Dr. Jonas BernardesNeurologista Agendar consulta

Qual o melhor remédio para dor de cabeça: não há vencedor

Paracetamol, ibuprofeno e cetoprofeno empatam nos estudos, com intervalos de confiança sobrepostos. A tabela lado a lado e o que decide a escolha na prática.

Três comprimidos brancos de formatos ligeiramente diferentes alinhados lado a lado sobre superfície cinza clara, igualmente espaçados e igualmente iluminados, com faixa verde-escura na borda inferior

Paracetamol, ibuprofeno e cetoprofeno não têm vencedor demonstrado na dor de cabeça do dia a dia. Medidos no mesmo desfecho, pelo mesmo método, os três entregam resultados praticamente idênticos, e os intervalos de confiança se sobrepõem quase por inteiro.1

A pergunta sai frustrada. Outra, bem mais útil, sai respondida: se nenhum é comprovadamente melhor, a escolha passa a se decidir por outras coisas, e essas outras coisas são conhecíveis.

Os três lado a lado, com os intervalos à mostra

Uma análise metodológica juntou 55 ensaios randomizados e 12.143 pacientes e calculou, para os três únicos analgésicos com dados suficientes, o NNT num mesmo desfecho: estar sem dor em 2 horas, na cefaleia do tipo tensional.1

Fármaco e doseEnsaiosPacientesSem dor em 2 h (ativo × placebo)NNT (IC95%)
Paracetamol 1000 mg51.38734% × 22%8,7 (6,2 a 15)
Ibuprofeno 400 mg382629% × 18%8,9 (5,9 a 18)
Cetoprofeno 25 mg228527% × 18%9,8 (5,1 a 146)

NNT é o número de pessoas que precisam tomar o remédio para que uma fique sem dor graças a ele. Quanto menor, melhor.

A tabela obriga três leituras.

Os três empatam. 8,7, 8,9 e 9,8 são indistinguíveis entre si: os intervalos se sobrepõem inteiramente, e cada valor cai dentro do intervalo dos outros dois. Nenhuma diferença entre os três foi demonstrada nesse desfecho.

Repare no intervalo do cetoprofeno, 5,1 a 146. Um NNT de 5 é um analgésico muito bom; um NNT de 146 é indistinguível de não tomar nada. Dois ensaios, 285 pacientes: o limite superior praticamente não carrega informação, e o valor de 9,8 fica quase decorativo.

Números diferentes para a mesma pergunta não se somam. Outra boa análise do mesmo desfecho encontrou NNT 22 para o paracetamol 1000 mg, contra os 8,7 desta tabela. Não são dois achados: é o mesmo achado medido de dois jeitos, com critérios de inclusão diferentes. Quando duas análises sérias divergem por um fator de dois e meio, o honesto é dizer que a magnitude real é incerta e provavelmente pequena.

As comparações diretas dizem a mesma coisa

A revisão Cochrane pôs o paracetamol 1000 mg frente ao cetoprofeno 25 mg e ao ibuprofeno 400 mg. Nenhuma diferença significativa, com evidência de qualidade baixa.2

Uma meta-análise em rede com 14 ensaios e 6.521 pessoas chegou ao mesmo lugar no desfecho de 2 horas: ibuprofeno com OR 1,73 (IC95% 1,17–2,56), paracetamol com OR 1,62 (IC95% 1,24–2,13), sem diferença estatística entre eles. No recorte de 1 hora o paracetamol aparece à frente, e foi o que teve a menor chance de exigir um segundo remédio de resgate (OR 0,49; IC95% 0,37–0,65).3

O contraponto, que também precisa aparecer

Nem tudo aponta para o empate perfeito. Uma meta-análise em rede bayesiana ordenou os analgésicos simples por probabilidade de serem os melhores e pôs o ibuprofeno em primeiro, com o paracetamol em quarto entre cinco fármacos.4

Ranking desse tipo não é diferença demonstrada. É probabilidade de ordenação, e ela é sensível a quais estudos entram na rede. Um remédio pode liderar uma lista dessas sem que a diferença para o segundo colocado se sustente estatisticamente.

Na enxaqueca, a conversa muda

O empate acima vale para a cefaleia do tipo tensional. Comparados através de várias condições dolorosas, os dois analgésicos mais estudados se separam: o ibuprofeno foi consistentemente superior ao paracetamol em dor pós-operatória, em osteoartrite e em enxaqueca. A cefaleia tensional foi a única condição em que não houve diferença, e os próprios autores declaram ressalvas metodológicas.5

A leitura que esse conjunto autoriza é desconfortável, e vale dizer com todas as letras: a tensional é o terreno em que o paracetamol menos perde, não porque ele seja bom ali, mas porque nenhum deles é muito bom ali.

Então o que decide a escolha

Se a eficácia não separa os três, separa o resto. E o resto não é detalhe.

Pesa primeiro o que você tem além da dor de cabeça. Úlcera, gastrite, doença renal, pressão alta, anticoagulante ou antiagregante em uso: qualquer um desses muda completamente quais opções continuam disponíveis, porque anti-inflamatórios cobram do estômago, dos rins e do risco de sangramento.

Depois vem a tolerância. Um remédio que funciona e cai mal é pior, na prática, que um equivalente que você tolera bem.

O tipo da dor também conta. Enxaqueca e cefaleia tensional não respondem igual, e o mesmo comprimido rende coisas diferentes em cada uma.

Sobra a frequência com que você precisa tomar, que é o fator que mais muda a conduta e o menos considerado por quem escolhe na farmácia.

A escolha entre analgésicos comuns não é, portanto, disputa de potência. É uma decisão sobre compatibilidade, e ela precisa ser feita individualmente com seu médico, que é quem conhece o resto da sua história.

O que eu vejo no consultório

“Qual é o melhor?” é provavelmente a pergunta que eu mais ouço, e ela chega sempre com a mesma expectativa embutida: existe um ranking, e eu sei quem está em primeiro. Quando respondo que os três empatam nos estudos, a reação costuma ser de desconfiança, como se eu estivesse fugindo da pergunta. Não estou. A pergunta tem uma resposta pior do que a esperada e uma resposta melhor do que a esperada, e as duas são verdadeiras.

Na prática, a escolha quase nunca se decide pela eficácia. Ela se decide por quem é a pessoa. Se tem úlcera ou gastrite, o anti-inflamatório sai. Se tem pressão alta ou o rim no limite, sai também. Se usa anticoagulante ou antiagregante, sai. Se bebe com regularidade ou tem problema no fígado, mudo de lado. Se está grávida, a conversa é inteira outra. Terminados esses filtros, a lista que sobra costuma ser bem curta, e aí não há muito o que escolher.

Existe também a variação individual, que é real e não está nos números. Vejo gente que responde bem a um e não responde ao outro, sem que eu consiga explicar por quê a partir do que a literatura mostra. É um dado clínico legítimo e eu levo a sério na hora de decidir. Só não é o mesmo que dizer que um remédio é melhor: é dizer que aquele remédio parece ser melhor para aquela pessoa, o que é uma afirmação muito menor e muito mais útil.

O que mais me preocupa nessa conversa nem é qual comprimido a pessoa vai escolher. É a frequência. Alguém que precisa escolher entre analgésicos várias vezes por semana já saiu do território em que essa pergunta importa e entrou num outro, em que a pergunta certa é por que a dor está vindo tantas vezes.

O perfil de cada um, em detalhe

Este texto compara. Cada analgésico tem a sua própria página, com o que a evidência mostra especificamente sobre ele: a dipirona, o ibuprofeno, o paracetamol, o cetoprofeno e a nimesulida.

Quando a pergunta certa deixa de ser “qual remédio”

Alguns cenários pedem avaliação, e em todos eles a escolha do analgésico é a parte menos importante:

  • Dor de cabeça súbita e muito intensa, com pico em segundos ou poucos minutos. Atendimento imediato.
  • Dor com febre, rigidez de nuca, confusão, dificuldade para falar, perda de força ou alteração visual persistente. Atendimento imediato.
  • Você precisa de analgésico em muitos dias do mês. Aqui a pergunta deixa de ser qual comprimido e passa a ser por que a dor está vindo tantas vezes.
  • Nenhum dos analgésicos comuns resolve as suas crises.
  • Mudança no padrão da sua dor habitual, ou primeira dor forte depois dos 50 anos.

Se você chegou a esta página procurando o melhor remédio e se reconheceu em algum desses pontos, o próximo passo não é trocar de comprimido. Fale comigo pelo WhatsApp e a gente investiga a causa da dor, que é onde a decisão realmente está.

Qual é o melhor remédio para dor de cabeça?

Nenhum vencedor foi demonstrado entre os analgésicos comuns. Numa análise com 55 ensaios e 12.143 pacientes, o NNT para ficar sem dor em 2 horas na cefaleia tensional foi 8,7 para o paracetamol 1000 mg, 8,9 para o ibuprofeno 400 mg e 9,8 para o cetoprofeno 25 mg, com intervalos de confiança que se sobrepõem inteiramente.1 Na prática, a escolha se decide pela tolerância e pelas suas outras condições de saúde, não pela potência.

O que é mais forte para dor de cabeça, paracetamol ou ibuprofeno?

Na cefaleia do tipo tensional, nenhum dos dois se mostrou superior ao outro: uma meta-análise em rede com 14 estudos e 6.521 pessoas não encontrou diferença estatística no desfecho de 2 horas.3 Olhando para além da dor de cabeça, o quadro muda: comparados através de várias condições dolorosas, o ibuprofeno foi consistentemente superior em dor pós-operatória, osteoartrite e enxaqueca, e a tensional foi justamente a única condição sem diferença.5

Se todos são iguais, tanto faz qual eu tomo?

Não. Igualdade de eficácia demonstrada não é igualdade de risco. Anti-inflamatórios pesam sobre o estômago, os rins e o risco de sangramento, e ficam contraindicados em várias situações em que outro analgésico segue possível. Quem tem úlcera, gastrite, doença renal, pressão alta ou usa anticoagulante tem um leque bem menor de opções. É por isso que a escolha precisa ser feita individualmente com seu médico.

Por que os estudos dão números tão diferentes para o mesmo remédio?

Porque medem conjuntos diferentes de ensaios e agregam de maneiras diferentes. Para o paracetamol 1000 mg no mesmo desfecho, uma análise chegou a NNT 8,7 e outra a NNT 22.1,2 Não são dois achados que se somam: é o mesmo achado medido de dois jeitos. Quando duas análises sérias divergem por um fator de dois e meio, a conclusão honesta é que a magnitude real é incerta e provavelmente pequena.

Quando devo parar de trocar de analgésico e procurar um médico?

Quando a frequência entra na conta. Precisar de analgésico em muitos dias do mês, de forma sustentada, aponta um problema que nenhuma troca de comprimido resolve. Merecem avaliação também as crises que nenhum analgésico comum controla, a mudança no padrão da sua dor habitual e a primeira dor de cabeça forte depois dos 50 anos.


Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Nenhuma informação aqui é prescrição: qualquer uso ou investigação deve ser avaliado com o seu médico.

Referências

  1. Moore AR, Derry S, Wiffen PJ, Straube S, Bendtsen L. Evidence for efficacy of acute treatment of episodic tension-type headache: Methodological critique of randomised trials for oral treatments. Pain. 2014. https://doi.org/10.1016/j.pain.2014.08.009 2 3 4

  2. Stephens G, Derry S, Moore RA. Paracetamol (acetaminophen) for acute treatment of episodic tension-type headache in adults. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2016. https://doi.org/10.1002/14651858.CD011889.pub2 2

  3. Alnasser A, Alhumrran H, Alfehaid M, Alhamoud M, Albunaian N, Ferwana M. Paracetamol versus ibuprofen in treating episodic tension-type headache: a systematic review and network meta-analysis. Scientific Reports. 2023. https://doi.org/10.1038/s41598-023-48910-y 2

  4. Xie R, Li J, Jing Y, Tian J, Li H, Cai Y, et al. Efficacy and safety of simple analgesics for acute treatment of episodic tension-type headache in adults: a network meta-analysis. Annals of Medicine. 2024. https://doi.org/10.1080/07853890.2024.2357235

  5. Moore R, Derry S, Wiffen P, Straube S, Aldington D. Overview review: Comparative efficacy of oral ibuprofen and paracetamol (acetaminophen) across acute and chronic pain conditions. European Journal of Pain. 2015. https://doi.org/10.1002/ejp.649 2

Dr. Jonas Bernardes

Dr. Jonas Bernardes

Neurologia Clínica · CRM-SP 150216 · RQE 108175

Neurologista em Jaú/SP, dedicado ao diagnóstico e tratamento das doenças do sistema nervoso. Escreve para traduzir o que a neurologia sabe em decisões práticas de saúde. Atende presencialmente e por teleconsulta.

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