Dr. Jonas BernardesNeurologista Agendar consulta

Dipirona para dor de cabeça: o que a evidência mostra

Quase toda a evidência da dipirona na crise de enxaqueca foi produzida com o remédio na veia, no pronto-socorro. Veja o que isso muda para o comprimido tomado em casa.

Dois comprimidos brancos redondos sobre uma superfície verde-escura, com uma ampola de vidro deitada e um frasco pequeno sem rótulo desfocados logo atrás

Quando a cabeça dói, o brasileiro toma dipirona. É quase um reflexo. Mas a evidência randomizada sobre essa escolha, na crise de enxaqueca, foi produzida quase inteira com o remédio na veia, dentro do pronto-socorro. Para o comprimido tomado em casa, na primeira pontada, a revisão sistemática que mapeou o assunto não encontrou nenhum ensaio em enxaqueca.1

Isso não quer dizer que o comprimido não funcione. Quer dizer que a base científica dele é uma, e a da ampola no pronto-socorro é outra. Na prática, as duas formas costumam ser tratadas como se fossem a mesma coisa.

A evidência muda conforme a via

A revisão Cochrane de 2007 reuniu quatro ensaios, 636 adultos no total, e resumiu o achado sem rodeios: “One study each evaluated oral and intravenous dipyrone for episodic tension-type headache; two trials evaluated intravenous dipyrone for migraine, but only one of these described pain outcomes.”1

Traduzindo: a dipirona oral só apareceu nos estudos de cefaleia do tipo tensional. Na enxaqueca, só a via injetável chegou à revisão, e dos dois estudos incluídos apenas um relatou desfecho de dor. Nenhum ensaio pediátrico foi identificado.

Dizer que “ninguém nunca testou”, porém, seria falso. Existe um ensaio de 2004 sobre dipirona oral na crise de enxaqueca que ficou fora da revisão. Ele não é recuperável hoje nas grandes bases de literatura médica, e por isso nenhum número dele entra neste texto. O estudo existe, mas não pode ser conferido.

Em 2014 essa revisão Cochrane foi retirada, e a história costuma ser mal contada. A retirada foi administrativa: os autores originais não tinham como atualizá-la, e o grupo editorial decidiu dividir o assunto em duas revisões separadas, uma para enxaqueca e outra para dor tensional. O próprio documento oficial avisa que a revisão “is out of date although it is correct as of the date of publication”. Não houve erro nem invalidação dos resultados originais. A revisão nova, registrada em 2024, ainda é apenas um protocolo. Uma década depois, o uso da dipirona na enxaqueca segue sem uma revisão Cochrane concluída.2

Na veia, a evidência é outra

No uso intravenoso a situação se inverte. Dois ensaios randomizados brasileiros, controlados por placebo, testaram a dipirona na veia durante a crise de enxaqueca. O primeiro avaliou 134 pacientes, com crises com e sem aura.3 O segundo mostrou melhora significativa da dor aos 30 minutos e dos sintomas associados aos 60 minutos.4

Há ainda uma meta-análise em rede que não encontrou diferença entre o metamizol e os triptanos no tratamento da enxaqueca.5 É o argumento mais citado a favor da dipirona. Mas ele vem com duas ressalvas, feitas pelos próprios autores. A primeira: dos 209 estudos avaliados, apenas seis (3,0%) tinham informação suficiente para receber classificação de baixo risco de viés em todas as categorias, e outros 146 ficaram com risco incerto por falta de dados. A segunda: dois dos três autores declaram vínculo com a fabricante da dipirona de referência. Nada disso anula o resultado. Indica apenas que a equivalência aos triptanos é uma hipótese razoável, não um empate demonstrado.

O contraponto mais importante raramente aparece nessas discussões. Num estudo brasileiro simples-cego com 30 pacientes, a dipirona intravenosa foi inferior ao clonixinato de lisina intravenoso: aos 90 minutos, 33% dos pacientes estavam sem dor com a dipirona, contra 86,7% com o clonixinato.6 O estudo é pequeno e pede leitura cautelosa. Ainda assim, ele separa duas ideias que costumam ser confundidas. Dizer que um remédio “funciona” não é o mesmo que dizer que ele “é a melhor opção disponível”.

O que acontece no pronto-socorro brasileiro

Um levantamento retrospectivo em dois centros brasileiros avaliou 84 pacientes atendidos por enxaqueca no pronto-socorro. A dipirona intravenosa entrou em 89,3% dos casos, mais que os anti-inflamatórios e os opioides. O tempo médio de permanência foi de 8,2 horas. E apenas 23 pessoas, 27,4% do total, receberam alta com mais de 50% de alívio da dor.7

Junte os três números e a contradição clínica aparece. O remédio mais usado é o mesmo que deixa a maioria dos pacientes saindo do hospital ainda com dor, depois de mais de oito horas de observação.

Os consensos brasileiros de cefaleia recomendam a dipirona para as crises de menor intensidade: “crise fraca” no documento de 2000, intensidade “usually mild to moderate” no de 2016.8,9 Essa recomendação vem de sociedades científicas, não do resultado direto de ensaios clínicos. E a restrição à “crise fraca” se perde no caminho entre a diretriz e a prescrição do plantão.

Na cefaleia tensional, o comprimido tem estudo

Quando o tipo de dor é outro, o cenário muda. O maior ensaio já feito sobre o tema testou o metamizol oral, em doses de 0,5 g e 1 g, contra placebo em 417 participantes com cefaleia tensional episódica moderada, num desenho duplo-cego e multicêntrico. As duas doses superaram o placebo.10

Dizer que “a dipirona não tem evidência científica”, portanto, também é falso. Na cefaleia tensional, o comprimido foi testado e venceu o placebo. O problema é que a dor que leva a maioria das pessoas ao pronto-socorro, e ao Google, costuma ser a enxaqueca. E esse estudo não serve para ela.

A agranulocitose, com a magnitude certa

Todo debate sobre a dipirona no mundo esbarra na agranulocitose, uma queda grave nas células de defesa do sangue. O tema costuma receber dois tratamentos errados: perigo iminente ou puro mito. Os números ajudam a esclarecer os fatos.

O estudo internacional de referência, publicado em 1986, comparou 221 casos de agranulocitose com 1.425 pacientes-controle nos hospitais. Em Ulm, Berlim Ocidental e Barcelona, a razão de taxas para a dipirona foi de 23,7, com excesso de risco estimado em 1,1 por milhão de pessoas expostas numa janela de uma semana. No mesmo estudo, porém, a razão de taxas em Israel e em Budapeste foi de 0,8, sem evidência de excesso de risco.11 Essa variação geográfica está no artigo original. Nas discussões informais, quase nunca aparece.

A vigilância prospectiva de Berlim, que operou em 51 hospitais da cidade entre 2000 e 2010, atribuiu ao metamizol 26 de 88 agranulocitoses validadas, uma incidência de 0,96 caso por milhão de habitantes ao ano. Em 17 desses casos os neutrófilos, as células de defesa, caíram abaixo de 0,1 × 10⁹/L, e três evoluíram com sepse.12

O risco relativo é alto. O risco absoluto é muito baixo. As duas frases precisam andar juntas, porque cada uma delas, sozinha, engana. E um detalhe desse estudo alemão interessa a quem lê esta página: entre os casos ocorridos fora do hospital, a dor de cabeça foi o motivo mais frequente de uso do remédio, com tempo mediano de tratamento de seis dias.

Sobre a dose

Nenhum estudo avaliou doses diferentes de dipirona na crise de enxaqueca, e nenhum ensaio fez essa comparação direta. Os números usados na prática saem de outras situações clínicas: 0,5 g e 1 g na cefaleia tensional episódica, 1 g por via intravenosa para a enxaqueca.3,10

A consequência é direta. Afirmar que “1 g é a dose correta para enxaqueca” é deduzir de outra doença e de outra via de administração. A dose adequada depende do peso, da função dos rins e do fígado, das interações com outros remédios e da frequência das crises. Essa decisão cabe ao seu médico e não deve ser tomada por conta própria.

O que eu vejo no consultório

Praticamente todo paciente que me procura por dor de cabeça já usou dipirona. Quase nenhum conta isso de saída. Quando pergunto o que a pessoa já tomou, ela lista os remédios de receita, e a dipirona só entra na conversa quando eu pergunto por ela, pelo nome. Para o paciente, aquilo não é tratamento. Não entra na conta do que se toma, entra na conta do que se faz quando a cabeça dói.

Eu prescrevo bastante dipirona, e o motivo é pragmático: muitas vezes a escolha se dá pelo que ela não causa de efeito adverso. Se a pessoa tem pressão alta, úlcera, função renal reduzida ou usa antiagregante plaquetário, os anti-inflamatórios saem de cena e a dipirona entra no lugar. Nesses cenários ela não venceu nenhuma comparação de eficácia. Ela é a que sobra quando as outras precisam sair.

O que mais me preocupa no consultório é silencioso. Vejo com frequência gente tomando dipirona cinco a sete dias por semana, há anos. A dor que era pontual vira diária, e de dentro é difícil enxergar a ordem dos fatos: a dor aumentou, então o analgésico aumentou junto. Enquanto o analgésico de todo dia continua, os tratamentos preventivos que eu tento tendem a falhar. E interromper exige planejamento, porque a pessoa precisa saber, antes, que a dor vai piorar por uma a duas semanas até vir o alívio real.

Cada analgésico tem a sua própria história

Tudo o que está nesta página vale para a dipirona, e só para ela. Os outros analgésicos de farmácia têm níveis diferentes de eficácia e de segurança, e cada um deles tem avaliação específica em outras páginas deste site.

Quando procurar o neurologista

Uma dor de cabeça que melhora com o analgésico não é, por si só, sinal de alarme. Alguns cenários, porém, mudam de figura e exigem avaliação médica especializada:

  • Dor de cabeça súbita e muito forte, que atinge o pico em questão de segundos ou poucos minutos. Esse quadro exige pronto-socorro imediato.
  • Dor acompanhada de febre, pescoço rígido, confusão mental, dificuldade para falar, perda de força física ou alteração na visão que não passa. Atendimento imediato.
  • Mudança no padrão habitual da dor: crises mais frequentes, mais intensas ou com característica diferente.
  • Uso de analgésicos com muita frequência durante o mês. Se tomar remédio para a dor virou hábito, há um quadro específico por trás disso que precisa ser avaliado.
  • Primeiro episódio de dor de cabeça intensa surgindo após os 50 anos de idade.

Se você se reconhece em algum desses sinais, ou sente que as dores já mandam na sua rotina, fale comigo pelo WhatsApp para entendermos o caso e iniciarmos a investigação.

Dipirona funciona para dor de cabeça?

Depende de qual dor de cabeça e por qual via. Na cefaleia do tipo tensional, o comprimido tem evidência: um ensaio com 417 participantes mostrou que as doses de 0,5 g e 1 g por via oral superaram o placebo.10 Na crise de enxaqueca o quadro é outro. A revisão sistemática que mapeou o campo não encontrou nenhum ensaio de dipirona oral em enxaqueca, apenas estudos com o remédio na veia.1

A dipirona na veia funciona melhor que o comprimido?

O que se pode afirmar é que ela foi mais estudada dessa forma. Dois ensaios randomizados, controlados por placebo, testaram a dipirona intravenosa na crise de enxaqueca e encontraram melhora significativa da dor a partir dos 30 minutos.3,4 O comprimido não tem estudo equivalente nessa situação. Trata-se de uma diferença na evidência disponível, não da demonstração de que uma via seja superior à outra: a comparação direta entre as duas nunca foi feita em enxaqueca.

Qual é o risco real de agranulocitose com dipirona?

O risco relativo é alto e o risco absoluto é muito baixo, e uma leitura não vale sem a outra. A vigilância prospectiva conduzida em 51 hospitais de Berlim, entre 2000 e 2010, estimou uma incidência de 0,96 caso por milhão de habitantes por ano.12 O estudo internacional de referência encontrou uma razão de taxas de 23,7 em três cidades europeias, com excesso de risco de 1,1 por milhão de pessoas expostas em uma semana, e nenhum excesso de risco em outras duas cidades estudadas.11 É um evento raro, mas grave quando acontece: sinais como febre alta com dor de garganta e feridas na boca durante o uso pedem avaliação médica.

Posso tomar dipirona todos os dias para dor de cabeça?

Analgésico usado em muitos dias do mês, de forma sustentada, é um problema clínico em si, não uma simples questão de dose. Quando a dor passa a exigir remédio quase todo dia, o que precisa ser reavaliado é o diagnóstico e o tratamento preventivo, não a quantidade de analgésico. Se esse é o seu caso, leve a questão ao seu médico.

Qual é a dose de dipirona para dor de cabeça?

Não existe estudo de dose-resposta de dipirona na crise de enxaqueca, e nenhum ensaio comparou doses diferentes nessa situação. As doses que aparecem na literatura vêm de outros contextos: 0,5 g e 1 g na cefaleia tensional episódica, e 1 g por via intravenosa nos ensaios de enxaqueca.3,10 A dose adequada para cada pessoa depende do peso, da função dos rins e do fígado, das outras medicações em uso e da frequência da dor. Quem define isso é o seu médico.


Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer uso ou investigação deve ser avaliado com o seu médico.

Referências

  1. Ramacciotti AS, Soares BG, Atallah ÁN. Dipyrone for acute primary headaches. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2007. https://doi.org/10.1002/14651858.cd004842.pub2 2 3

  2. Labastida-Ramírez A, Lisicki M, Souza MN, Llenas LD, Janjua S. Dipyrone for the acute treatment of migraine attacks in children and adults. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2024. https://doi.org/10.1002/14651858.CD015367

  3. Bigal ME, Bordini CA, Tepper SJ, Speciali JG. Intravenous Dipyrone in the Acute Treatment of Migraine Without Aura and Migraine with Aura: A Randomized, Double Blind, Placebo Controlled Study. Headache: The Journal of Head and Face Pain. 2002. https://doi.org/10.1046/j.1526-4610.2002.02204.x 2 3 4

  4. Bigal M, Bordini C, Speciali J. Intravenous Metamizol (Dipyrone) in Acute Migraine Treatment and in Episodic Tension-Type Headache–A Placebo-Controlled Study. Cephalalgia. 2001. https://doi.org/10.1046/j.1468-2982.2001.00143.x 2

  5. Peres MFP, Scala WAR, Salazar R. Comparison between metamizole and triptans for migraine treatment: a systematic review and network meta-analysis. Headache Medicine. 2022. https://doi.org/10.48208/HeadacheMed.2021.32

  6. Krymchantowski AV, Carneiro H, Barbosa J, Jevoux C. Lysine clonixinate versus dipyrone (metamizole) for the acute treatment of severe migraine attacks: a single-blind, randomized study. Arquivos de Neuro-Psiquiatria. 2008. https://doi.org/10.1590/s0004-282x2008000200015

  7. Krymchantowski A, Jevoux C, Silva-Néto RP, Krymchantowski AG. Migraine Treatment in Emergency Departments of Brazil: A Retrospective Study of 2 Regions. Headache: The Journal of Head and Face Pain. 2020. https://doi.org/10.1111/head.13999

  8. Recomendações para o tratamento da crise migranosa. Arquivos de Neuro-Psiquiatria. 2000. https://doi.org/10.1590/s0004-282x2000000200029

  9. Bordini CA, Roesler C, Carvalho DdS, Macedo DDP, Piovesan É, Melhado EM, et al. Recommendations for the treatment of migraine attacks - a Brazilian consensus. Arquivos de Neuro-Psiquiatria. 2016. https://doi.org/10.1590/0004-282x2015021

  10. Martínez-Martín P, Raffaelli E, Titus F, Despuig J, Fragoso Y, Díez-Tejedor E, et al. Efficacy and Safety of Metamizol vs. Acetylsalicylic Acid in Patients With Moderate Episodic Tension-Type Headache: A Randomized, Double-Blind, Placebo- and Active-Controlled, Multicentre Study. Cephalalgia. 2001. https://doi.org/10.1046/j.1468-2982.2001.00216.x 2 3 4

  11. Risks of Agranulocytosis and Aplastic Anemia. JAMA. 1986. https://doi.org/10.1001/jama.1986.03380130077032 2

  12. Huber M, Andersohn F, Sarganas G, Bronder E, Klimpel A, Thomae M, et al. Metamizole-induced agranulocytosis revisited: results from the prospective Berlin Case–Control Surveillance Study. European Journal of Clinical Pharmacology. 2015. https://doi.org/10.1007/s00228-014-1777-8 2

Dr. Jonas Bernardes

Dr. Jonas Bernardes

Neurologia Clínica · CRM-SP 150216 · RQE 108175

Neurologista em Jaú/SP, dedicado ao diagnóstico e tratamento das doenças do sistema nervoso. Escreve para traduzir o que a neurologia sabe em decisões práticas de saúde. Atende presencialmente e por teleconsulta.

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