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Cetoprofeno para dor de cabeça: a evidência que ele tem sozinho

Na cefaleia tensional o cetoprofeno não superou o paracetamol e produziu mais efeitos adversos. Na enxaqueca há um bom ensaio. E a formulação prolongada brasileira não é a mesma da americana.

Comprimido branco alongado em pé sobre a borda numa superfície clara, mostrando a espessura de perfil, com uma ampola de vidro deitada e um pano verde-escuro desfocados ao fundo

O cetoprofeno vive de reputação emprestada. Por pertencer à mesma classe de anti-inflamatórios mais estudados, assume-se que herde o desempenho deles. A evidência que ele tem em nome próprio conta outra história. Na cefaleia do tipo tensional, o cetoprofeno 25 mg não foi diferente do paracetamol 1000 mg em nenhum desfecho de eficácia, e produziu mais eventos adversos.1

Na crise de enxaqueca, por outro lado, ele carrega um dos ensaios mais bem desenhados de toda essa literatura.2 Os dois fatos são verdadeiros ao mesmo tempo. O que os separa não é o remédio: é a dose, a apresentação e o tipo de dor.

Cefaleia tensional: um resultado desconfortável

A revisão Cochrane sobre o cetoprofeno na cefaleia tensional episódica só encontrou informação aproveitável para a dose de 25 mg. O NNT para estar sem dor em 2 horas contra placebo foi 9,0, com intervalo de confiança de 4,8 a 72, a partir de dois estudos com 272 participantes e evidência de baixa qualidade.1

Esse intervalo merece uma pausa. Quando o limite superior chega a 72, os dados são compatíveis com um efeito praticamente inútil. Isso não equivale a dizer que o remédio não funciona; equivale a dizer que a estimativa é tão imprecisa que quase não informa.

A mesma revisão traz dois achados que pesam mais que o NNT. Contra o paracetamol 1000 mg, o cetoprofeno 25 mg não mostrou diferença em nenhum desfecho de eficácia (RR 1,3; IC95% 0,9–2,0 para dor zero em 2 horas). E produziu mais eventos adversos que o paracetamol, com NNH 17 (IC95% 8,9–130), ainda que nenhum evento adverso grave tenha sido relatado.

NNH é o inverso do NNT: o número de pessoas tratadas para que uma sofra um efeito indesejado a mais. Um remédio que não supera o comparador em eficácia e o supera em efeitos adversos fica difícil de justificar naquele cenário específico.

Uma análise metodológica independente chegou a um NNT parecido para o cetoprofeno 25 mg, 9,8, com intervalo ainda mais largo, de 5,1 a 146.3

O sinal de tolerabilidade reaparece quando os analgésicos simples são postos lado a lado numa comparação em rede. Nesse trabalho, o cetoprofeno foi o único cujo índice de eventos adversos superou o do placebo (RR 1,77; ICr95% 1,18–2,71), fechando em último lugar no ranking de tolerabilidade.4

Na enxaqueca, o quadro é outro

É aqui que o cetoprofeno tem seu melhor dado, e ele é bom. Um ensaio multicêntrico, duplo-cego, cruzado e controlado por placebo avaliou 235 pacientes na análise por intenção de tratar e 838 crises em 2 horas. Testou o cetoprofeno oral de liberação dupla nas doses de 75 e 150 mg contra placebo, com a zolmitriptana 2,5 mg como comparador ativo.2

Alívio da dor em 2 horas: 62,6% com 75 mg, 61,6% com 150 mg e 66,8% com a zolmitriptana, contra 27,8% com placebo.

É um ensaio grande, bem conduzido, com resultado robusto contra placebo. O que ele não é, sozinho, é base para montar uma hierarquia entre fármacos. Um dado de contexto ajuda a calibrar: a meta-análise em rede de referência sobre tratamento agudo da enxaqueca reúne 17 intervenções ativas, e o cetoprofeno simplesmente não aparece como nó da rede.

Coerente com isso, a avaliação de evidência da American Headache Society classifica o ibuprofeno como Nível A, eficaz, e o cetoprofeno 100 mg como Nível B, provavelmente eficaz.5

Brasil e Estados Unidos: a divergência de bula

Quase ninguém conhece este ponto, e ele tem consequência prática.

No Brasil, a indicação de enxaqueca, com ou sem aura, está na bula do comprimido de liberação prolongada de 150 mg, tanto no medicamento de referência quanto nos genéricos verificados. A bula do medicamento de referência dedica uma seção própria à posologia no tratamento da enxaqueca, com esquema detalhado, intervalo mínimo entre doses e teto diário. A cápsula dura de 50 mg, por outro lado, não lista enxaqueca entre as indicações da bula brasileira.

Nos Estados Unidos, o rótulo da apresentação de liberação prolongada indica apenas artrite reumatoide e osteoartrite, e afirma literalmente que “Ketoprofen extended-release capsules are not recommended for treatment of acute pain because of its extended-release characteristics.” Cefaleia e enxaqueca não constam.

Parte dessa divergência tem explicação farmacotécnica, e é importante não achatá-la. As duas apresentações não são a mesma formulação sob rótulos diferentes. A prolongada brasileira é bicamada: embute 75 mg de liberação rápida somados a 75 mg gastrorresistentes de liberação prolongada, e foi exatamente esse desenho de liberação dupla que o ensaio de enxaqueca citado acima testou. A norte-americana é de liberação prolongada pura, em dose diária única, e é sobre ela que recai a recomendação contra o uso em dor aguda.

O contraste, ainda assim, é real: o mesmo princípio ativo, em produtos ambos chamados de liberação prolongada, tem indicação para crise de enxaqueca de um lado e recomendação explícita contra o uso em dor aguda do outro.

Para quem lê isto, a consequência é direta. O que se espera do cetoprofeno depende de qual apresentação está na caixa, e essa informação não está no nome da substância. Nada aqui é orientação de dose ou de escolha de produto: qual apresentação faz sentido, se é que alguma faz, precisa ser definido individualmente com seu médico.

O que eu vejo no consultório

O cetoprofeno costuma entrar na vida da pessoa pela injeção, não pelo comprimido. Ela chegou ao pronto-socorro numa crise forte, recebeu cetoprofeno na veia ou no músculo, melhorou, e saiu de lá com uma conclusão razoável e errada: aquele remédio funciona para mim. Na crise seguinte, compra a caixa na farmácia, toma o comprimido e espera o mesmo resultado. Não é a mesma coisa. A via é outra, a apresentação é outra, e quase sempre a crise também foi outra, porque no pronto-socorro ela recebeu mais de uma medicação junto e raramente sabe dizer qual delas resolveu.

Essa é a confusão que eu mais desfaço nesse assunto. Quando peço para a pessoa reconstruir o que aconteceu naquele atendimento, quase sempre aparece uma associação: o anti-inflamatório na veia, mais um antiemético, às vezes um corticoide. O crédito ficou inteiro com um dos três.

A apresentação, por sua vez, confunde até quem lê a caixa. O cetoprofeno tem formulações bem diferentes entre si, e elas não são intercambiáveis, por mais que o nome da substância seja o mesmo. Vejo gente tomando uma apresentação convencida de que está tomando outra, e isso muda tanto a velocidade quanto o que a bula daquele produto de fato prevê. Quando alguém me diz que “já usou cetoprofeno”, minha primeira pergunta é qual, e a segunda é de que jeito.

Cada analgésico tem a sua própria história

O que está nesta página vale para o cetoprofeno, e só para ele. A dipirona, o ibuprofeno, o paracetamol e a nimesulida têm perfis de evidência bem diferentes, e cada um tem avaliação própria aqui no site.

Quando procurar o neurologista

  • Dor de cabeça súbita e muito intensa, com pico em segundos ou poucos minutos. Atendimento imediato.
  • Dor com febre, rigidez de nuca, confusão, dificuldade para falar, perda de força ou alteração visual persistente. Atendimento imediato.
  • Crises que só cedem em pronto-socorro, com medicação injetável, de forma repetida.
  • Anti-inflamatório em muitos dias do mês.
  • Mudança no padrão da sua dor habitual.
  • Primeira dor de cabeça forte depois dos 50 anos.

Se as suas crises têm levado você ao pronto-socorro com alguma frequência, isso por si só merece investigação. Fale comigo pelo WhatsApp para a gente entender o caso.

Cetoprofeno serve para dor de cabeça?

Depende do tipo de dor e da apresentação. Na crise de enxaqueca, um ensaio com 235 pacientes e 838 crises mostrou alívio em 2 horas de 62,6% com a formulação oral de liberação dupla de 75 mg, contra 27,8% com placebo.2 Na cefaleia do tipo tensional, o quadro é bem mais fraco: na dose de 25 mg, o cetoprofeno não mostrou diferença em relação ao paracetamol 1000 mg em nenhum desfecho de eficácia.1

Cetoprofeno é mais forte que ibuprofeno?

Não é assim que a evidência está organizada. A avaliação da American Headache Society classifica o ibuprofeno como Nível A, eficaz, e o cetoprofeno 100 mg como Nível B, provavelmente eficaz.5 O cetoprofeno tampouco aparece como nó da meta-análise em rede de referência sobre tratamento agudo da enxaqueca, que compara 17 intervenções. “Mais forte” costuma ser uma impressão que nasce da injeção usada no pronto-socorro, que é outra via e outro contexto.

Por que o cetoprofeno indica enxaqueca na bula brasileira e não na americana?

Porque não são a mesma formulação, ainda que as duas se chamem de liberação prolongada. A apresentação brasileira de 150 mg é bicamada: tem 75 mg de liberação rápida somados a 75 mg de liberação prolongada, e foi esse desenho que o ensaio de enxaqueca testou. A americana é de liberação prolongada pura, em dose diária única, e o rótulo diz textualmente que ela não é recomendada para dor aguda justamente por essa característica. A cápsula brasileira de 50 mg, por sua vez, não lista enxaqueca entre as indicações.

Cetoprofeno causa mais efeitos colaterais?

Na comparação direta com o paracetamol na cefaleia tensional, sim: o cetoprofeno 25 mg produziu mais eventos adversos, com NNH 17, embora nenhum evento grave tenha sido relatado.1 E numa comparação em rede entre analgésicos simples, ele foi o único cujo índice de eventos adversos superou o do placebo, fechando em último lugar no ranking de tolerabilidade.4

Tomei cetoprofeno injetável no pronto-socorro e melhorou. O comprimido faz o mesmo?

Não necessariamente, e essa confusão é comum. A via injetável e o comprimido se comportam de maneiras diferentes. Num atendimento de urgência, raramente se usa uma medicação só: costuma haver associação com antiemético ou corticoide, e fica difícil saber a qual delas o alívio deve ser creditado. Qual apresentação faz sentido para você precisa ser definido individualmente com seu médico.


Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer uso ou investigação deve ser avaliado com o seu médico.

Referências

  1. Veys L, Derry S, Moore RA. Ketoprofen for episodic tension-type headache in adults. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2016. https://doi.org/10.1002/14651858.CD012190.pub2 2 3 4

  2. Dib M, Massiou H, Weber M, Henry P, Garcia-Acosta S, Bousser MG. Efficacy of oral ketoprofen in acute migraine. Neurology. 2002. https://doi.org/10.1212/WNL.58.11.1660 2 3

  3. Moore AR, Derry S, Wiffen PJ, Straube S, Bendtsen L. Evidence for efficacy of acute treatment of episodic tension-type headache: Methodological critique of randomised trials for oral treatments. Pain. 2014. https://doi.org/10.1016/j.pain.2014.08.009

  4. Xie R, Li J, Jing Y, Tian J, Li H, Cai Y, et al. Efficacy and safety of simple analgesics for acute treatment of episodic tension-type headache in adults: a network meta-analysis. Annals of Medicine. 2024. https://doi.org/10.1080/07853890.2024.2357235 2

  5. Marmura MJ, Silberstein SD, Schwedt TJ. The Acute Treatment of Migraine in Adults: The American Headache Society Evidence Assessment of Migraine Pharmacotherapies. Headache: The Journal of Head and Face Pain. 2015. https://doi.org/10.1111/head.12499 2

Dr. Jonas Bernardes

Dr. Jonas Bernardes

Neurologia Clínica · CRM-SP 150216 · RQE 108175

Neurologista em Jaú/SP, dedicado ao diagnóstico e tratamento das doenças do sistema nervoso. Escreve para traduzir o que a neurologia sabe em decisões práticas de saúde. Atende presencialmente e por teleconsulta.

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