Quando a cabeça dói, o paracetamol costuma ser o primeiro comprimido a sair da gaveta. O que quase nunca chega junto com ele é um detalhe incômodo: a dose que a maioria das pessoas toma, de 500 a 650 mg, não mostrou diferença em relação ao placebo nos estudos de cefaleia do tipo tensional. Benefício demonstrado existe na dose de 1000 mg. E mesmo ela entrega menos do que a fama promete.1
Nada disso o transforma num remédio ruim. Transforma-o num remédio cujo efeito real é bem menor do que a reputação sugere, e cujo risco mora longe de onde a maioria costuma procurar.
O número desconfortável
São 23 ensaios randomizados e 8.079 participantes na revisão Cochrane dedicada ao paracetamol na cefaleia do tipo tensional episódica frequente. No desfecho que a Sociedade Internacional de Cefaleia trata como principal, estar sem dor alguma em 2 horas, o paracetamol 1000 mg contra placebo rendeu NNT 22 (IC95% 15 a 40). Oito estudos, 5.890 participantes, qualidade de evidência classificada como alta.1
Em português claro: de cada 22 pessoas que tomam 1 g numa crise moderada ou forte, uma fica sem dor em 2 horas por causa do remédio. Nos números absolutos, 24 em cada 100 ficam sem dor com o paracetamol; com o placebo, 19 em cada 100. Os próprios autores escolheram a expressão “small benefit” para resumir o achado.
O mesmo trabalho traz dois agravantes.
O primeiro: na primeira hora não há diferença em relação ao placebo (RR 1,2; IC95% 0,90–1,5). Quem toma esperando ação rápida está apostando em algo sem efeito demonstrável nos primeiros sessenta minutos.
O segundo: a dose que a maioria toma não passou no teste. Os poucos estudos com 500 a 650 mg não encontraram diferença significativa contra placebo. E aqui entra uma precisão que muda tudo: essa ausência repousa em evidência de qualidade baixa, carregada de incerteza. Trata-se de ausência de demonstração, não demonstração de ausência. A leitura honesta não é “está provado que meio grama não funciona”. É “não existe estudo bom o bastante para dizer que funciona”.
Os três desfechos, porque só o mais duro engana
Ficar só no NNT 22 pintaria um quadro pior do que o real. A mesma revisão traz três medidas:1
| Desfecho (paracetamol 1000 mg × placebo) | NNT (IC95%) | Qualidade |
|---|---|---|
| Sem dor em 2 h | 22 (15 a 40) | alta |
| Sem dor ou dor leve em 2 h | 10 (7,9 a 14) | alta |
| Evitar precisar de outro remédio de resgate | 7,7 (6,0 a 11) | moderada |
O desfecho do meio, “sem dor ou com dor leve”, é o que a maioria das pessoas considera útil na vida real. Nele, o paracetamol beneficia uma a cada dez.
Menos animador do que parece, e o motivo está no método dos próprios autores. Antes de olhar os dados, eles pré-especificaram que, nesse desfecho, um NNT de 8 ou mais já ultrapassaria o limite do que consideram clinicamente útil. Os valores observados ficaram acima desses limiares. Na discussão, o tom amolece: o resultado estaria na fronteira do que se costuma considerar útil. Pelo critério que eles mesmos fixaram de antemão, o 10 já cruzou a linha.
O fígado, com sobriedade
É aqui que a conversa costuma descarrilar, para os dois lados. O risco do paracetamol existe. Só que ele mora numa situação específica, não no comprimido isolado.
Na dose única de 1000 mg, a revisão não encontrou diferença de eventos adversos em relação ao placebo (RR 1,1; IC95% 0,94–1,3). Foram 11 estudos, 5.605 participantes, qualidade alta, nenhum evento grave relatado.1 Quem toma um grama de paracetamol numa crise de dor de cabeça não está fazendo nada temerário.
Uso repetido é outra conversa. Um panorama que reuniu 36 revisões sistemáticas encontrou, em administração repetida, elevação transitória de enzimas do fígado em pacientes com dor na coluna (RR 3,8; IC95% 1,9–7,4). Alteração de exame laboratorial, não insuficiência hepática. Ainda assim, foi o suficiente para os autores pedirem cautela no uso crônico e em idosos frágeis.2
O risco grave realmente começa acima de 4.000 mg em 24 horas. E o caminho mais comum até lá não é engolir comprimido demais de propósito. É somar produtos diferentes que têm a mesma substância dentro: o analgésico da dor de cabeça mais o antigripal, por exemplo. Ou combinar o remédio com três ou mais doses de álcool por dia. A informação vem do rótulo aprovado pela agência regulatória americana.
Nada disso é orientação de dose. É referência do que a literatura e o rótulo descrevem. Quanto tomar, com que frequência e se deve tomar precisa ser definido individualmente com seu médico, sobretudo se você tem doença no fígado, bebe com regularidade ou usa outros medicamentos.
O campeão do uso excessivo
A cefaleia por uso excessivo de medicação é o quadro em que o próprio analgésico passa a alimentar a dor. Para analgésicos simples como o paracetamol, o limiar é de 15 dias por mês por mais de três meses, mais permissivo que o de 10 dias que vale para triptanos, ergotamina, opioides e combinações.3
Esse limiar de 15 dias não é exclusividade do paracetamol: anti-inflamatórios e aspirina seguem a mesma régua. O que singulariza o paracetamol não é a regra. É o volume de consumo que ela cobre.
Junte limiar mais permissivo, venda livre e preço baixo, e o resultado se escreve sozinho. Numa casuística brasileira de pacientes com enxaqueca transformada em dor quase diária, os analgésicos simples eram os mais usados em excesso, em 75,2% dos pacientes, à frente dos compostos com cafeína (71,4%), da ergotamina (26,1%), dos triptanos (15,5%) e dos anti-inflamatórios (3,7%).4
Essa composição depende do que cada país vende sem receita. Num levantamento populacional norte-americano, os campeões foram triptanos, opioides e barbitúricos, e o uso excessivo foi menos frequente entre usuários de anti-inflamatórios.5 Para quem lê esta página, o padrão que interessa é o brasileiro. E no Brasil o analgésico simples lidera.
O que eu vejo no consultório
O paracetamol é o remédio que ninguém conta. Pergunto quantos dias por mês a pessoa toma alguma coisa para dor e ela responde pensando nos remédios que considera fortes. O paracetamol fica de fora da conta. Na cabeça dela, aquilo é fraquinho, é o que se dá para criança, é quase um chá. E é justamente por passar por inofensivo que ele é o que mais se acumula.
A soma é o ponto que eu mais preciso explicar. A mesma pessoa toma o comprimido para a dor de cabeça e, na mesma semana, um antigripal em pó porque está resfriada, sem saber que os dois têm a mesma substância dentro. Ela não está tomando duas coisas diferentes. Está tomando a mesma coisa duas vezes. Perguntar “o que você toma” não revela nada disso, porque a resposta vem em nomes comerciais, não em composições. Revela quando eu peço para ela abrir o armário e me mandar a foto das caixas.
E existe uma pergunta que quase ninguém responde de primeira: quantos dias no mês. As crises fortes ficam na memória; os dias em que a pessoa tomou um comprimido de manhã e tocou a vida somem por completo. Por isso peço um calendário simples, com um X nos dias em que houve dor e nos dias em que houve remédio. Quando o mês seguinte volta marcado, a conversa muda sozinha, porque o número costuma surpreender a própria pessoa.
Cada analgésico tem a sua própria história
O que está nesta página vale para o paracetamol, e só para ele. A dipirona, o ibuprofeno e a nimesulida têm perfis bem diferentes entre si, e cada um tem avaliação própria aqui no site.
Quando procurar o neurologista
- Dor de cabeça súbita e muito intensa, com pico em segundos ou poucos minutos. Atendimento imediato.
- Dor com febre, rigidez de nuca, confusão, dificuldade para falar, perda de força ou alteração visual persistente. Atendimento imediato.
- Analgésico em 15 dias ou mais por mês, ou a impressão de que você não consegue mais passar a semana sem tomar alguma coisa.
- Mudança no padrão da sua dor habitual: mais frequente, mais forte ou diferente.
- Primeira dor de cabeça forte depois dos 50 anos.
- Sinais de problema no fígado durante uso prolongado: pele ou olhos amarelados, urina muito escura, náusea persistente, dor no lado direito da barriga.
Se você não sabe dizer quantos dias por mês toma analgésico, esse já é um bom motivo para conversar. Fale comigo pelo WhatsApp e a gente organiza a investigação.
Paracetamol funciona para dor de cabeça?
Funciona, mas com efeito pequeno e medido. Na cefaleia do tipo tensional, a revisão Cochrane com 23 ensaios e 8.079 participantes encontrou NNT 22 para o paracetamol 1000 mg no desfecho de estar sem dor em 2 horas, e os próprios autores descrevem o resultado como um benefício pequeno.1 No desfecho de ficar sem dor ou com dor leve, o NNT é 10.
Paracetamol 500 mg resolve dor de cabeça?
Nos estudos com doses de 500 a 650 mg não houve diferença significativa em relação ao placebo. Essa conclusão, porém, vem de evidência de qualidade baixa, com incerteza grande.1 Isso significa ausência de demonstração, e não demonstração de ausência: não há estudo bom o bastante para afirmar que essa dose funciona, mas também não há estudo bom o bastante para afirmar que ela não funciona.
Quanto tempo o paracetamol leva para agir na dor de cabeça?
Os estudos medem o resultado em duas horas. Na primeira hora, a revisão não encontrou diferença em relação ao placebo.1 Quem toma esperando alívio nos primeiros sessenta minutos está contando com algo que a evidência não demonstra.
Paracetamol faz mal para o fígado?
Na dose única de 1000 mg, a revisão Cochrane não encontrou diferença de eventos adversos em relação ao placebo, em 11 estudos com 5.605 participantes e evidência de alta qualidade.1 O risco grave de lesão hepática está associado a doses acima de 4.000 mg em 24 horas, ao uso junto com três ou mais doses de álcool por dia, e principalmente à soma de produtos diferentes que contêm a mesma substância, como um analgésico e um antigripal tomados no mesmo dia. Em uso repetido, um panorama de 36 revisões encontrou elevação transitória de enzimas hepáticas, que é alteração de exame e não insuficiência do órgão.2
Quantos dias por mês posso tomar paracetamol para dor de cabeça?
O limiar usado para definir cefaleia por uso excessivo de medicação com analgésicos simples é de 15 dias por mês por mais de três meses.3 Chegar perto disso é sinal de que o problema não é qual comprimido tomar, e sim por que a dor está aparecendo tantas vezes. Quem se reconhece nesse padrão deveria levar a contagem ao médico, de preferência anotada num calendário.
Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer uso ou investigação deve ser avaliado com o seu médico.
Referências
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Stephens G, Derry S, Moore RA. Paracetamol (acetaminophen) for acute treatment of episodic tension-type headache in adults. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2016. https://doi.org/10.1002/14651858.CD011889.pub2 ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8
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Abdel Shaheed C, Ferreira GE, Dmitritchenko A, McLachlan AJ, Day RO, Saragiotto B, et al. The efficacy and safety of paracetamol for pain relief: an overview of systematic reviews. Medical Journal of Australia. 2021. https://doi.org/10.5694/mja2.50992 ↩ ↩2
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Gosalia H, Moreno-Ajona D, Goadsby PJ. Medication-overuse headache: a narrative review. The Journal of Headache and Pain. 2024. https://doi.org/10.1186/s10194-024-01755-w ↩ ↩2
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Krymchantowski AV. Overuse of symptomatic medications among chronic (transformed) migraine patients: profile of drug consumption. Arquivos de Neuro-Psiquiatria. 2003. https://doi.org/10.1590/s0004-282x2003000100007 ↩
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Ashina S, Terwindt GM, Steiner TJ, Lee MJ, Porreca F, Tassorelli C, et al. Medication overuse headache. Nature Reviews Disease Primers. 2023. https://doi.org/10.1038/s41572-022-00415-0 ↩





