A CID-11 não é a CID-10 com códigos novos. É outra arquitetura, e essa é justamente a parte que quase nenhum texto em português explica.
Ela também não está em uso no Brasil. A previsão oficial de início do uso nos sistemas de informação em saúde é janeiro de 2027.1 Até lá, o código que aparece no seu atestado, no seu laudo e na guia do convênio é da CID-10.
Esta página cuida das duas coisas: o que mudou de fato na classificação, e em que ponto do calendário o Brasil está.
A CID-11 já está valendo no Brasil?
No Brasil, não. Internacionalmente, sim. A confusão nasce exatamente aí, porque quatro datas diferentes circulam juntas como se fossem uma só.
- Maio de 2019. A 72ª Assembleia Mundial da Saúde adotou a CID-11.1
- 1º de janeiro de 2022. A classificação entrou em vigor.1
- Fevereiro de 2024. A versão em português ficou disponível no site da OMS.1 A tradução foi conduzida em parceria com a UFMG, com apoio da OPAS, e levou cerca de 30 meses.1,2
- Janeiro de 2027. A previsão de início do uso nos sistemas brasileiros.1
Quem lê a segunda data e para ali conclui que a CID-11 “já vale”. Vale para a OMS. Não vale para o sistema que emitiu o seu documento.
O calendário brasileiro já foi adiado uma vez
A data de agora não é a primeira. Em 2022, uma nota técnica do Ministério da Saúde havia estabelecido 1º de janeiro de 2025 como a data de implementação nos sistemas de informação da vigilância.3 Em dezembro de 2024, outra nota técnica atualizou o cronograma para janeiro de 2027, e o próprio documento explica por quê: o material da OMS nasce em inglês, e nada andava antes da tradução; a transição mexe na estrutura dos sistemas de informação, não só na lista de doenças; e é preciso capacitar quem codifica e preservar as séries históricas de dados.1
Registro isso porque a data já mudou uma vez e pode mudar de novo. Escrevi esta página em agosto de 2026, com as duas notas técnicas lidas na fonte oficial. A data a acompanhar é janeiro de 2027.
O Brasil não está atrasado em relação ao mundo
Parece atraso. Não é. Até o levantamento publicado em 2025 por autores do Ministério da Saúde e da OPAS, apenas 14 países e territórios haviam informado a adoção da CID-11.2 A Austrália prevê 2031. A Inglaterra não tem data definida. A Alemanha prevê a mortalidade até 2027 e ainda não marcou a morbidade. Nos Estados Unidos não existe cronograma oficial.2
Enquanto isso, a CID-10 usada no Brasil trocou de versão sem que quase ninguém notasse. Até 2024 o país usava exclusivamente a versão de 2008; a partir de 2025 passou à versão de 2019, que fica em uso por pelo menos dois anos antes da migração.1,2 A OMS, por sua vez, parou de manter a CID-10 em 2018.4
A CID-11 não é a CID-10 com códigos novos
Quem escreveu a descrição técnica da revisão é direto nesse ponto: a CID-11 não é a CID-10 com algumas categorias a mais.5
A CID-10 é uma lista. Uma árvore única, em que cada doença ocupa um lugar, e apenas um.
A CID-11 parte de outro ponto. Existe uma base chamada Foundation, com cerca de 80 mil entradas e outros 40 mil sinônimos, cada entrada descrita e ligada às demais por relações de significado.5 Isso não é uma lista. É uma rede.
Da rede se extrai a classificação que um país usa para contar mortes e internações. Ela se chama CID-11-MMS, de mortalidade e morbidade, e é a sucessora direta da CID-10.5 Esse processo de derivar uma lista única de uma rede tem até nome próprio: linearização.
E por que isso importa para quem não codifica nada? Porque três coisas práticas mudam junto.
Uma doença pode aparecer em mais de um capítulo
Na CID-10 era preciso escolher. O AVC envolve a circulação e produz doença neurológica, mas a classificação obrigava a colocá-lo num lugar só.
Na CID-11, ele fica no capítulo de neurologia e também aparece no capítulo cardiovascular, onde ficava na CID-10, com a indicação de que a localização principal dele agora é outra.5 Cada usuário encontra a doença onde espera encontrá-la.5
O código deixou de ser uma palavra e virou uma frase
Na CID-10, um diagnóstico costumava caber num código só. Na CID-11, você escolhe um código-núcleo e pode acrescentar códigos de extensão, formando um conjunto.
O exemplo é dos próprios autores da revisão: BA41.0, infarto agudo do miocárdio com supradesnível de ST, mais XA7RE3, parede anterior do coração.5 Na CID-10, a parede afetada vinha embutida no código do infarto. Na CID-11 ela virou o complemento, e o núcleo passou a separar os infartos pela presença ou ausência do supradesnível de ST.5
São mais de 20 mil códigos de extensão, cobrindo gravidade, lateralidade, agente causador, momento em que a condição foi reconhecida e outras dimensões.5 E quem quiser registrar pouco, registra pouco: um código-núcleo sozinho continua produzindo estatística comparável.
A classificação nasceu digital
A CID-10 é anterior à internet como a usamos, e isso transparece no formato. A CID-11 foi construída para funcionar dentro de sistemas: cada conceito tem um identificador único e imutável, existe uma ferramenta de busca online no lugar do índice em papel, e uma interface de programação permite que um sistema consulte a classificação direto na OMS.5
Foi essa estrutura que permitiu incorporar a covid-19 como conceito novo pouco depois do lançamento, sem esperar uma revisão inteira.5
Há capítulos novos também. O sono ganhou capítulo próprio, e as condições relacionadas à saúde sexual também; sangue e sistema imune, que dividiam um capítulo na CID-10, foram separados; e entrou um capítulo suplementar de medicina tradicional.5
Por que não existe “o código equivalente”
De todas as perguntas sobre a CID-11, a mais comum é de conversão: qual é o código novo do meu diagnóstico?
Tabelas de correspondência entre as duas revisões existem, publicadas pela própria OMS na aba Info do navegador da CID-11. E a OMS é explícita sobre o que elas não são: foram feitas para ajudar a comparar dados entre a CID-10 e a CID-11, não para converter dados de uma revisão para a outra, nem para gerar automaticamente um código CID-11 a partir de um CID-10. Mudanças no conhecimento médico e na estrutura de codificação limitam a equivalência direta entre as revisões.4
A arquitetura explica isso sozinha. Se uma doença pode aparecer em mais de um capítulo, e se o código é montado em núcleo mais extensão, uma categoria da CID-10 pode corresponder a mais de uma da CID-11. O contrário também.
Quando um texto disser “o equivalente de tal código é tal outro”, desconfie. A fonte que ele deveria estar citando afirma o contrário.
Se você veio procurar o código de um diagnóstico
Provavelmente é um destes três. Não é coincidência: as mudanças mais visíveis para o público estão no capítulo de transtornos mentais, comportamentais e do neurodesenvolvimento, que passou pela primeira revisão de fundo em quase 30 anos.6
Na versão em português da CID-11, os títulos oficiais são:
6A02Transtorno do espectro autista6A05Transtorno de déficit de atenção e hiperatividadeQD85Esgotamento
Nenhum dos três está em uso nos documentos brasileiros hoje. Nenhum é o “equivalente” de um código da CID-10, pelo motivo da seção anterior. E o título oficial é exatamente o que está escrito acima: a CID-11 é publicada sob uma licença que permite exibir código e título, não reescrevê-los.
Códigos e títulos conforme a International Classification of Diseases, Eleventh Revision (ICD-11), World Health Organization (WHO) 2019, versão em português, release 2026-01.7
- CID-10 e CID-11: seis diferenças de estrutura
- Autismo na CID-11: o código 6A02 e o que muda
- TDAH na CID-11: por que o 6A05 mudou de grupo
- Burnout na CID-11: o QD85 não é código de doença
O que muda para você hoje
Pouca coisa. E é bom que seja assim.
Enquanto os sistemas brasileiros rodam em CID-10, o código do seu atestado, do seu laudo e da guia do convênio é da CID-10. Um código da CID-11 que você encontre na internet hoje serve para entender como a nova classificação organiza aquele diagnóstico. Para preencher documento, não serve.
Esta página explica a classificação e o calendário dela. Não interpreta o documento que você tem em mãos, nem dá orientação jurídica: o que o código do seu atestado significa no seu caso é conversa com o médico que o emitiu.
Se o que você quer entender é o diagnóstico em si, e não o código que o nomeia, me chame no WhatsApp.
A CID-11 já está valendo no Brasil?
Não. Internacionalmente, a CID-11 entrou em vigor em 1º de janeiro de 2022, e a versão em português está publicada pela OMS desde fevereiro de 2024. O uso nos sistemas de informação em saúde brasileiros, porém, tem previsão de começar em janeiro de 2027.1 Até lá, o país trabalha com a CID-10, na versão de 2019.1,2 E a data já foi adiada uma vez: uma nota técnica de 2022 previa janeiro de 2025, e o cronograma foi atualizado em dezembro de 2024.1,3
Qual é o código da CID-11 para autismo, TDAH e burnout?
Na versão oficial em português da CID-11, 6A02 é Transtorno do espectro autista, 6A05 é Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e QD85 é Esgotamento.7 Dois avisos importam mais que os códigos: nenhum deles está em uso em documentos brasileiros hoje, porque o país ainda codifica em CID-10; e nenhum é o “equivalente” de um código da CID-10, já que a própria OMS afirma que as tabelas de correspondência entre as revisões servem para comparar dados, não para converter um código no outro.4
O código que aparece no meu atestado vai mudar?
Enquanto os sistemas brasileiros usarem a CID-10, os documentos emitidos no país carregam um código da CID-10. Quando a transição acontecer, os registros novos passarão a usar o formato da CID-11, que é diferente do antigo. O que o código do seu documento significa no seu caso é assunto do médico que o emitiu; o que ele implica em direitos é assunto de advogado. Esta página descreve a classificação, não o seu documento.
Existe uma tabela que converte um código da CID-10 para a CID-11?
Existem tabelas de correspondência publicadas pela OMS, disponíveis na aba Info do navegador da CID-11, mas elas não fazem conversão. Segundo a própria OMS, essas tabelas foram feitas para comparar dados entre as duas revisões, não para converter dados de uma para a outra nem para gerar automaticamente um código da CID-11 a partir de um da CID-10, porque mudanças no conhecimento médico e na estrutura de codificação limitam a equivalência direta.4 Qualquer site que apresente um “de para” automático está afirmando mais do que a fonte sustenta.
Onde consultar a CID-11 em português?
No navegador da CID-11 no site da OMS, em icd.who.int, com acesso gratuito. A versão em português está lá desde fevereiro de 2024, resultado de uma tradução conduzida em parceria com a UFMG e com apoio da OPAS, que durou cerca de 30 meses.1,2 E a revisão da tradução é contínua, porque a OMS altera o conteúdo em inglês ao longo do ano.1
A CID-10 vai deixar de existir?
A OMS parou de manter a CID-10 em 2018.4 Ela não desapareceu, porém: continua sendo a classificação em uso no Brasil, e o país inclusive atualizou a versão que usava, saindo da de 2008 para a de 2019 a partir de 2025, com previsão de mantê-la por pelo menos dois anos antes de migrar.1,2 A CID-10 segue sendo a classificação do dia a dia brasileiro até a virada prevista para janeiro de 2027.
Por que dizem que a CID-11 é uma mudança de estrutura, e não de códigos?
Porque a CID-10 é uma lista única, e a CID-11 começa por uma base de conhecimento com cerca de 80 mil entradas e outros 40 mil sinônimos, da qual se extrai a classificação estatística usada pelos países.5 Isso permite duas coisas que a CID-10 não permitia: uma mesma doença aparecer em mais de um capítulo, como o AVC, que fica na neurologia e também aparece no capítulo cardiovascular; e o código ser montado juntando um código-núcleo a códigos de extensão, em vez de um único código que precise dizer tudo.5
Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Ele descreve a classificação internacional de doenças e o cronograma oficial de adoção dela no Brasil, não interpreta documentos médicos individuais e não constitui orientação jurídica.
Referências
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Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Nota Técnica nº 91/2024-CGIAE/DAENT/SVSA/MS. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/notas-tecnicas/2024/nota-tecnica-no-91-2024-cgiae-daent-svsa-ms.pdf ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8 ↩9 ↩10 ↩11 ↩12 ↩13 ↩14
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Prata ACAC, Sousa-Carmo ST, Vilar MCH, Mendes YMMB, Di Nubila HBV, Rabello Neto DL, et al. Panorama da implementação da CID-11 no Brasil. Rev Panam Salud Publica. 2025;49:e55. https://doi.org/10.26633/RPSP.2025.55 ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7
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Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Nota Técnica nº 60/2022-CGIAE/DAENT/SVS/MS. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. Disponível na plataforma do Centro Colaborador da OMS para a Família de Classificações Internacionais no Brasil (CC BR-FIC). ↩ ↩2
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World Health Organization. ICD-11 implementation: frequently asked questions. Genebra: WHO. https://www.who.int/standards/classifications/frequently-asked-questions/icd-11-implementation ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5
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Harrison JE, Weber S, Jakob R, Chute CG. ICD-11: an international classification of diseases for the twenty-first century. BMC Med Inform Decis Mak. 2021;21(Suppl 6). https://doi.org/10.1186/s12911-021-01534-6 ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8 ↩9 ↩10 ↩11 ↩12 ↩13
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Reed GM, First MB, Kogan CS, Hyman SE, Gureje O, Gaebel W, et al. Innovations and changes in the ICD-11 classification of mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. World Psychiatry. 2019;18:3-19. https://doi.org/10.1002/wps.20611 ↩
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World Health Organization. International Classification of Diseases, Eleventh Revision (ICD-11). Genebra: WHO; 2019. Versão em português, release 2026-01. Licença CC BY-ND 3.0 IGO. https://icd.who.int/browse/2026-01/mms/pt ↩ ↩2