Dr. Jonas BernardesNeurologista Agendar consulta

Ibuprofeno para dor de cabeça: o efeito muda com o tipo de dor

Ibuprofeno 400 mg tem NNT 7 na enxaqueca e NNT 14 na cefaleia tensional, sem diferença significativa do placebo na primeira hora. O que isso muda na prática.

Cartela de comprimidos brancos parcialmente usada sobre um pano verde-escuro, na beira de uma mesa de cabeceira de madeira, ao lado de um copo de água pela metade e de uma cama ao fundo

O comprimido é o mesmo em qualquer farmácia. O que o ibuprofeno 400 mg entrega, não. Na crise de enxaqueca, ele leva a dor a zero em duas horas em 26% das crises tratadas, contra 12% com placebo.1 Na cefaleia do tipo tensional, aquela dor em faixa, a mesma dose rende bem menos, e na primeira hora não mostrou diferença significativa em relação ao placebo.2

Não é que o remédio funcione num caso e falhe no outro. O tamanho do benefício muda com o diagnóstico. A expectativa de quem toma quase nunca acompanha essa mudança.

Na enxaqueca, o número é razoável

A revisão Cochrane que reuniu os ensaios de ibuprofeno em crise de enxaqueca chegou a um NNT de 7,2 (intervalo de confiança de 5,9 a 9,2) para o desfecho mais exigente dessa literatura: dor zero em duas horas.1

NNT é o número necessário para tratar. Um NNT de 7 significa que, de cada sete pessoas que tomam o comprimido na crise, uma fica sem dor em duas horas graças a ele. As outras seis ou não melhoram, ou melhorariam de qualquer jeito. Para analgésico de balcão em enxaqueca, é um resultado respeitável.

Na tensional, o número é bem outro

Na cefaleia do tipo tensional episódica, o mesmo ibuprofeno 400 mg tem NNT 14, com intervalo de confiança de 8,4 a 47, para o mesmo desfecho de dor zero em duas horas.2

Lendo os números da própria revisão, sem enfeite: de cada 100 pessoas com dor tensional que tomam ibuprofeno 400 mg, cerca de 23 ficam sem dor em duas horas. Só que cerca de 16 dessas 23 ficariam sem dor de qualquer forma, porque foi isso que aconteceu no grupo do placebo. Sobram sete em cada cem que devem o resultado ao remédio.

Em outras palavras, 13 de cada 14 pessoas tratadas não obtêm benefício atribuível ao ibuprofeno naquele desfecho, e mesmo assim carregam a exposição ao anti-inflamatório. Isso não é fracasso do remédio. É o tamanho real do efeito. E ele muda bastante a conversa sobre tomar o comprimido com frequência.

Há ainda a primeira hora. Na tensional, a revisão não conseguiu demonstrar diferença significativa entre ibuprofeno e placebo em uma hora.2 Quem engole o comprimido e fica olhando o relógio, esperando alívio nos primeiros sessenta minutos, espera algo que a evidência disponível não sustenta.

O NNT não é estável entre revisões

Uma ressalva que raramente aparece nesse debate. Uma crítica metodológica que analisou 55 ensaios randomizados e 12.143 pacientes calculou, para a mesma pergunta, um NNT de 8,9, com intervalo de 5,9 a 18.3

São 8,9 e 14 para a mesma coisa, com critérios de inclusão diferentes. Não são dois achados que se somam: são duas estimativas do mesmo achado. O honesto é mostrar a faixa inteira, não escolher a mais simpática.

Dois desfechos, dois vencedores diferentes

A referência atual em tratamento agudo da enxaqueca é uma meta-análise em rede publicada no BMJ, com 137 ensaios randomizados, 89.445 participantes e 17 intervenções ativas comparadas ao placebo.4 Ela interessa por um motivo específico: os dois desfechos principais não coroam o mesmo remédio.

No desfecho dor zero em 2 horas, as comparações diretas são dominadas pelos triptanos. O ibuprofeno não lidera.

No desfecho ausência sustentada de dor até 24 horas, que é coisa diferente de alívio momentâneo, o quadro muda: o ibuprofeno aparece entre as intervenções mais eficazes. Duas advertências acompanham esse achado, e vêm dos próprios autores. A certeza dessa estimativa foi classificada como muito baixa, e ela foi puxada por um único estudo cuja resposta ao placebo foi anormalmente baixa. O ibuprofeno tem lugar legítimo na crise de enxaqueca. O que não se sustenta é usar esse resultado como prova de superioridade.

O contrapeso está na mesma literatura: uma meta-análise anterior sobre ibuprofeno em dose baixa na enxaqueca registrou que a ausência sustentada de dor em 24 horas não foi melhor que placebo.5

O que isso muda na prática

Duas coisas. A primeira é a expectativa: se a sua dor é tensional, o ibuprofeno pode ajudar, mas dificilmente do jeito rápido e completo que a propaganda de analgésico sugere. A segunda é a frequência: um remédio cujo benefício atribuível é pequeno num tipo de dor não deveria ser tomado muitas vezes por mês para esse tipo de dor. A exposição ao anti-inflamatório continua inteira mesmo quando o benefício é pequeno.

Anti-inflamatório usado com frequência pesa sobre o estômago, sobre os rins e sobre o risco de sangramento, e esse peso não some porque o comprimido é vendido sem receita. Quem tem úlcera, gastrite, doença renal, pressão alta ou usa anticoagulante ou antiagregante precisa conversar com o médico antes de fazer do ibuprofeno a solução de rotina.

O que eu vejo no consultório

Existe uma crença silenciosa que aparece em quase toda consulta de dor de cabeça: a de que anti-inflamatório é mais forte que analgésico comum. Quando o remédio simples não resolve, a pessoa sobe um degrau que ela imagina existir e vai para o ibuprofeno, porque “é anti-inflamatório”. Nessa lógica, a força seria uma propriedade da caixa. Não é. O que decide o resultado é o encontro entre o remédio e o tipo de dor. Por isso o mesmo comprimido resolve bem numa pessoa e parece inútil na outra.

Isso muda o que eu ouço quando pergunto o que já foi tentado. Vem uma lista longa, às vezes com seis ou sete nomes, e a conclusão que a pessoa tirou dela: “eu já tomei de tudo e nada funciona comigo”. Quase sempre a lista não foi testada contra o diagnóstico certo. Não é que nada funcione. A pergunta que produziu aquela lista é que não era a pergunta certa.

O outro ponto é o estômago, e ele me obriga a mudar de conduta com frequência. Anti-inflamatório repetido cobra caro de quem tem úlcera, gastrite, rim no limite ou está em antiagregante. Nessas pessoas o ibuprofeno é o primeiro que eu tiro, mesmo quando é o que estava ajudando. E quando alguém me conta que toma anti-inflamatório várias vezes por semana há meses, o assunto da consulta deixa de ser qual comprimido usar e passa a ser por que a dor está vindo tantas vezes.

Cada analgésico tem a sua própria história

O que está nesta página vale para o ibuprofeno. A dipirona, por exemplo, tem um perfil de evidência bem diferente, quase todo concentrado na via intravenosa. Cada analgésico de balcão tem avaliação própria aqui no site.

Quando procurar o neurologista

Dor de cabeça que cede com analgésico não é, sozinha, sinal de alarme. Alguns cenários mudam isso e pedem avaliação:

  • Dor súbita e muito intensa, que chega ao pico em segundos ou poucos minutos. Atendimento imediato.
  • Dor com febre, rigidez de nuca, confusão, dificuldade para falar, perda de força ou alteração visual que não passa. Atendimento imediato.
  • Mudança no padrão da sua dor habitual: mais frequente, mais forte, ou diferente do que sempre foi.
  • Anti-inflamatório em muitos dias do mês. Se virou rotina, há um quadro por trás que precisa ser avaliado.
  • Primeira dor de cabeça forte depois dos 50 anos.

Se a dor já está organizando a sua semana, ou se o comprimido virou hábito, fale comigo pelo WhatsApp para entendermos o caso.

Ibuprofeno funciona para dor de cabeça?

Funciona, mas o tamanho do benefício depende do tipo de dor. Na crise de enxaqueca, o ibuprofeno 400 mg deixa a pessoa sem dor em duas horas em 26% das crises tratadas, contra 12% com placebo.1 Na cefaleia do tipo tensional, o benefício atribuível ao remédio é bem menor, e na primeira hora a revisão não encontrou diferença significativa em relação ao placebo.2

Quanto tempo o ibuprofeno leva para fazer efeito na dor de cabeça?

Os ensaios que sustentam o uso medem o resultado em duas horas, não em minutos. Na cefaleia tensional, especificamente, a revisão que reuniu esses estudos não conseguiu demonstrar diferença entre ibuprofeno e placebo na primeira hora.2 Alívio completo nos primeiros sessenta minutos é uma expectativa que a evidência disponível não sustenta.

Ibuprofeno é melhor que os outros analgésicos para dor de cabeça?

Depende do desfecho que se mede, e por isso a pergunta não tem resposta simples. Na meta-análise em rede mais recente sobre crise de enxaqueca, os triptanos dominam o desfecho de dor zero em duas horas e o ibuprofeno não lidera. Já na ausência sustentada de dor até 24 horas, o ibuprofeno aparece entre os mais eficazes, com uma ressalva importante dos próprios autores: a certeza dessa estimativa é muito baixa.4

Ibuprofeno faz mal para o estômago?

Anti-inflamatórios como o ibuprofeno pesam sobre o estômago, sobre os rins e sobre o risco de sangramento, e esse risco cresce com o uso repetido. Ser vendido sem receita não muda nada disso. Quem tem úlcera, gastrite, doença renal, pressão alta ou usa anticoagulante ou antiagregante precisa conversar com o médico antes de adotar o ibuprofeno como rotina.

Posso tomar ibuprofeno todo dia para dor de cabeça?

Analgésico ou anti-inflamatório em muitos dias do mês, de forma sustentada, é um problema clínico por si só. Quando a dor exige remédio quase todo dia, o que precisa ser revisto é o diagnóstico e o tratamento preventivo, não a quantidade de comprimidos. Leve essa informação ao seu médico.


Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer uso ou investigação deve ser avaliado com o seu médico.

Referências

  1. Rabbie R, Derry S, Moore RA. Ibuprofen with or without an antiemetic for acute migraine headaches in adults. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2013. https://doi.org/10.1002/14651858.CD008039.pub3 2 3

  2. Derry S, Wiffen PJ, Moore RA, Bendtsen L. Ibuprofen for acute treatment of episodic tension-type headache in adults. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2015. https://doi.org/10.1002/14651858.CD011474.pub2 2 3 4 5

  3. Moore AR, Derry S, Wiffen PJ, Straube S, Bendtsen L. Evidence for efficacy of acute treatment of episodic tension-type headache: Methodological critique of randomised trials for oral treatments. Pain. 2014. https://doi.org/10.1016/j.pain.2014.08.009

  4. Karlsson WK, Ostinelli EG, Zhuang ZA, Kokoti L, Christensen RH, Al-Khazali HM, et al. Comparative effects of drug interventions for the acute management of migraine episodes in adults: systematic review and network meta-analysis. BMJ. 2024. https://doi.org/10.1136/bmj-2024-080107 2

  5. Suthisisang C, Poolsup N, Kittikulsuth W, Pudchakan P, Wiwatpanich P. Pain Management: Efficacy of Low-Dose Ibuprofen in Acute Migraine Treatment: Systematic Review and Meta-Analysis. Annals of Pharmacotherapy. 2007. https://doi.org/10.1345/aph.1K121

Dr. Jonas Bernardes

Dr. Jonas Bernardes

Neurologia Clínica · CRM-SP 150216 · RQE 108175

Neurologista em Jaú/SP, dedicado ao diagnóstico e tratamento das doenças do sistema nervoso. Escreve para traduzir o que a neurologia sabe em decisões práticas de saúde. Atende presencialmente e por teleconsulta.

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