracterizada por três dimensões: sensação de falta de energia ou exaustão; aumento da distância mental em relação ao próprio trabalho, ou sentimentos negativos ou cínicos relacionados a ele; e uma sensação de ineficácia e falta de realização.1
Existe burnout de maternidade ou de cuidador?
Não pela classificação. A definição oficial encerra dizendo que o esgotamento se refere especificamente a fenômenos no contexto de trabalho e não deve ser utilizado na descrição de experiências em outras áreas da vida.1 Isso não nega o cansaço de quem cuida de alguém nem o diminui: apenas registra que o termo técnico, na CID-11, tem escopo restrito ao trabalho.
O que a CID-11 manda excluir antes de falar em burnout?
Quatro grupos de condições: transtornos de ansiedade ou relacionados ao medo; transtornos do humor; transtorno de adaptação; e transtornos associados especificamente ao estresse.1 Exaustão, desinteresse pelo trabalho e sensação de incapacidade também aparecem nesses quadros, que têm tratamento estabelecido. Distinguir um do outro é avaliação clínica.
Dá para pedir atestado com o código do burnout?
Esta página não trata de afastamento, atestado nem direitos trabalhistas, que dependem da avaliação de quem acompanha o caso e de orientação jurídica. O que ela informa é que os documentos emitidos no Brasil hoje usam a CID-10, e não a CID-11, até a adoção prevista para janeiro de 2027.4
Onde consultar o QD85 na fonte oficial?
No navegador da CID-11 no site da OMS, em icd.who.int, gratuito e com versão em português publicada pela própria OMS.1 Consultar a fonte evita depender de textos de terceiros, que costumam citar só a primeira frase da definição e deixar de fora tanto a restrição ao contexto de trabalho quanto as exclusões.
Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Ele descreve como a classificação internacional de doenças registra o esgotamento, não interpreta documentos individuais, não estabelece diagnóstico e não constitui orientação trabalhista ou jurídica.
Referências
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World Health Organization. International Classification of Diseases, Eleventh Revision (ICD-11), QD85 Esgotamento. Genebra: WHO; 2019. Versão em português, release 2026-01. Licença CC BY-ND 3.0 IGO. https://icd.who.int/browse/2026-01/mms/pt ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8 ↩9 ↩10 ↩11 ↩12
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Reed GM, First MB, Kogan CS, Hyman SE, Gureje O, Gaebel W, et al. Innovations and changes in the ICD-11 classification of mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. World Psychiatry. 2019;18:3-19. https://doi.org/10.1002/wps.20611 ↩ ↩2 ↩3
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World Health Organization. International Statistical Classification of Diseases and Related Health Problems, 10th Revision (ICD-10), versão 2019, Capítulo XXI. Genebra: WHO. https://icd.who.int/browse10/2019/en ↩
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Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Nota Técnica nº 91/2024-CGIAE/DAENT/SVSA/MS. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/notas-tecnicas/2024/nota-tecnica-no-91-2024-cgiae-daent-svsa-ms.pdf ↩ ↩2 ↩3